A RESILIÊNCIA COMO MARCA É UMA CONQUISTA

Por ALFREDO BESSOW

Claro que eu não acompanhei a odisseia da construção de Brasília, mas não há quem olhando as fotos de então, conhecendo o Museu Vivo da memória Candanga ou conversando com os pioneiros que ainda vivem, é possível reconstruir mentalmente muito da odisseia que eles viveram.

Com aqueles com os quais eu que eu converso são, via de regra, pessoas além dos 80 anos e que participaram ativamente do processo de construção como efetiva mão de obra e sinto em suas conversas o orgulho de terem participado de verdadeira epopeia. Contam do medo e da solidão e de quantas vezes remoeram em si a dúvida se tinham tomado a decisão correta de largar tudo do nada que tinham e irem em busca de um futuro em uma terra desconhecida.

Continuo recolhendo memórias, não sei se para algum texto futuro, mas são personagens que se adensam como se emergissem das sombras, como se buscassem outra vez vida. Eu sempre me pergunto porque nesta cidade não há um monumento ao operário anônimo, aquele que efetivamente fez surgir a nova aurora a partir de suas mãos calejadas. Há tantas homenagens mundo afora aos soldados desconhecidos que tornaram possíveis as vitórias mais improváveis e sinto falta que um artista, que algum governante, designe um espaço para este bravo anônimo.

Porque a construção de Brasília foi ideia de JK, tudo bem, mas foi obra daqueles que pegaram para si a tarefa sem nem saber de sonhos, visões e compromissos em discursos. Foi feita porque tinham que trabalhar, porque vieram para trabalhar e porque trabalhar era o que eles realmente sabiam fazer.

Pulando no tempo, percebo que hoje muitos que vão às ruas protestar pelo direito de trabalhar o fazem mesmo sabendo de eventuais riscos, mas desconfiam dos argumentos de quem os quer em casa não apenas por uma questão de saúde, mas também buscando o desgaste do presidente, ainda que o STF tenha feito o desfavor de permitir que estados e municípios definam as próprias regras – desde que o custo político seja direcionado ao presidente.

A exemplo dos candangos de outrora que trabalhavam no sol e na inclemência do cerrado, sem equipamentos de segurança, morrendo de tétano e de tantas doenças que acabavam sendo atestadas como tendo causa alguma incidência comum da época, sem exames – exatamente ao que acontece em muitas situações com a Covid-19 nestes tempos e pandemia real e histeria induzida.

Assim, se antes havia os que trabalhavam em qualquer situação por ser o trabalho seu passaporte para a dignidade de uma vida melhor, hoje milhares lutam pelo direito de trabalhar apenas pelo direito de não esperar a fome e a morte bater em sua porta.

O impossível é obra dos resilientes.

Para todos os demais, tem o Jornal Nacional da Rede Globo.

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Foto: Trabalhadores nas obras de Brasília – 1958. (Peter Scheier/Acervo Instituto Moreira Salles)


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