A ESTRANHA FAMÍLIA DE MANUEL: ONDE QUER TUDO MAS NÃO AJUDA EM NADA

Por RENATA MALTA VILAS-BÔAS


Manuel desde cedo tinha ambições na vida e o que ele desejava era ter uma família: esposa e vários filhos, quase que um time de futebol completo ! Além de um trabalho honesto que o possibilitasse sustentar a sua família.


Queria ver a casa cheia de meninos, brincando e correndo de um lado para outro. Precisava era encontrar uma moça que compartilhasse desse mesmo sonho.


Quando conheceu Julieta viu que seu sonho iria se realizar, moça bem prendada era com ela mesmo que ele iria se casar ...


Julieta não resistiu ao encanto de Manuel, e logo logo marcaram a data do casamento.


Naquela época Manuel começava no Banco do Brasil, e sabia que com a sua dedicação e esforço conseguiria alcançar os postos mais elevados dentro da estrutura do Banco.


Casamento foi uma festança e não tardou Julieta engravidasse do primeiro filho do casal: Júnior. No ano seguinte, mais um rebento, e assim, por 15 anos, Julieta foi gerando os tão sonhados filhos.


Enquanto isso Manuel trabalhava e dava duro no Banco, estudava para se aperfeiçoar, e sempre chegava em casa tarde da noite, muito cansado e os meninos já estavam dormindo.


Finais de semana, as crianças ao seu redor e ele queria mais é descansar. As crianças deviam fazer silêncio para que ele pudesse dormir, até mais tarde, e de tarde, depois do futebol com os amigos do banco, saia para passear com as crianças, normalmente indo até a sorveteria da cidade.


E assim, as crianças cresceram, casaram e formaram as suas famílias. Julieta faleceu, até hoje não se sabe se de desgosto...


Manuel, a essa altura, já era um alto executivo do banco, o que lhe proporcionaria uma excelente aposentadoria. Mas, ele voltava para casa e a casa grande estava vazia. Tantos filhos, outros tantos netos e ele estava sozinho.


Orgulhava do patrimônio construído, afinal, tinha começado do zero e tinha uma casa no bairro nobre da cidade, era um alto executivo em seu trabalho, tinha todos os eletrônicos que o dinheiro poderia comprar. Mas, lhe faltava algo... e ele não sabia o que era.


Quando ligava para os filhos, cada um na sua labuta, falavam ao telefone, ou por videoconferência, mas poucos minutos depois, desligavam e ele retornava à sua solidão.


Os filhos começaram a perceber que o pai, antes tão sagaz, começava a esquecer de pagar contas, de onde estava indo, além de misturar histórias, e volta e meia chamar por Julieta.


Seu filho mais velho, resolveu levar o pai para o médico, e de lá sai com o diagnóstico Alzhemeir, e com a preocupação: quem iria cuidar do pai ?


Cada filho já tinha estruturado a sua vida, a sua rotina e a sua casa, sem pensar na possibilidade de ter que cuidar do seu pai. Afinal, o pai sempre cuidou de todos, era esquisito pensar que chegou a hora de cuidar do pai.


E assim, um a um, cada filho foi recusando a ficar com o pai, explicando, as suas dificuldades e impossibilidades de cuidar do pai...


Afinal, chegaram a conclusão que deveria contratar uma pessoa para ficar morando na casa do pai - um cuidador. E com isso, eles ficariam mais livres para seguir a sua vida.


E assim fizeram ...


Pesquisaram em agências, e escolheram um cuidador que seria o que mais atenderia ao perfil do pai, e assim, contrataram Carlos. Ops., quem contratou foi o Manuel, porque com a aposentadoria dele, ele estava pagando também o cuidador.


Quando o cuidador chegou na casa do Manuel, foi logo avisando que entre as tarefas dele não estava arrumar e cuidar da casa. E que, era preciso contratar uma empregada doméstica ou uma diarista para isso.


Os filhos concordaram, e ele Carlos indicou a pessoa da Maria de Lourdes, conhecida como uma excelente cozinheira.


E assim Maria de Lourdes passou a morar na casa de Manoel também.


Como os filhos quase não iam na casa de Manoel, este ficava sozinho aos cuidados de Carlos e Maria de Lourdes. Quando iam, ficavam meia hora e já saiam.


Manoel tinha 10 filhos, quase um time de futebol, mas ao mesmo tempo não tinha nenhum...


Como Manoel ficou com medo de esquecer a senha do banco, do cartão de crédito, deixou tudo anotado num papel, ao lado do computador. Quem o ajudava a fazer as transações bancárias era sempre o Carlos, que também tinha acesso aos investimentos e aplicações.


E assim, o tempo foi passando e Carlos cuidando do Manoel. Carlos aos poucos, usava o cartão para pagar suas despesas pessoais, começou pagando conta de água e luz, assim, ninguém ia perceber, pois se olhassem no extrato, veriam que se tratava de pagamento de concessionárias e nem questionariam.


Depois, começou a fazer o pagamento do seu próprio salário, lhe dando um aumento mensal... Assim, todo mês, tinha um acréscimo no seu salário, a título de hora extra, ou de despesa extra.


Aí começou a fazer compras pela internet, adquirindo produtos, em nome do Manoel, com entrega na casa de Manoel, mas que ele levava para a casa...


E aos poucos as reservas do Manoel foram sendo esvaziadas. Percebendo o que estava acontecendo, Carlos, começou a deixar de comprar coisas necessárias para o Manoel, como medicamentos, para adquirir bens para si.


E nada da família perceber o que estava acontecendo.


Um dia, numa das consultas que o Manoel fazia ao seu médico, este implicado com o processo de declínio na saúde do Manoel, pediu para chamar todos os filhos para a consulta. Parecia uma reunião de condomínio.


Nessa reunião, o médico começou a questionar aos filhos como estavam sendo aplicado os medicamentos e porque estes não estavam surtindo efeito. Os filhos não tinham resposta para o médico, pois todos os cuidados eram feito por Carlos.


Na semana seguinte, Manoel faleceu. Veio o velório, muito bonito, os filhos todos em volta do caixão do pai, chorando copiosamente.


E assim, se despediram de Manoel. Retornando à casa, perceberam que esta não estava mais com os objetos de decoração que a mãe deles, ao longo da vida, adquiriram. Indagaram Carlos, que estava recolhendo os seus pertences e este informou que Manoel tinha vendido, pois os objetos faziam com que ele ficasse triste pela ausência da Julieta, que em seu estado de saúde, esquecia que ela tinha falecido, e ficava esperando o seu retorno.


E os filhos, aceitaram a justificativa.


Um mês depois, a neta mais velha, advogada da família propõem a abertura do inventário para que fossem sanadas as questões patrimoniais. Resolvem fazer na forma extrajudicial, já que todos os filhos concordavam com a partilha dos bens.


Com grande surpresa, descobriram Manoel, não tinha deixado nenhum valor em aplicações, e que a casa em que ele morava estava hipotecada, e que ele tinha feito um empréstimo.


Assim, descobriram que Manoel tinha deixado dívidas, e que a casa, teria que ser entregue ao banco para quitá-las.


Todo o patrimônio tinha desaparecido, aos poucos, nos últimos anos, depois que Carlos tinha sido contratado. Foram em busca de Carlos para tentar entender o que tinha acontecido.


E nunca mais encontraram Carlos... nem o patrimônio que Manoel poderia ter deixado para eles.


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