AMOR INCONDICIONAL

Por ROBERTO NAVARRO

Coluna Estrada das Lágrimas

Há alguns anos tive a oportunidade de conhecer, em meu trabalho, a Dona Cida, uma senhora alta, magra, com o sofrimento estampado no rosto, porém sempre com um sorriso meigo para qualquer pessoa que se aproximasse. Sua história de luta começou assim que teve seu segundo filho, o Jonatas. No parto seu filho teve paralisia cerebral, e por mais que desejasse, sabia que haveria muitas limitações para seu querido filho e que a vida da família iria mudar completamente.


Dona Cida tinha uma filha mais velha saudável e que estava com dois anos de idade quando teve o Jonatas. Ela e seu marido trabalhavam e moravam nos fundos da casa de seus pais.


Com o nascimento de Jonatas aprenderam aos poucos a se adaptar e conformar com as condições do filho. Por sorte, Dona Cida trabalhava de faxineira em uma clínica que a ajudou muito, dando cama hospitalar, equipamentos e consultas quando necessários. O quadro de saúde de seu filho era estável e irreversível.


Jonatas foi crescendo olhando o mundo deitado em sua cama e sua família em volta. Sua mãe dedicada ao extremo, conversava com ele intensamente e de alguma forma ele entendia e respondia com olhares e sons emitidos de sua boca. Após alguns anos, Dona Cida ficou viúva, ficando com sua filha mais velha, Jonatas e seu pai, que ficara viúvo também um pouco antes. Mudou-se para casa da frente que era de seu pai e ficou cuidando dele também. Sua filha após se casar foi com o marido para o sul do brasil.


Quando conheci Dona Cida ela já estava na meia idade e Jonatas com 32 anos deitado na cama com poucos movimentos dos braços atrofiados e cabeça, e o restante do corpo sem qualquer movimento, os poucos movimentos de seus braços eram sem coordenação.


Quando Dona Cida falava, ele tentava virar a cabeça e parecia sorrir e emiti alguns sons como se tivesse falando algo, mas somente Dona Cida entendia ou de qualquer forma ela sabia o que ele queria. O que me deixou mais admirado foi o Jonatas não ter nenhuma escara (ferida no corpo devido posição na cama por 32 anos). Isso demostrou o imenso cuidado que Dona Cida tinha com o filho. Pois mesmo com dificuldades, quase sem ajuda, trabalhando, tendo uma vida simples com poucos recursos, ela conseguiu manter seu filho da melhor forma possível e isso contribuiu para que ele vivesse além das expectativas.


Como se não bastasse tanta dificuldade, logo após dois anos que conheci essa família, o pai de Dona Cida faleceu, e seu irmão veio tomar a casa que era de seu pai. Dona Cida voltou para antiga casinha dos fundos que se resumiam a dois cômodos apenas. E as dificuldades não pararm por ai. Sua filha voltou do Sul, separada do marido, com dois filhos pequenos e com diagnóstico de tumor cerebral.


Muita gente por muito menos se revolta, enlouquece e Dona Cida ali sempre firme e forte pedindo a Deus que a iluminasse sempre. Sua filha realizou cirurgia e ficou bem, mas era mais uma pessoa pra cuidar, além de Jonatas e seus dois netos. Conseguiu um acordo no trabalho para que pudesse ter tempo de cuidar de todos na sua casa. Passado algum tempo sua filha se recuperou e voltou a ativa. Ela também cuidava de seu irmão Jonatas com carinho para que sua mãe trabalhasse.


Dona Cida uma mulher aparentemente frágil de fala mansa, baixa com sofrimento estampado no rosto porém nunca ouvi aquela mulher revoltada, brava ou desanimada. Que força!!


Aos 34 anos Jonatas faleceu e foi a primeira vez que vi Dona Cida triste, desanimada, desconsolada. Ao mesmo tempo eu e todos que a conheciam pensavam: “agora ela pode descansar… viver pra si mesma.” Mas até o momento em que vi pela última vez essa família Dona Cida estava triste, ela se dedicou tanto ao filho e viveu exclusivamente para cuidar dele tantos anos que não sabia mais viver sem ter aquela rotina diariamente.


Passado 10 anos ainda me lembro dessa mulher aparentemente frágil… mas que foi mais uma pessoa que passou pela minha vida e deixou uma mensagem. Em alguns momentos difíceis de minha vida, me lembro da garra e determinação da Dona Cida. São pessoas assim que compõem nossa experiências de vida, mesmo não passando pela situação delas, podemos nos colocar no lugar e tirar conclusões sobre nossas dificuldades.


Obrigado Dona Cida.


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