AMOR & ÓDIO

Por ROBERTO NAVARRO

Coluna Estrada das Lágrimas


O meu trabalho deu oportunidade de encontrar milhares de pessoas nesses longos anos de carreira e me fez aprender a ser imparcial, discreto, sigiloso e a respeitar qualquer todos os seres humanos que se apresentem à minha frente. É um exercício diário para mim, pois como um ser humano que também tem seus defeitos e¨pré-julgamentos¨ instantâneos, aprendo a guardar para mim esses “pré-conceitos” e abro minha mente e meu coração quando ouço histórias que me fazem refletir muito depois.


Hoje vou contar uma história de uma pessoa, que a princípio me deu vontade de ir embora e largar a pessoa sozinha no consultório, mas lembrando do juramento que fiz, não podia fazer isso. Essa pessoa cometeu um grave erro, pagou por esse erro e no momento que a encontrei já estava quite com o seu erro, bem, pelo menos com a justiça, mas não com sua consciência, ao que me pareceu, apesar de negar isso.


Certo dia encontrei em um abrigo para idosos o Sr.Gerônimo, 68 anos, negro, barba e cabelos brancos, muito simpático, bom papo, que apresentava queixas de dores e que no final da consulta mediquei. No entanto, o assunto mais importante não foi esse naquele dia.


Ele começou a contar sua história, disse que quando jovem conheceu uma mulata de olhos verdes. Ficou completamente apaixonado e mais adiante se casou. Vivia exclusivamente para ela. Teve dois filhos e a vida foi passando. Ele contou que quando ia trabalhar passava o dia pensando nela e sempre que podia telefonava durante o expediente do trabalho. Não via a hora de voltar para os braços daquela mulher que era a sua vida. Não conseguia imaginar outra forma de vida se não fosse ao seu lado. E assim viveram juntos por mais ou menos 10 anos.


Até este momento estava achando uma linda história de uma pessoa idosa mas ainda apaixonado pela esposa. Em dado momento perguntei sobre ela, já que ele se encontrava sozinho num abrigo e ele me disse que ela havia falecido e que precisava me contar uma coisa.


Então me disse que não suportava a idéia de ter sido ser traído por essa mulher: um dia, ao chegar do trabalho, viu a sua esposa conversando com um homem que estava encostado no carro. Entrou em casa e sentiu um ódio intenso, um sentimento de ter sido trocado, de desespero, medo, tristeza… não soube explicar bem o que sentia mas pegou uma faca e foi até ao encontro deles, mas o homem estava entrando no carro e saiu em seguida. A esposa o abraçou e disse que não era nada do que ele estava pensando (perguntei a ele quem era o tal homem, porém ele não me respondeu, mas segundo informações de outras pessoas parece que era um primo dela). Entraram em casa e ele aparentemente se acalmou.


Ele me relatou que aquela cena não saia da sua cabeça e a sensação de ter sido traído pelo seu grande amor ia e voltava em seus pensamentos. Chegou a hora de dormir e assim foram para o quarto. A esposa adormeceu e ele ficou ali com seu conflito. Não conseguia dormir e o desespero voltava, ficava atormentado pelos maus pensamentos e se levantou. Friamente foi até a cozinha e pegou um facão, retornou ao quarto e ficou ao lado da bela esposa adormecida pensando no que havia acontecido.


Na sua cabeça atormentada já visualizava e se confirmava a traição, e cada minuto que passava, se conformava cada vez menos com a traição, e foi então que pensou: “... seu eu der uma facada ela vai gritar e todos os vizinhos virão aqui”, então resolveu buscar uma machadinha e retornou ao quarto. Sem pensar muito atingiu a esposa e em seguida deu vários golpes de faca. Ele me disse que quando passou toda aquela raiva pensou em se suicidar. Foi até um local onde tinha uma corda e pendurou-a em algum local na casa e tentou se enforcar. Só se lembra que acordou no chão, do lado da corda e de vizinhos e a polícia em torno dele.


Foi condenado e cumpriu quase 30 anos de prisão, e não foi constatado nenhum distúrbio psiquiátrico. Quando saiu da cadeia, já não tinha amigos nem família (todos os laços foram desfeitos). Sem formação, já idoso e com histórico de prisão, dificilmente acharia recolocação no mercado, então acabou ficando em abrigos públicos, sendo um deles onde eu o encontrei.


Perguntei o que ele sentia e se havia arrependido, e para minha surpresa, disse que nunca amou uma mulher como amou sua esposa, que ela era linda, perfeita mas que não havia arrependimento..... e assim terminou a consulta. Logo depois ele saiu desse abrigo e não o vi mais.


Eu não estava ali para julgar nem condenar, pois o meu trabalho não é esse, mas uma coisa pensei comigo mesmo, nem eu nem ninguém pode curá-lo, pois sua doença talvez seja da alma e não física, e somente ele pode se curar se um dia quiser..... nunca é tarde para isso.


Uma observação importante é que como as pessoas criam fantasmas à sua volta e o quanto elas mudam suas vidas e de outros tão radicalmente baseadas no que estão pensando, ou achando. que seja verdade. Vale a pena sempre refletir muito, antes de decidir sobre fatos importantes de nossas vidas. Se mesmo assim não conseguirmos, ainda podemos buscar ajuda com outras pessoas. Sempre podemos mudar nosso caminho tanto para melhor quanto para pior. Nossa mente é poderosa, tem o poder de cura e de destruição… cuidado!


É uma história triste, mas é a realidade de uma vida. Quantos Gerônimos existem por aí? Quantas pessoas equivocadas e radicais em seus pensamentos e atitudes causam mal a si mesmo e à outras pessoas? Quando será o momento de parar e refletir onde iremos chegar com nossas atitudes e pensamentos? Até onde o ser humano conhece seus limites?


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