A COMUNICAÇÃO DO ÓDIO

Por CÉLIA MARIA LADEIRA


Em entrevista recente, o filósofo e professor da Unicamp Leandro Karnal afirmou que o pior da pandemia é a comunicação agressiva. Ele se referia à propagação de ódio em redes sociais e no jornalismo, que atinge presidente, políticos em geral, governadores, ministros. A necessidade de combater o coronavírus desviou para as redes sociais um fluxo de emoções negativas que buscam estabelecer culpados onde quer que eles estejam ou existam.

Polemiza-se com tudo. Quem defende a quarentena total, o chamado lockdown, é contra a abertura das lojas e atribui aos defensores desta a culpa pelo crescimento do vírus. E vice-versa.

O debate tomou conta do noticiário televisivo, para o bem ou para o mal. Organizam-se debates em programas de TV colocando as posições contrárias em foco. Alguns programas fazem pior. Convidam debatedores que defendem apenas uma posição para reforçar o argumento contra a abertura da economia. Outros fazem o inverso. Esta polêmica fica a um passo de extrapolar o debate e envolver posições contra ou a favor do governo, mais especificamente, do presidente da República.

O afã de reforçar uma posição, em alguns casos posição da própria direção da emissora, prejudica a cobertura dos acontecimentos. Recentemente, o presidente da República atravessou a pé a Praça dos Três Poderes com um grupo de empresários para ir ao Supremo Tribunal Federal, onde todos foram recebidos pelo presidente da Casa, ministro Dias Toffolli. Um fato em si inédito e que merecia destaque no noticiário em virtude até pela necessidade de se debater como e quando será possível abrir a economia. Pois bem, o fato mereceu a seguinte chamada de uma emissora: “foi um golpe mediático do presidente”.

Outra emissora fez questão de frisar que o tema não interessava ao presidente do Supremo, que teria dito que a abertura econômica era assunto apenas para o presidente da República e os governadores.

O bom senso jornalístico ensina que cada fato deve se transformar na notícia que merece, sem necessidade de qualificá-lo. Foi o caso do fato relatado. As posições erradas das coberturas jornalísticas deixaram de explorar o objeto do encontro de forma mais substantiva. Estavam ali dezenas de grandes empresários da indústria nacional, representantes de vários setores produtivos. Qual a opinião destes empresários? Nenhum repórter se interessou em perguntar.

Outro erro da cobertura. Desqualificou-se a reunião considerando-a como sendo sem interesse do poder judiciário. Ora, num momento em que juízes de primeira instância no país fecham e abrem lojas, entram até no palácio de governadores tentando impor medidas de fechamento, é preciso compreender que a abertura da economia é uma questão que interessa a toda a população, aí incluídos os três poderes da República.

Esta é uma decisão difícil. Comércio e indústria estão ameaçados de colocar o país no fundo do poço, caso continuem paralisados. O vírus, por sua vez, depende no seu combate do isolamento das pessoas e o uso de medidas de proteção que precisam ser estudadas. A histeria de muitos, e aí incluídos juízes, não ajuda na tomada de decisões. Menos ainda a histeria dos meios de comunicação que, ao propagar um discurso de ódio, esquece as regras simples das coberturas jornalísticas, de mostrar a diversidade das posições.

Neste mar de conflitos que não são só jurídicos ou econômicos, mas sobretudo políticos, parcela significativa de culpa cabe à imprensa, que toma partido e infringe seu papel democrático de dar voz a todos os envolvidos na solução do grande problema do momento: ficamos todos em casa ou enfrentamos o desafio de abrir algumas atividades econômicas.