A BRASÍLIA QUE APRENDI A AMAR

Atualizado: Abr 21

Por CÉLIA LADEIRA MOTA


Cheguei a Brasília em 1973, casada e com três filhos, dois meninos de 3 e 4 anos e minha filha recém-nascida. Fomos morar no QI-3 do Lago Sul, numa casa térrea muito simples, mas com um quintal enorme, bem acolhedor. No final da rua uma surpresa: a Casa da Vovó, um jardim de infância pronto para receber os meninos. Nossa casa logo se tornou um ponto de encontro não só da criançada da escola como dos amigos e colegas jornalistas. Meu marido, Leonardo Mota, estava trabalhando no Incra. Eu vim transferida pelo Jornal do Brasil, para a cobertura do noticiário político.


Moradores do Rio de Janeiro, uma cidade então mergulhada nos choques com a ditadura, a mudança para Brasília representava a paz que buscávamos. E, de fato, Brasília era sossegada, de trânsito fácil, cidade com muito sol e tardes modorrentas. Para as crianças era um paraíso. Logo fizemos como muitos outros pais e mães que viveram na cidade naqueles anos 70. Passamos a frequentar o Parque do Foguetão, um espaço de brinquedos infantis no parque da cidade. O foguetão era um escorregador enorme, atraindo pequenos e grandes. O Colégio Maria Imaculada foi outra grande referência para meus filhos e minha neta, Isabella, filha da Ana Luisa.


Nos anos 70 e 80 a cidade era pequena. A Asa Norte quase não tinha comércio, o Eixo Rodoviário apenas ligava as duas asas e as tesourinhas eram uma aventura a mais, pelo sobe e desce do movimento. O comércio se limitava às quadras e ao Conjunto Nacional, um lugar de lojas enormes e corredores imensos, onde se comia pastel e podia se fazer algumas compras. O Conic era o centro da diversão, com cinemas, livrarias e lugares para lanches. Os grandes shoppings do Rio e São Paulo ainda não haviam descoberto Brasília.


Foram anos também de busca de novas experiências religiosas. A cidade vivia a aura de ser o centro espiritual do Brasil. Grupos espiritualistas surgiam todos os dias. Havia grupos que se dedicavam a contemplar, da imensidão do cerrado, a abordagem de discos voadores. Fui com a Soninha Carneiro, minha colega do Jornal do Brasil, cobrir a chegada de um destes óvnis. Passamos a noite no meio do mato e ficamos frustradas. Só conseguimos foi pisar em bosta de vacas. Em Planaltina, no Vale do Amanhecer, um grupo espiritual recrutava médiuns para o contato com o além. Ao ir numa das sessões quase sofri um acidente de carro que me fez desistir da busca. Frequentei, depois disto, um ashram, em que fazia ioga e meditação.


Em 1974, foi eleito, de forma indireta, o presidente Geisel. E o Congresso viveu novos dias com o surgimento do MDB, que movimentou as sessões parlamentares com a presença de senadores como Paulo Brossard, Roberto Freire, Jarbas Passarinho, Pedro Simon, e outros. Os debates eram longos e inesquecíveis. Foi uma fase que preparou o advento da abertura política, lenta e gradual. Vale a pena lembrar que a ditadura estava presente no nosso dia a dia. Andar com o meu fusquinha na W-3 podia ser perigoso. Uma patrulha da PM fiscalizava os carros para que não ultrapassassem a velocidade. Desde aquela época já era de 60 quilômetros. Um dia, ousei emparelhar com uma patrulha, que me parou e me obrigou a segui-la. Obedeci até certo ponto e quando tive oportunidade, entrei numa tesourinha e fugi. O resultado foi que me identificaram e fui chamada à presença do comandante da PM, levei uma bronca, me defendi e fui liberada.


Em 1976 voltei ao Rio para assumir um cargo na TV Globo. As crianças voltaram comigo e o marido voltou depois. Foi um intervalo de seis anos até retornar de novo a Brasília. Voltamos para a capital em 1981. Ainda na TV Globo, já começava a buscar novos caminhos profissionais. Em 1985, fui trabalhar na Editora da UnB, o que me fez investir em concurso para ser professora.

Procurava também expandir minha capacidade de edição de TV. Trabalhei para o Senado Federal, na implantação da TV Senado e na produtora Ema Vídeo, com Ricardo Monte Rosa e Luiz Gonzaga Motta, produzindo documentários. Foi uma fase muito rica profissionalmente. Expandi meu conhecimento sobre Brasília. Fiz uma série de vídeos sobre terra, água, fogo, gente, história. Aprendi a entender a relação íntima que a terra de Brasília tem com a água, sempre borbulhando, vindo à tona.


Os meninos cresceram. O mais velho, Leonardo, foi morar com a avó, no Rio. O Eduardo casou com a Luciane. Ana Luisa seguiu a família e se formou em jornalismo. No final da década de 90, os netos chegaram, Rafael e Isabella, e encontraram a cidade muito mais desenvolvida, com novos shoppings, que acolheram os cinemas, as novas lojas, os novos restaurantes. Morava na Asa Norte, na colina da UnB, de onde só saí em 2002, para o Park Way.


Hoje, Brasília chega aos 60 anos, com uma multidão de carros nas ruas, com uma expansão de bairros, prédios e novos setores, como o Sudoeste e o Noroeste, com o Plano Piloto salvo da exploração imobiliária pelo título de Patrimônio da Humanidade. A cidade ganhou uma nova ponte, a JK, beleza arquitetônica que devemos a Roriz, mas os velhos encantos continuam, junto com novos hábitos. Como ir ao Parque do Foguetão, almoçar no Pontão, ir ao cinema no Casa Park, visitar a livraria Cultura, no Iguatemi.


O aumento do Entorno preocupa, porque vemos cidades como Luziânia se aproximarem bastante, rompendo as fronteiras, fazendo com que Brasília cresça de forma desordenada. Incomoda também que o metrô continue nanico, sem servir direito à população. Ganhamos um aeroporto novo, de corredores imensos, que perdeu a serventia nos dias da quarentena.



Mas a beleza das flores e as árvores centenárias que crescem ao longo das avenidas garantem o nosso encanto. E o sol não nos abandona. Nem os pássaros. E só isso já justifica o amor que sinto por Brasília. Eu ainda estou por aqui. Até quando não sei.


Vou aproveitando para curtir a cidade que escolhi para viver.


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