A DIFERENÇA ENTRE NÓS

Por ROBERTO NAVARRO

Coluna Estrada das Lágrimas



Este espaço não é para julgamentos, não é para somente ler como passatempo, mas um espaço para conhecer vidas e assim refletir sobre as nossas próprias. Cada ser humano é um universo à parte. Ele cria, se transforma, se regenera e até se destrói. Tem o PODER e o livre arbítrio de mudar ou Eu próprio e tudo à sua volta, basta querer e procurar as ferramentas adequadas.


Cada vez mais as pessoas não estão sabendo lidar com a vida. O mundo e a mídia trazem padrões de comportamentos e estéticas que se destacam como um modelo, mas cada um tem sua forma e seu espaço e sua maneira de ser. As pessoas procuram medicamentos para ficarem felizes, para resolverem ¨problemas¨ se esquecendo que a vida é um conjunto de coisas e situações onde há altos e baixos. O pior, é que elas buscam, por exemplo, na internet soluções para suas aflições e procuram médicos para que passem determinados medicamentos que acham que as farão felizes.


Engano, claro! A transformação está em nós mesmos, mas ninguém quer ter ¨trabalho¨ em mudar, querem apenas mudar de um dia para o outro de forma mágica através de um comprimido.


Falo isso porque nos últimos anos tenho observado em atendimentos e como o conhecimento acessado facilmente pelas redes facilita a busca de mágicas transformadoras. Faço um parêntese aqui: Acho fundamental ter conhecimento mas também não esquecer que existem profissionais com conhecimentos mais específicos e até por evidências, que poderão dar opinião mais ponderada a cada caso.


Não vou me estender nesse assunto pois não é o ponto principal deste espaço, mas só quero dar minha opinião sobre o que as pessoas estão fazendo com elas mesmas, almejando soluções, mas buscando de forma errada, causando assim, frustrações que os levam ao alcoolismo, drogadição, depressão e doenças físicas originadas pelas emoções frustradas.


O ser humano tem dentro de si todas as emoções como alegria, ódio, tristeza, inveja, amor e tantas outras.... Sentimentos bons e ruins cabendo a cada um externá-los ou controlá-los para se tornar uma pessoa melhor. Ninguém é de todo mau ou de todo bom....somos HUMANOS!! Essas emoções, sentimentos não canalizados e somados aos hábitos de vida e sua genética, com o tempo desencadeiam doenças físicas e mentais.


Bom, como disse, vou relatar aqui histórias de pessoas, que eu conheci, sendo que, algumas conseguiram superação, e outras não obtiveram sucesso, pois desistiram de si próprios. Não há fórmula mágica para viver, mas a magia de viver está em nossas mãos. Conhecer outras pessoas e histórias de vida nos ajudam a aprender como outras pessoas lidam com situações que muitas vezes nós mesmos enfrentamos.


Hoje iniciarei com uma história de sofrimento, persistência e recomeço. Aqui os personagens terão nomes fictícios pois a intenção é apenas a de relatar as experiências de vida.


Joaquim (iremos chamá-lo assim) vivia bem, dono de uma lanchonete em local nobre, pagando suas contas e vivendo de bem com a vida (claro, como todo mundo tinha lá seus problemas) mas em determinado momento quis ser agradecido à uma senhora que ajudou muito sua família na infância, então chamou o filho dela para ser seu sócio em troca de trabalho apenas. Queria retribuir o bem de sua mãe no passado e assim foi feito.


Passaram-se meses até que na confiança esse rapaz deu um golpe no Joaquim, ou seja, usando o nome da empresa acabou falindo a mesma. Joaquim relatou que a dor foi tão intensa que deu vontade de matar o rapaz de tanto ódio, mas pensou várias vezes antes de fazer uma besteira e viu que não compensa. Ele mesmo relata o quanto foi difícil lutar contra a raiva que sentiu, misturado com a decepção e sensação de traição.


E assim ficou Joaquim, decepcionado, triste e sem saber o que faria de sua vida. Além da lanchonete, acabou perdendo sua casa pois teve que pagar todas as dívidas e foi para rua.....


Joaquim me contou como foi esse dia. Antes que alguém se pergunte....ele não tinha família próxima e por isso foi para rua. Segundo ele, pegou uma mochila e colocou algumas roupas, e desolado, se encaminhou para uma plataforma de ônibus que fica na região central de São Paulo, sentou-se num banco e ficou horas ali remoendo seus sentimentos, numa tristeza profunda, solitário e ao mesmo tempo rodeado de gente em meio a multidão agitada de uma cidade como é São Paulo.


No final da tarde, uma pessoa o abordou, ele olhou e era um cara com trajes simples que lhe disse que estava a observá-lo de longe por algum tempo, e notou que havia algo de errado e resolveu arriscar uma abordagem. Joaquim neste momento cansado, com fome, não entrou em detalhes de sua situação, apenas disse que não sabia para onde ir. O homem disse que morava em um instituto social (Albergue como é conhecido) e o convidou a ir também para lá ou para algum outro que pudesse recebê-lo naquele dia. Ele disse que no instituto social poderia tomar um banho, fazer sua refeição e dormir em uma cama. Joaquim nem pensou muito e aceitou o convite e assim foram para o local.


Tudo era novidade para Joaquim que nem sabia o que era albergue e os dias foram passando e acabou pegando vaga fixa. Desse instituto inicial foi transferido para outro, tentando se adaptar à nova vida. O importante foi que Joaquim amenizou sua raiva contra aquele rapaz que lhe roubou e colocou em foco uma nova vida, fazendo-o buscar alternativas de trabalho.


Joaquim relata que apesar de ter um ¨teto” não era isso que queria para o resto de sua vida, queria retomar sua vida, pois dentro de um ¨Albergue¨ a convivência nem sempre é das melhores, pois são várias pessoas de diferentes hábitos e educação que muitas vezes criam conflitos.


Ele me dizia: “tem dias tão difíceis lá dentro, pois algumas pessoas na mesma situação que eu são arrogantes e querem se sobressair até na força. O ser humano mesmo em situação de dificuldade quer ser melhor do que o outro , além disso, tem pessoas pouco educadas que invadem seu espaço... o tempo todo tenho que cuidar de meus pertences para não ser roubado e ter cuidado com quem vou sentar ao lado nas refeições, nunca vivi isso mas vou levar embora como experiência de vida. Não vejo a hora de arrumar um trabalho e ter meu cantinho.”


Ainda havia ¨Força¨ dentro de Joaquim e isso fez toda a diferença, pois ele tinha uma história....ele tinha para onde voltar, o que não acontece com outras pessoas que se encontram em situações ainda piores, e que nunca conheceram outra vida, não têm para onde voltar, uma diferença fundamental.


Voltando ao Joaquim... se passou um ano e meio até que veio a grande oportunidade de uma vaga em uma rede de supermercados e que bom que Joaquim ainda mantinha a tal ¨força¨. Na entrevista, resolveu falar a verdade. Disse que morava em ¨Albergue¨ e que estava muito disposto a uma chance de emprego. Ele arriscou pois muitos lugares não aceitam ¨moradores de rua¨ mesmo estando em institutos sociais. Infelizmente há uma generalização e preconceito sobre essas pessoas.


No caso de Joaquim, ele encontrou pessoas do bem e foi exatamente pela sua sinceridade que conseguiu a vaga, e está há dois anos trabalhando nesse mesmo local. Nesse tempo já montou seu ¨cantinho¨, alugou uma casa, mobiliou-a e está vivendo novamente sua vida....ou melhor, voltou para sua vida, mais simples, porém, sendo uma pessoa com novos conhecimentos e experiência, uma pessoa mais fortalecida.


Esse foi um breve relato de uma pessoa que mostrou força mesmo no pior momento de sua vida. Com sua fé e determinação encontrou em seu caminho pessoas que lhe deram oportunidades, que resolveram investir nele, e ele estava receptivo e não perdeu nenhum tipo de ajuda. Apesar de no íntimo se sentir humilhado, ele manteve a dignidade e acreditou no seu potencial, e aproveitou toda e qualquer oportunidade que lhe surgiu.


Nos próximos relatos nessa coluna, contarei experiências não tão exitosas, para vocês acompanharem e pensarem comigo onde está a diferença dentro de nós, aquela que nos faz progredir ou nos destruir.


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