A TRISTE TRAJETÓRIA DE ZULEIDE

Por RENATA MALTA VILAS-BÔAS


Era uma vez uma moça chamada Zuleide que conheceu o namorado Joaquim e logo em seguida se casaram. Nem bem passou um mês de casamento, Joaquim recebeu uma proposta de emprego tentadora, e para isso precisava mudar de cidade, ir para a cidade grande.

Zuleide achou o máximo essa mudança, pois ela que nunca tinha saído de sua cidade natal, só conhecia outras cidades pela televisão.

Ficou acertado então, que Joaquim iria primeiro e arrumaria lugar para ficar e depois Zuleide iria com a mudança. E assim, foi feito.

Zuleide mandava mensagem para o marido todo dia, perguntando se já tinha encontrado um lugar para morar. E ele respondia que tudo era muito caro e que ainda não tinha achado uma casinha para eles.

Passado dois meses, Joaquim mandou a boa notícia: enfim tinha encontrado um lugar, pequeno, mas onde eles poderiam morar.

E assim, partiu Zuleide para a cidade grande.

Apesar de estar muito ansiosa com o que estava por vir, queria muito morar na cidade grande, esse era o sonho da maioria das suas amigas: casar e sair da cidade ! E ela tinha conseguido realizar esse sonho !

Joaquim foi buscá-la na rodoviária, e foram de ônibus para a casinha por ele alugada. Da rodoviária até a casinha demoraram duas horas de viagem e Zuleide estava doida para chegar em casa.

Quando enfim chegaram, Zuleide descobriu que na realidade, a casinha era um barraco com dois cômodos. E ali tinham que acomodar tudo.

Mas Zuleide, ainda anestesiada pela cidade grande, nem se preocupou, afinal estavam começando a vida agora e em breve poderiam mudar para um lugar maior.

No dia seguinte, Joaquim foi conversar com Zuleide sobre o salário dele e o valor do aluguel daquele barrado. E com isso Zuleide descobriu que o que parecia ser um excelente salário, na cidade dela, ali era muito pouco. E que mal daria para eles se alimentarem, que dirá se mudar para um lugar maior.

Zuleide propôs a Joaquim que ela iria buscar emprego também, e começou a procurar. Zuleide tinha terminado o ensino médio, mas não tinha nenhuma profissão e muito menos experiência em alguma coisa que poderia ser aproveitado na cidade grande. Nada servia ao seu conhecimento de ordenhar a vaca, ou conduzir o gado.

Cada dia que passava, as contas apertavam mais e mais. E eles não sabiam como fazer. Um dia Joaquim chegou com a notícia de que tinha conseguido um emprego para ela, numa casa de família. Tinha ouvido uma diretora comentar que estava precisando de uma empregada doméstica e prontamente ofereceu a esposa, para trabalhar na casa dela.

E, no dia seguinte, Zuleide vai com Joaquim para a empresa conhecer a sua patroa.

A patroa, Maristela, conversou com Zuleide, falando que iria assinar a carteira de trabalho dela e que iria pagar 1 salário mínimo, e que poderia ter aumento se ela soubesse fazer as coisas direitinho.

Zuleide não tinha carteira de trabalho, e saindo dali foi providenciar esse documento. E começou o primeiro entrave burocrático. Quando ela apresentou a certidão de casamento e a carteira de identidade, para fazer a CTPS, o rapaz que a atendeu disse que não poderia fazer porque os documentos não eram correspondentes.

O que aconteceu foi que quando Zuleide casou trocou o seu nome de família pelo do Joaquim, afinal ali na terra dela todo mundo fazia isso, só que ninguém falou que tinha que trocar a carteira de identidade, que a que ela tinha "não estava mais valendo".

No dia seguinte Joaquim foi levar Zuleide na casa da Maristela, para poder começar a trabalhar.

Chegando lá, Zuleide teve que se identificar, e o porteiro apontou o elevador de serviço, dizendo que ela só poderia usar aquele elevado. Zuleide achou esquisito, mas obedeceu. Era a segunda vez que andava de elevador, a primeira tinha sido no dia anterior indo com Joaquim para o trabalho dele. Ainda não estava acostumada com essas coisas da cidade grande.

Quando Zuleide chegou Maristela começou a falar o que ela deveria fazer. Aquele era dia de faxina, e como Maristela era asmática tinha que tirar todo o pó da casa, usando aspirador de pó, batendo as cortinas, não podia ficar nada.

E além disso, deveria providenciar o jantar, deixando a mesa posta para duas pessoas, pois ela - Maristela - iria receber uma visita. E continuou falando sem parar sobre como deveria ser o procedimento para cuidar da casa.

Zuleide não sabia se sorria ou chorava, o apartamento era uma lindeza só, parecia coisa de novela, mas ela não tinha a mínima noção de como fazer as coisas ali.

Maristela vai trabalhar e deixa Zuleide sozinha, com várias missões.

Zuleide não conhecia aspirador de pó, nem micro-ondas, não sabia nem acender o fogo no fogão... Sua vida, muito simples no interior, não tinha desses luxos. Lá varria a casa com vassoura de palha, o fogão era à lenha, e não tinha micro-ondas, mesmo porque, até a luz da cidade era irregular. Tudo que ela conhecia era da televisão...

Mas ela precisava aprender ! E rápido ! Era o seu primeiro emprego na cidade grande e precisava aprender a lidar com todas essas novidades. E não adiantava ligar para as suas amigas da sua cidade, elas também não conheciam essas coisas de cidade grande.

Procurou na internet como ligar e conectar o aspirador. Tarefa um cumprida !

Depois procurou sobre mesas de jantares e achou uma lidíssima e começou a procurar as coisas para compor a mesa. Vinha um tecido embaixo - que não era a toalha porque era uma faixa só. Depois tinha um negócio redondo para colocar o prato e em cima do prato vinha outro menor.

Colocou as taças, tudo como estava no site. Nem sabia para que tantas taças, mas se lá na internet mandava, na cidade grande devia ser assim mesmo. E colocou as taças de vinho e de água para que pudessem beber.

Percebeu também que todas as mesas tinham um enfeite no meio, às vezes flores, às vezes uma decoração.

Procurou pela casa e o mais parecido era uma saboneteira que estava no banheiro. Lavou direitinho e colocou na mesa. Mais uma missão completada. Afinal, não poderia ser difícil colocar uma mesa, apesar dela não entender para que tantos talheres.

Foi para a cozinha preparar o jantar. A recomendação é que ela fizesse uma sobremesa e um jantar simples para quatro pessoas.

O que seria um jantar simples ? Zuleide pensou e falou para si mesma, não deve ser o que comemos lá em casa. Pois com tantos pratos e talheres deve haver mais coisas.

E aí foi para a geladeira e o freezer ver o que tinha por lá. A geladeira tinha diversas verduras e legumes que ela nunca tinha visto. E com isso ela não sabia o nome, para procurar na internet para saber como fazer...

Depois de tanto tentar na internet, conseguiu fazer um jantar com entrada - uma sopa, que descobriu que não se chamava de sopa, apesar dela achar que era igual.

Estava contente demais ! Tinha conseguido cumprir todas as tarefas que lhe foi passada. E estava doida para contar para Joaquim como tinha sido o seu dia, e as coisas que tinha visto e o que tinha aprendido.

Assim, que chegou em casa, encontrou Joaquim, que já havia chegado do trabalho. E percebeu que ele estava emburrado. Ela doida para contar todas as novidades que aprendeu, mas ele não queria conversa.

Resolveu deixar quieto e foi fazer a janta de Joaquim. Com todo o rebuliço do dia inteiro percebeu que estava com fome também, pois não tinha parado nem para comer...

Quando Zuleide chamou Joaquim para jantar, este estava ainda mais bravo, gritando com ela que o jantar tinha demorado muito, e que assim, ela não poderia ir trabalhar, pois não conseguia cuidar da casa e do trabalho ao mesmo tempo.

Zuleide sentiu uma facada no coração ! Queria contar como tinha sido o seu dia. Mas era melhor ficar quieta, senão poderia piorar a raiva de Joaquim.

Joaquim nunca tinha gritado tanto com ela, mas ela pensou... deve ser o nervoso da cidade grande. Amanhã passa.

Joaquim saiu de casa esbravejando dizendo que ia para o boteco da esquina beber com os amigos e que era para ela ficar em casa quieta.

Depois de beber com os amigos Joaquim chega em casa e tenta fazer amor com a sua mulher. Zuleide acorda assustada, com aquele homem dentro dela e esbravejando que ela não estava participando.

Zuleide tenta balbuciar algumas palavras e Joaquim lhe dá uma bofetada. Agora Zuleide acordou por completo e sentiu seu corpo todo enrijecer, era uma sensação de que estava correndo perigo, que ela não entendia de onde vinha.

Joaquim vendo a passividade de Zuleide fica com mais raiva ainda, e passa a gritar que ela devia ter ficado com o porteiro do apartamento da patroa, pois senão ela estaria toda faceira para o lado dele.

Zuleide tentar argumentar que apenas estava dormindo e que não estava com vontade de fazer sexo.

Joaquim responde que ela era mulher dele e tinha que estar à disposição dele para toda vez que ele quisesse.

Zuleide que era casada de pouco, estava estarrecida com aquilo que estava acontecendo. Nunca tinha visto Joaquim daquele jeito. Na manhã seguinte Joaquim a acorda como se nada tivesse acontecido, fazendo juras de amor, e que eles seriam felizes para sempre...

Zuleide ainda assustada, vai para a casa da patroa, sabendo que teria ainda outros desafios para enfrentar e precisava fazer tudo rápido para voltar cedo para casa.

Só que Zuleide começou a gostar da casa da patroa, das coisas da patroa e queria aprender mais e mais, desde o mais simples, até o mais complicado. Já sabia ligar o ar condicionado e outros eletrodomésticos. Descobriu até que a patroa tinha uma máquina de fazer gelo. E assim passava o dia, descobrindo as novidades que nunca tinha visto e realizando as tarefas do lar de uma forma diferente do que conhecia.

Zuleide tinha uma sede de aprender, de conhecer as coisas, queria saber como cada coisa funcionava. E pensava, vou trabalhar para ter um desses um dia.

Entretida não viu o tempo passar, e o projeto de chegar antes de Joaquim, não deu certo. Chegando novamente depois dele...

Quando chegou em casa, Joaquim a recebeu aos berros, acusando de estar com outro homem, e atirando objetos da casa em cima dela. Nessa briga toda, Zuleide acabou quebrando o pé.

Com isso foi para o hospital e de lá ligou para a patroa para contar que não poderia ir trabalhar no dia seguinte porque tinha quebrado o pé. Maristela foi até o hospital em que Zuleide estava e pediu para que ela contasse como aconteceu, pois aquela história de que tinha torcido e caído não estava fazendo sentido.

E aos prantos Zuleide contou sobre Joaquim e como ele era agressivo quando chegava em casa e que no dia seguinte, ele se mostrava extremamente amoroso. É que ela era casada de pouco e ainda não tinha acostumado com isso, afinal, casamento era assim mesmo.

Maristela conversou com Zuleide e disse que poderia ficar no quarto de empregada que ela tinha no apartamento. Mas que elas precisavam ir até a delegacia para contar o que aconteceu.

Zuleide se recusou, afinal era assim mesmo, pois isso acontecia com a mãe dela, com a tia e até com a irmã mais velha. Maristela tentou explicar que não era assim que deveria ser um casamento. Que casamento com violência não pode existir. Mas Zuleide ficou irresistível, afinal se fosse na delegacia não ia mais ter marido, e o que as pessoas iam falar dela ?

Maristela não insistiu e foram para o apartamento. Quando elas chegaram lá, encontram Joaquim ensandecido, querendo saber onde ela estava, que pouca vergonha era essa de estar na rua até aquela hora. E recomeçaram os xingamentos e tapas e socos.

O porteiro tentou intervir, mas acabou apanhando também. Chamaram a polícia e eles levaram Joaquim. Zuleide foi com ele para a delegacia, afinal, era seu homem, tinha que ir aonde ele fosse.

Maristela tenta mais uma vez explicar para Zuleide que isso não estava certo, que ela poderia ficar na casa dela até se recuperar. Mas Zuleide apenas respondia, amanhã ele fica bom. Só é assim à noite.

Maristela ainda procurou Zuleide por um tempo, mas não conseguiu localizar. Joaquim pediu demissão da empresa e foram para um outro lugar.

Passado uns meses, vendo televisão, vem a notícia de mais um feminicídio. E a foto da Zuleide estampada na televisão.

Zuleide não conseguiu romper o ciclo da violência, mesmo tendo pessoas que a apoiariam. Achava que era normal a violência no casamento, afinal as mulheres que conheciam passava por isso, em maior grau ou menor.

Maristela não conseguiu mostrar para ela que o casamento não pode ter violência, e se tem, isso não é amor e não é correto, devendo o ciclo ser interrompido. E que não existe desculpa para a violência.

Maristela foi dormir com o coração pesado por todas as Zuleides que existem nesse Brasil. E que sofrem caladas sem conseguir romper esse ciclo da violência contra a mulher.


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Imagem: Criador: Artem_Furman | Crédito: Getty Images/iStockphoto

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