A TAL DA APROPRIAÇÃO CULTURAL

Por ANDRE RODRIGUES COSTA OLIVEIRA

Coluna Sapere Aude

Hoje eu vou falar de um tema que, em minha opinião, consiste em um dos mais bizarros, midiáticos e até mesmo ofensivos debates travados em nossa sociedade: o conceito de “apropriação cultural”. É bizarro porque não faz sentido algum e apenas e tão-somente reflete a imensa miopia de seus defensores; midiático porque, lamentavelmente, ainda vem sendo objeto de notícias em conhecidos veículos de imprensa; e ofensivo porque é um verdadeiro ultraje à inteligência e ao bom-senso.


Segundo o site https://brasilescola.uol.com.br/ a “apropriação cultural ocorre quando uma pessoa ou grupo social hegemônico em uma sociedade passa a reproduzir comportamentos, hábitos, vestuários, objetos, linguagens de grupos sociais marginalizados. Essa prática desinveste o significado sagrado ou político que esses últimos conferem aos elementos culturais, substituindo-os por outros significados, geralmente ligados ao entretenimento e à estética, promovendo o esvaziamento e colonização desses elementos sem, em contrapartida, gerar benefícios ao grupo que produziu aquela cultura.”


Já segundo a definição de um antropólogo de nome Rodney William “a apropriação cultural é um mecanismo de opressão por meio do qual um grupo dominante se apodera de uma cultura inferiorizada, esvaziando de significados suas produções, costumes, tradições e demais elementos. É uma estratégia de dominação que visa apagar a potência de grupos histórica e sistematicamente inferiorizados, esvaziando de significados todas as suas produções, como forma de promover seu genocídio simbólico.”


Isso é um absurdo inacreditável. Apropriação cultural não é racismo. Apropriação cultural não é submissão de culturas oprimidas por culturas ditas “dominantes”. Apropriação cultural, aliás, sequer é uma forma de apropriação e muito menos de cultura.


Muito longe de se apresentar como forma de violência e de discriminação a chamada apropriação cultural é a comprovação maior de que a cultura de um povo ou de uma etnia jamais poderá ser engarrafada!!! Jamais poderá ser privilégio ou prerrogativa de quem quer que seja!!! Isso sim é violência. Isso sim é discriminação no nível mais asqueroso da palavra.


Determinar o policiamento e a militância daquilo que alguém pode ou não pode usar, ou cantar, ou celebrar, restringindo a moda, a arte ou a religião a apenas um único grupo que se arvora desse direito é um comportamento infame, típico de totalitarismo da pior espécie.


À medida em que o mundo tende, hipocritamente, a tornar-se cada vez mais politicamente correto, a diversidade não mais é vista como forma de cooperação e de desenvolvimento humanístico, e sim como uma forma de ofensa, o que é simplesmente inacreditável.


Vamos a alguns exemplos emblemáticos:


Em 2017 uma jovem de pele clara foi severamente repreendida e verbalmente agredida em uma estação de ônibus por duas outras jovens, porque ela usava na ocasião um turbante, o que seria, na visão de suas agressoras, uma violenta apropriação cultural contra os negros africanos. Na verdade, essa jovem estava mesmo de turbante, só que em virtude de uma leucemia mieloide aguda, ou seja, um câncer que fez com que ela perdesse todos os cabelos. Para piorar, quando a jovem chega em sua residência e resolve narrar esse acontecimento em uma de suas redes sociais é novamente agredida por diversas outras pessoas sob o mesmo argumento. Ou seja: na visão dos “justiceiros sociais” e dos “polemistas desocupados de plantão”, se você tiver um câncer algum dia, não use turbante.


Aliás, uma curiosidade rápida sobre os turbantes: acredita-se que surgiram na Mesopotâmia, e ao longo de dezenas e dezenas de séculos foram intensamente utilizados por judeus, hindus, árabes, gregos, persas, romanos, isso muito antes mesmo da era cristã, e, obviamente, pelos africanos. Maria Antonieta usava turbantes como peça de vestuário. Homens e mulheres no planeta inteiro usavam e ainda usam os turbantes, que entraram definitivamente em moda como itens de sofisticação na década de 20 do século passado. Então essa história de turbante como sendo primazia de cultura negra é mentira. Total e absoluta ignorância e imprecisão histórica.


Há o caso da cantora Anitta quando foi ao Programa Altas Horas utilizando dreadlocks no cabelo, que sofreu acusacoers severas de apropriação cultural; Luiza Possi, Adriane Galisteu, Sabrina Sato entre outras celebridades também passaram por situação semelhante em 2016, no Baile da Revista Vogue, porque tiveram a “petulância” entre aspas de comparecem ao evento belíssimas e vestidas a caráter. E qual era o tema do evento? Africa.


São inúmeros e intermináveis os exemplos do comportamento reprovável dessa militância, que deveria na verdade estudar um pouco mais, ler um pouco mais e parar de ver racismo e opressão em tudo o que existe.


Não há dúvida alguma de que o racismo existe e que deve ser veementemente combatido por ser uma das piores e das mais brutais formas de violência a ser praticada contra um ser humano. Só que o caminho não é esse.


Voltando então ao politicamente correto no que tange à apropriação cultural:


Será mesmo que uma criança em um baile de carnaval vestindo uma roupa de cigana é ofensa aos ciganos? E o menininho vestido de caipira na festa junina, é um apropriador infame da cultura e dos hábitos do homem do campo? O gordinho de bigodes que enfeita as caixas de esfirras do Habib’s é alguma alusão às guerras opressoras contra os povos árabes? E os milhões de brasileiros e de brasileiras de pele clara que frequentam a umbanda, devem ser sumariamente reprimidos e expulsos dos terreiros?


No início da última década, eu ainda me recordo quando essa discussão era somente relegada a um fanatismo inofensivo. Acontece que a coisa agora ficou muito séria: quem tem o direito de determinar se você pode ou não expressar a sua admiração por uma cultura, qualquer que seja ela? Mais ainda: quem tem o “direito” de se autoproclamar detentor do direito majoritário sobre uma cultura, avaliando quais são os comportamentos aceitáveis e os que são inaceitáveis?


O mais triste nisso tudo é que tais comportamentos policialescos e segregacionistas tendem, na verdade, a retroceder a tentativa de harmonizar as relações étnicas e culturais, ou seja, tendem a estimular e fomentar ainda mais intolerância .


Se você deixar de lado a escuridão ideológica vai perceber que o que se denomina como “apropriação cultural” não é nada mais do que um mundo em constante movimento e transformação além de nossa própria capacidade de acompanhá-lo.


E, por isso mesmo, relações humanas saudáveis e espontâneas devem ser constantemente estimuladas, uma vez que levam ao aprendizado, à troca de experiências, ao progresso e ao respeito mútuo.


Dito isso, reitero hoje e agora a minha mais profunda indignação com um debate que se apresenta como tão simplório, tão rasteiro. E eu me recuso terminantemente a deixar que a minha vida seja fiscalizada no que se refere aos meus hábitos e aos meus costumes, desde que eu respeite a lei e que respeite ao próximo.

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