A IRONIA DE SWIFT E O ATUAL GOVERNO BRASILEIRO

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

Ouse Pensar

O conceito da palavra “ironia” (proveniente do grego arcaico) configura-se em uma maneira de expressão com base em afirmações opostas àquilo que se almeja expressar, zombando, censurando, criticando, atacando ou denunciando algo ou alguém.


Trata-se de um modus operandi amplamente utilizado e observável nos diálogos platônicos, segundo os quais a técnica de Sócrates, em diversas passagens, se baseava na simulação de certa ignorância sobre um determinado tema, com a formulação de questionamentos e a posterior aceitação das respostas proferidas pelos interlocutores, fazendo-os entrar em divergência (contradição) entre si próprios, desnudando os raciocínios obsoletos (ironia socrática, conforme a expressão cunhada por Aristóteles).


Já no período moderno, a ironia passou a descrever a utilização de gestos, palavras ou até mesmo atitudes em total oposição aos seus verdadeiros significados, alegando-se exatamente o contrário do que se diz ou ainda do que se acredita.


Jonathan Swift (30/11/1667 – 19/10/1745) foi um brilhante filósofo, escritor e poeta Irlandês, aclamado pela Enciclopédia Britânica como o maior satirista de prosas da língua inglesa e eternizado por obras magistrais tais como A Tale of a Tub, An Argument Against Abolishing Christianity, Gulliver's Travels (“As Viagens de Gulliver”, que a gente sempre tem que ler na escola primária) e, a que mais nos interessa no momento, A Modest Proposal (título que pode ser traduzido como “Uma Modesta Proposta”).


Swift reinou absoluto no império da ironia. O humor e a sagacidade de Swift contêm elementos de altíssima sofisticação e elegância, sendo ao menos tempo corrosivo e astuto, satirizando as classes sociais pernósticas e elitizadas de seu tempo.


Em Modest Proposal, Swift fomenta um personagem arrogante, financeiramente abonado, indiferente à situação de sua própria família e com a suposta intenção de, no que seria uma tese acadêmica/científica, erradicar a situação de extrema pobreza e demais mazelas sociais vivenciadas na Irlanda de seu tempo.


À medida em que a narrativa avança, fica evidente que Swift, ironicamente, brinca com a lógica humana de maneira pervertida – e não menos abundante em ironia.


Dissertando sobre argumentos sem sentido e ainda elaborando cálculos desmesurados e estapafúrdios, o soberbo personagem chega a afirmar que as crianças oriundas das famílias pobres são um verdadeiro fardo aos seus genitores, recomendando que bebês sejam nutridos em regime de engorda e, posteriormente, dados aos mais ricos como alimento, sugerindo, inclusive, acompanhamentos gastronômicos suculentos para aquelas “carnes tenras”.


Diz ainda que maiores de 12 anos já não interessam aos poderosos, por despossuírem valor comercial significativo.


Há ainda em Modest Proposal a crítica devastadora aos homens irlandeses, dado que, em uma das passagens de seu texto, o fictício narrador sustenta a teoria subsidiária de que a conversão das crianças pobres em produto alimentício tenderia a reduzir a agressão sistemática às mulheres, que seriam então melhor tratadas por seus companheiros.


Tamanho surrealismo e aparente agressividade são propositais e inquietantes, desencobrindo a exploração do trabalho até o limite das forças dos empregados pobres, da ausência de terras, de moradia e de segurança, das doenças e da fome.


No Brasil de hoje, temos - felizmente ou infelizmente - um Presidente da República com péssima oratória de improvisação, além de péssima assessoria nesse mesmo quesito. Digo “felizmente ou infelizmente” porque a franqueza e a espontaneidade também são importantes, e até acho bem legal às vezes - desde que não soem vulgares, deseducadas.


Desta forma, fica muito difícil saber até que ponto o Presidente ignora realmente vidas que foram perdidas ou apenas usa a ironia (de maneira muito pouco elegante, inábil talvez) a fim de defender seus argumentos.


Como Chefe de Estado e de Governo (pressupostos do regime presidencialista), ele representa muito mais do que a si próprio - ou os filhos que tanto protege assim como os amigos muito íntimos. Ele fala por uma nação inteira. Uma “instituição” chamada República Federativa do Brasil. E está passando uma mensagem péssima ao resto do mundo, e que seria cômica se não fosse trágica.


Além disso, 300.000 pessoas em um universo de 220.000.000 é um número baixo, como assim defende o Presidente e os seus seguidores. Só que, reitero, são vidas humanas, cacete!!! Cada uma delas com a sua história, com o seu legado, com a saudade que fica, com carreiras profissionais ceifadas, com crianças órfãs.


Pela lógica opaca de nosso ilustre Presidente, caso eu venha falecer na data de hoje não seria em si grande problema, já que tenho dois outros irmãos ainda, o que traria a minha mãe apenas 33,33333% de suposto prejuízo em sua prole.


Mas nós não podemos tratar seres humanos como números, apenas e tão-somente “realizando prejuízos”. Isso a gente faz com investimentos, com estoques que se acumularam, com insumos e com capital de giro. Coisa para economista. Não para humanista, muito embora um economista seja um humanista à medida em que não exclui o “elemento humano” de seus algoritmos e teorias. A economia não respira pelos gráficos ou pelas tabelas. E economia, por si própria, não fala, não escreve, não respira, não decide nada. Quem faz isso tudo são pessoas vivas.


Noto, com profunda frustração, que o nosso Presidente da República não é irônico. Ele pensa e acredita realmente na fala. E isso diz muito sobre a pessoa e o homem público.


Ainda dá tempo, senhor Presidente. Mude a postura. Isso não devolverá as vidas que já sucumbiram. Mas evitará que mais pessoas morram vítima de sórdida demagogia, de mastodôntica burocracia e de angustiante leniência.


O conceito de Humanidade é a própria Humanidade, que nos eleva e nos diferencia.

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