ÀQUELES QUE USAM O NOME DA CIÊNCIA EM VÃO!

Por HAMILTON GONDIM

Mundo em Transformação


Atualmente, em função da pandemia do Covid-19, a todo instante tem-se ouvido, na imprensa tradicional, expressões do tipo:


“Temos que respeitar a ‘ciência’ e priorizar a vida”;

“O governo é contra a ‘ciência’ e a medicina...”;

“Em respeito à ‘ciência’, temos que fazer isso... ou aquilo”;

“A ‘ciência’ diz que não devemos tomar esse ou aquele medicamento, por falta de comprovação ‘científica’”

“A ‘ciência’ nos ensina que...”


Iniciaremos nossos comentários, lembrando que muitas crueldades no mundo têm sido praticadas em nome da “ciência”. Inúmeras “experiências científicas” com seres humanos (“cobaias”) foram realizadas em campos de concentração do regime nazista, durante a segunda guerra mundial, sem o prévio consentimento dos envolvidos, nem informações sobre as possíveis consequências negativas da experiência. Assim, foram realizados experimentos com prisioneiros saudáveis, tento sidos: deliberadamente infectados com a bactéria tifo; administrados venenos secretamente na sua alimentação; queimados com fósforo extraídos de bombas incendiárias; submetidos à baixa pressão, simulando altas altitudes como as encontradas por pilotos alemães que se ejetavam de seus aviões; obrigados a consumir água do mar, que havia sido experimentalmente tratada por vários métodos para torná-la potável; expostos à malária, gás mostarda, e esterilização.


Essas desumanidades não foram restritas ao Nazismo, segundo a BBC News-Brasil, 01/10/2010, reportagem reproduzida pelo Jornal de Brasília, em 02/10/2010, os Estado Unidos da América pediram desculpas por infectar cerca de 1.500 pessoas com gonorreia, sífilis e cancro mole na Guatemala durante experimentos médicos, organizados pelo Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, há cerca de 60 anos (sempre com a desculpa de que estariam “salvando vidas”). Muitos dos pacientes estavam internados em instituições psiquiátricas. Os médicos fizeram inoculação direta ou usaram prostitutas com sífilis e gonorreia para infectar os pacientes previamente tratados com penicilina, para tentar determinar se a substância poderia prevenir a doença. Ainda, de acordo com a BBC - Brasil, durante o governo de Bill Clinton, foram feitos experimentos para observar o progresso da sífilis em negros norte-americanos sem tratar os pacientes, que não sabiam ter contraído a doença.


A palavra "ciência" vem do latim "scientia", que significa "conhecimento”. A ciência busca compreender “verdades” ou “leis naturais” para explicar o funcionamento das coisas e do universo em geral. Segundo Aristóteles, a ciência é um "conhecimento demonstrativo". É um conhecimento que pode ser comprovado por meio de demonstração, com fundamento em observações, análises e experimentos, em condições similares, considerando as mais diversas hipóteses sobre um assunto. Ciência é um conceito complexo, pois o mundo em que vivemos é de uma heterogeneidade extraordinária.


O mundo em que vivemos (mundo real) é demasiadamente confuso; é um mundo cheio de imperfeições, de particularidades, de individualidades, às vezes estranhas, tornando extremamente difícil criar situações idênticas ou similares que permitam a generalização de um conhecimento demonstrado em circunstâncias específicas. É por isso que “cientistas” fazem observações, verificações, medições, análises e classificações, procurando entender os fatos e traduzi-los para uma linguagem estatística, bem mais simples. Embora sejam “verdades” naquelas condições especificadas, não necessariamente serão verdadeiras para todas as demais situações. É aí que entra o método científico.


O método científico cria, então, um mundo hipotético ao simplificar o mundo real. Permite, assim, que se trabalhem implicações lógicas, com maior simplicidade, nesse mundo hipotético, onde as inter-relações dos fenômenos estudados são, supostamente, conhecidas por completo, sem as complicações das incertezas, e das diversidades confusas do mundo real. Das inter-relações pressupostas, obtêm-se resultados e implicações hipotéticas que representam consequências lógicas nesse mundo simplificado das suposições. A validade universal desses resultados hipotéticos, que valem dentro de certas condições pré-concebidas, e que formam uma “teoria científica” (Hipótese → Tese), como aproximação da realidade é algo que precisa ser discutido e testado.


O método científico é uma forma técnica de se resolver problemas altamente complexos que surgem no mundo real. É preciso simplificar esse mundo, criando hipóteses, para que se possa utilizar as ferramentas cognitivas necessárias para a solução desses problemas. Na verdade, todos os resultados teóricos podem já estarem embutidos nas suposições feitas, visto serem apenas implicações lógicas dentro do mundo das hipóteses. Isto é, “tira-se do modelo o que se colocou dentro”. Em outras palavras: os resultados da teoria são simples consequências lógicas de suas próprias suposições e devem ser olhados, com mais humildade acadêmica, reconhecendo suas limitações, apesar da elegância e da sofisticação do raciocínio lógico.


A modelagem utilizada na teoria econômica para análise de uma economia capitalista segue, em geral, essa lógica. Os modelos econômicos abstraem-se completamente das complicações da vida real, simplificando demasiadamente esses condicionantes para tratar de uma hipotética unidade decisória “típica”. Dessa forma, os agentes econômicos “típicos”, consumidor ou produtor, são criados com padrão de comportamento economicamente racional e visando egoisticamente ao melhor para si. Da mesma forma, quando se trata do governo, supõe-se que seja uma unidade decisória simples, exógena ao modelo, com objetivo simples. A teoria parte, então, para invenções de mundos hipotéticos, tremendamente simplificados, com vantagens analíticas extraordinárias. Tirar desse mundo altamente simplificado, porém impregnado de preconcepções, inclusive, ideológicas, muitas vezes, servindo a interesses não confessados, generalizações econômicas que seriam universalmente válidas, é tarefa praticamente impossível. Porém, é necessário que lembremos: as conclusões obtidas desses modelos representam resultados que, por sua vez, são também hipóteses sobre o comportamento no mundo real que precisam ser testadas e contextualizadas.


Na presença cada vez mais marcante dos grandes complexos industriais transnacionais, onde o poder monopolístico é substancial, além da importância das economias de escala na produção de certos bens e das externalidades, não se pode esperar que o equilíbrio geral da economia, com plena utilização dos fatores de produção, seja a regra. Pelo contrário, nessas novas condições mais realistas, tem-se verificado a existência de situações em que persistem altas taxas de desemprego e subemprego, principalmente nas economias dependentes periféricas. Como consequência, pode-se obter uma distribuição interna dos benefícios da atividade econômica altamente concentradora, existindo grupos sociais (os excluídos ou esquecidos) que não auferem o suficiente para lhes garantir a provisão de suas necessidades básicas.


Além disso, no mundo contemporâneo moderno, o governo, sendo o resultado da acomodação das forças políticas que representam os interesses de diferentes grupos da sociedade, tem sua área de ação ampliada de forma bastante significativa e, geralmente, representa a elite da sociedade. O governo é, portanto, endógeno, isto é, retirado da própria sociedade.

Mudando completamente de área de conhecimento, vejamos um exemplo da física (que representa uma “ciência” supostamente “exata”). O fenômeno da queda livre dos corpos que, abandonados a certa altura serão acelerados pela gravidade em direção ao solo. A teoria da queda “livre” dos corpos desconsidera o efeito da resistência do ar. Por isso, nesse tipo de movimento, o tempo de queda (e a velocidade) dos objetos não depende de sua massa ou de seu tamanho, mas somente da altura em que foram soltos e do módulo da aceleração da gravidade no local.


Pela teoria da queda “livre” dos corpos (desprezando a resistência do ar), não seria necessário que o paraquedista abrisse seu paraquedas; chegaria ao solo da mesma forma (com a mesma velocidade). Porém, apesar de ser chamado de queda livre, o movimento do paraquedista sofre a resistência do ar, tornando a queda com o paraquedas aberto muito mais suave. Não vejo ninguém com coragem suficiente para testar a teoria da queda livre, saltando de um avião (sem paraquedas...). Essa teoria da física foi elaborada sob certas condições que não estão usualmente presentes na natureza, não significando ser menos importante.


A mais exata das ciências, a matemática que é cantada “em prosa e verso” como infalível (tão certo como dois mais dois são quatro) é construída a partir de certos postulados. O resultado de um mais um (1+1) pode ser dois (2) ou dez (10), dependendo se você estar trabalhando no sistema decimal ou binário. Pelo sistema binário, que é a base do computador, pode-se dizer que 1+1+1+1= 100. A máquina só conhece dois algarismos: 1 (com energia) e 0 (sem energia) e é tão fantástica, nos dias de hoje.


Um outro exemplo muito comum, ainda dentro da matemática, pode ser encontrado na “regra de três simples e inversa” no problema: Doze operários realizam uma obra em 8 dias. Quatro operários a realizarão em quantos dias? A resposta é, obviamente, 24 dias.


A regra de três é uma teoria desenvolvida no “mundo hipotético” em que não existem rendimentos de escala decrescentes e negativos. Isto é “científico”, “exato, “matemático”, “indiscutível”. Porém, isto só é válido para pequenas variações das circunstâncias encontradas. Ninguém é suficientemente “maluco” para afirmar que 1.000.000 de homens realizarão a mesma obra quase que instantaneamente. Os rendimentos de cada trabalhador vão diminuindo à medida em que o número de operários vai aumentando, aproximando-se de zero, até tornar-se negativo (pelo efeito da “Torre de Babel”).


Essas não são particularidades da economia, da física ou da matemática, qualquer teoria (‘ciência’) é feita sob certas circunstâncias e condições, e visando a resolver algum problema específico. Não se pode sair por aí usando o nome da “ciência” em vão, falando tantas tolices de forma impune, como tem acontecido durante a pandemia do Covid-19.


Procuremos entender porque demora tanto para se ter uma vacina eficaz e segura. O período desde a identificação do agente causador da doença até a validação de uma vacina nos Estados Unidos tem sido um tempo médio de 12 a 19 anos, sendo: Caxumba, 4 anos; Sarampo, 10 anos; Hepatite B, 16 anos; HPV, 25 anos; Rotavirus, 33 anos; Catapora, 42 anos; Coqueluche, 42 anos; Pólio 47 anos; Tuberculose, 45 anos; Meningite, 92 anos; e Febre Tifóide, 133 anos. Queremos, agora, obter uma vacina confiável e eficaz, em questão de poucos meses? Não é muita arrogância?

Para a validação de uma vacina por alguma agência (tipo Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa, no Brasil) são necessários anos de pesquisas e testes clínicos antes da vacina ser aplicada em seres humanos, de forma regular. São cinco as etapas necessárias para a criação de uma nova vacina, duas preliminares e três de testes clínicos. Na primeira etapa, são feitas pesquisas em laboratórios e na segunda, são realizados testes em animais para comprovar os dados obtidos. A partir da terceira etapa, começa a ser aplicada em humanos, com o objetivo de testar a eficácia (adequação para alcançar o resultado pretendido ou esperado) e a segurança.


Na última etapa, antes da aprovação, o ensaio clínico é feito em larga escala, com milhares de indivíduos e de diferentes populações, para uma avaliação mais definitiva da eficácia e segurança. A ideia é confirmar o seu efeito de proteção contra o coronavírus (geração de anticorpos em quantidade adequada para combater o vírus), por um período razoável, sem provocar efeitos colaterais graves.

A vacina CoronaVac (por exemplo) começou a fazer os testes, no Brasil, em humanos no dia 21 de julho deste ano (os primeiros 890 voluntários foram de São Paulo). Em outubro, ao todo, 5.600 dos 9 mil voluntários já receberam pelo menos uma dose da vacina, em cinco estados e no Distrito Federal. Na melhor das hipóteses, hoje, não se pode dizer que essa vacina pode ser considerada eficaz, isto é, que produza anticorpos capazes de combater o coronavirus, por um período, digamos, de ano, e sem gerar respostas imunológicas indesejáveis, não provocando efeitos colaterais perturbadores, para um período de dez meses.

Tudo é, ainda, incerto, uma vez que as fases de testes começaram recentemente e é impossível ter certeza de que a resposta imune induzida pela vacina será ou não duradoura. Enquanto outras vacinas, como a da polio, são vitalícias, e as para influenza precisam ser tomadas anualmente, não se pode dizer quanto tempo a CoronaVac oferecerá proteção contra a COVID-19.

Absolutamente nada pode ser inferido para além de três meses, visto que só se tem três meses de teste, da mesma forma que não se pode garantir que uma criança nasça depois de um mês de gravidez (não se pode atropelar o tempo). Por isso, as pesquisas podem demorar anos para serem concluídas.

Diante da pandemia da COVID-19, alguns países, não podendo acelerar o tempo de desenvolvimento da pesquisa, por uma impossibilidade aritmética, resolveram autorizar o uso emergencial, em caráter experimental (não em animais, mas em seres humanos) antes de obter a aprovação formal e da conclusão de toda a pesquisa. Mesmo que efeitos colaterais e menor eficácia do produto sejam possíveis, essas autoridades acreditam que a necessidade de proteger a população é mais importante que os eventuais riscos.


A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) é o órgão brasileiro responsável pelo certificado de aero navegabilidade de aviões, após o atendimento de algumas exigências. Os planadores, ultraleves e aviões experimentais são permitidos voarem (com menores exigências) como experimentais, portanto por conta e risco dos “aventureiros” que assim o desejarem. Esta condição é exposta de forma clara na cabine da aeronave.


Exigir que todos os brasileiros sejam vacinados com qualquer vacina liberada apenas para uso emergencial (experimental), de forma obrigatória, seria uma crueldade. Na verdade, o governo deveria exigir, de todos que desejarem tomar vacinas experimentais, a assinatura de documento assumindo total responsabilidade por toda e qualquer consequência dos efeitos colaterais, visto que, a própria Pfizer disse que não poderia se responsabilizar por efeitos adversos. A Pfizer estabelece uma cláusula em seus contratos que exime o laboratório de responsabilidade por efeitos colaterais futuros da vacina, estabelecendo que só pode ser julgada fora do Brasil, em caso de eventuais problemas com sua vacina, segundo o discurso feito no Senado, pelo Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.


Apesar de todo barulho feito, até o momento, nenhum laboratório apresentou pedido de registro emergencial ou de registro final à ANVISA. Como querer que a ANVISA dê o seu aval?


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