A PRIMEIRA VEZ, UM DIA ACONTECE

Atualizado: 13 de Abr de 2020

Por ALFREDO BESSOW



Confesso: sempre tive uma curiosidade meio mórbida, metafísica, em saber como é ser assaltado. Como é a sensação de impotência e de fragilidade diante de alguém que, por estar armado, é o dono da situação e, em certo sentido, tem a sua vida nas mãos dele.


Ao longo da vida de embates nem sempre republicanos, fui adquirindo cicatrizes de algumas facadas e também carrego a marca e a lembrança de ter levado um tiro, coisas das quais não me vanglorio.


O que era algo que eu não sabia, não tinha como dimensionar e que chegava para mim apenas através de relatos, enfim, faz parte das muitas coisas que vivi. E perpassa feito um filme a sensação estranha, a compreensão da verdadeira dimensão que a palavra fragilidade tem para o ser humano que está diante de uma faca, pressionada contra a sua barriga – em segundos que parecem verdadeiras eternidades. Quando você olha ao redor e não encontra um amparo, uma conexão com o mundo – como se, naquele instante, não houvesse alma viva capaz de oferecer um apoio qualquer.


Eram dois moleques, entre 15 e 16 anos, com a vestimenta típica de quem já tem a indumentária para cometer o crime. Arrogantes, anunciaram o assalto e vi a lâmina das facas reluzindo diante da luz, um brilho que até agora continua vivo em meus olhos, em minha memória. Um se aproximou, ponteando a faca contra o meu estômago e o outro apenas falava: “entrega o celular, seu filho da puta”.


Confesso que estupidamente relutei em entregar o celular, não só pelo valor do bem e das prestações que me acompanharão ao longo de 2020, mas por lembrar do discurso canalha do ex-presidente e ex-presidiário Lula dizendo que não é justo que um adolescente vá para a cadeia apenas “por ter roubado um celular”.


Relutei e tentei ver se me restava alguma alternativa, mas como se fosse um comando divino, acabei entregando o aparelho. E temi que, por pirraça, ele enfiasse a faca em mim. Houve uma estranha sensação de alívio quando pegaram o aparelho e saíram, primeiro caminhando e depois correndo por uma rua lateral.


Quanto tempo tudo isso durou? 10 segundos? 20 segundos? Não sei...


E a minha primeira reação foi a de agradecer a Deus por continuar vivo.


Fui caminhando com passos trôpegos e como em uma retrospectiva, fui repassando todas as situações e revisitando todos os lugares perigosos por onde andei ao longo dos anos e nos quais nunca tinha enfrentado a sensação de ser assaltado e ter a clara dimensão de que a minha vida estava mantida por um fio tênue entre o humano e o divino.


É complicado e demanda um processo de decantação aceitar a lógica de que “você” perdeu, de que “você” é o elo mais fraco de uma corrente, de uma estrutura onde “nós” somos obrigados a nos enclausurar e a nos proteger, porque “eles”, os criminosos, têm um salvo conduto amparado em legislações feitas para beneficiar os infratores e punir a sociedade.


Enfim, aconteceu.


E lhes digo: o estado de torpor e de letargia que a pessoa assaltada vive é totalmente indescritível, porque advém de sensações e emoções únicas, que não podem ser mensuradas, passando pelo medo da morte e pela fragilidade da condição humana.


Ao menos para mim, o pós-assalto é ainda mais aterrador, porque você acaba questionando todos os seus valores e se dando conta de que essas balelas que sociólogos e assistentes sociais falam, apenas podem sair de bocas e de mentes que nunca foram assaltadas ou para as quais a vida do outro não tem nenhum valor.


Passados sete dias, percebo que continuo sendo vítima, sendo refém - uma vez que ainda escuto a mesma voz e convivo com a estranha impressão de que a qualquer momento ele pode emergir das sombras.


Assim, parafraseando antiga propaganda de uma marca de sutiã, eu digo, por tudo que uma situação assim envolve, o primeiro assalto a gente nunca esquece.


Mas... e como fica Brasília, como ficam os brasilienses?


Pode soar estranho ou contraditório, mas continuo pensando e vendo a nossa cidade como sendo segura, ainda que, cada vez mais, o que nos chegava por relatos e percebíamos em estatísticas, comece a se inserir em nosso cotidiano, fazendo com que passemos a adotar aqui alguns cuidados pessoais que não fazem parte de nossa rotina, mas que passaram a ser adequados em face de um tempo onde a violência saiu das páginas policiais para surgir como sombra a nos espreitar...


#alfredobessow #brasília #asasdocoração


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