A GASTRONOMIA SEGUNDO OS MEDÍOCRES

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

Coluna Sapere Aude

Eu não imaginei que tivesse que escrever sobre isso algum dia na minha vida. Mas a ignorância e a burrice devem ser combatidas sempre, com a veemência de uma trincheira na guerra.


Tive o desprazer de escutar recentemente que gastronomia é coisa de gente fresca e de gente esnobe. Acredito, aliás, que qualquer um que tenha curiosidade - no meu caso, paixão devotada - pelo tema já provavelmente escutou sandices dessa natureza.


Então vamos lá: para cozinhar não são necessários ingredientes caros muito menos ostentosos, muito embora, é claro, ingredientes mais difíceis de serem encontrados são normalmente mais dispendiosos. Óbvio. Os ingredientes devem ser de qualidade.


E a qualidade não implica em dinheiro. E porque a qualidade não está diretamente vinculada ao dinheiro? Porque o ato de cozinhar é um exercício de criatividade, de ciência, de química, de física. Uma aula maravilhosa de história de uma comunidade, de um município, de um povo, de uma civilização e de um planeta inteiro. Mas, muito além disso tudo: cozinhar é, indiscutivelmente, um dos maiores atos de amor que um ser humano pode ter por outro. A ideia de alimentar o próximo com aquilo de que se dispõe, de agradar ao paladar de um convidado, seja ele pobre ou rico, isso é indescritível.


Não se trata apenas de “encher barriga”. Saibam que o milho assado na lenha às margens do rio São Francisco - talvez por ser o único alimento de que o seu anfitrião dispõe para lhe servir naquela hora - é tão infinitamente sublime quanto as trufas brancas que compõem um molho bem elaborado no interior da França. Porque todos aos quais servimos, na qualidade de cozinheiros, são imensamente importantes. São o “fruto do trabalho que é mais que sagrado”. São a chama que acende ao espírito da convivência.


E o que fazem os medíocres? Os medíocres criaram uma espécie de militância, de fiscalização daquilo que se “pode” e daquilo que “não se pode”. E aí eu faço uma menção expressa a um artigo divertidíssimo da escritora Carmen Guerreiro, que eu sugiro que vocês todos leiam algum dia.


Vejam que situação bizarra: se alguém me flagra preparando um prato à base de aspargos na manteiga com figos marinados, eu sou imediatamente taxado de “pernóstico”, de “arrogante”, de “soberbo”. Mas se eu sou visto comendo um pseudo-hambúrguer podrão do Mcdonalds, aí já não tem problema, porque o padrão do McDonalds, na cabeça dos medíocres, “pode”. Só que eles desconhecem o fato de que um combo em qualquer lanchonete não artesanal custa quase o dobro do meu pacotinho de aspargos e de figos marinados!!!!


São exatamente as mesmas pessoas que se esforçam gastando o que podem e o que não podem durante as festas de final de ano, disputando pela ceia mais farta - e normalmente mais gordurosa - olvidando-se de que é nessa mesma época que temos as melhores frutas, os melhores peixes, as melhores guloseimas. Quem sabe um dia não teremos um natal mais brasileiro, com as mesas coloridas, a comida leve, saborosa, sem ter que fingir que estamos nos Estados Unidos ou na Europa, em pleno verão sul-americano com 40 graus na rua...


Nessa mesma linha: se eu ando em um carro com 10 anos de uso, eu estou “errado” na cabeça dos medíocres, muito embora eu possa, dessa forma, viajar ao exterior 3 ou 4 quatro vezes ao ano. Mas comprometer 65% do salário pagando uma prestação indecente para ostentar um carro novo na garagem (mesmo com seguro e ipva atrasados), ah, isso daí, para os medíocres, já “pode”.


Voltando à questão da cozinha: resta mais do que evidente que a formação constante, bem como a qualificação e a pesquisa são importantíssimas para que você se aperfeiçoe. Só que o amor e a dedicação não se ensinam em faculdade alguma, e não estão à venda nas melhores lojas do ramo.


A cozinha, acreditem, é o espaço que agrega o maior amor de uma casa, e a música do Dorival Caymmi, por exemplo, narra isso com incrível maestria, assim como a literatura de Jorge Amado, que na obra Dona Flor e Seus Dois Maridos, faz em um certo parágrafo a descrição de uma moqueca de siri-mole que nos faz até sentir o gosto, a textura e o aroma enquanto estamos lendo. Há ainda os ensinamentos do historiador e folclorista Câmara Cascudo, que desbravou o Brasil decifrando a nossa história da alimentação com uma elegância incomparável.


E é por isso tudo que eu afirmo, abertamente, que se você acha que comida boa é comida cara, não se aproxime da cozinha. Porque lhe falta amor. E porque você é muito burro.


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Coluna Sapere Aude