As queimadas de agosto

Atualizado: 17 de Fev de 2020

Por CÉLIA LADEIRA MOTA

O contexto histórico de todo o século XX provoca uma bolha ideológica, distorcendo a observação científica do jornalismo. (Nilson Lage, 2001)


As queimadas de agosto, em parte do território nacional, foram hoje, quinta-feira, o assunto de capa da maioria dos jornais e tema de entrevistas nos telejornais da manhã. As reportagens repercutiram a entrevista do presidente Jair Bolsonaro na qual ele levantou a suspeita de as queimadas serem uma reação de ONGs contra o seu governo. No telejornal da TV Bandeirantes, Café com Jornal, o governador de Mato Grosso contribuiu para o debate afirmando que mora no Estado há 40 anos e sempre viu queimadas nesta época do ano.  No telejornal da TV Globo, Bom dia Brasil, o antagonismo à fala presidencial foi maior. Repórteres ouviram representantes de ONGs e especialistas diversos.


Como se ensina na Escola de Jornalismo, a notícia é a narrativa de um acontecimento e busca esclarecer os significados, os porquês do fato. Na maioria das reportagens de hoje o que vimos foram narrativas polêmicas em que os entrevistados assumem um papel de protagonistas da informação, rebatendo falas dos que podem ser considerados antagonistas, que assumem um segundo plano. Do lado do governo foram reproduzidas falas do presidente da República e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ao interpretar as falas oficiais as notícias deram destaque às críticas de ambientalistas em geral, que terminaram por protagonizar o acontecimento pela negativa do mesmo.


Uma regra jornalística é a de mostrar o contraditório, as duas ou mais faces de um problema ou um acontecimento. Ao adotar uma narrativa polêmica em que se usa um ponto de vista de negação de um fato, o jornalismo não contribui para uma observação científica do acontecimento,  mas se coloca politicamente em posição crítica, reforçando o antagonismo ao entrevistado principal. O que faltou na maioria das reportagens sobre as queimadas?


Em primeiro lugar, não houve explicações sobre as causas das queimadas de agosto. Nenhum repórter procurou explicar o que está acontecendo na região Norte do Brasil. Nenhum repórter entrevistou algum dirigente do Corpo de Bombeiros Militar, a entidade estadual responsável por apagar fogos no campo ou nas cidades de cada Estado do país. Afinal, o leitor ou telespectador está cansado de saber que, em caso de fogo, não se chama o governo federal, mas os bombeiros.  Por que federalizar um problema cujas causas são regionais?


As hipóteses sobre o aumento das queimadas são muitas: a época seca, a falta de chuvas no Norte, a temporada de replantio nas propriedades rurais, os incêndios criminosos, o velho hábito cultural do agricultor brasileiro de queimar a terra para o novo replantio. Nenhum destes temas foi abordado pelas reportagens.


Em vez de uma postura científica de identificar os problemas, a maioria da mídia  brasileira prefere polemizar sobre declarações do presidente da República. Este, por sua vez, prefere o debate político a uma posição mais científica de investigar o que está acontecendo de fato nas áreas sujeitas a desmatamento. Informa-se mal e com isso não se resolve um problema que há mais de 40 anos atinge parte das matas e florestas nacionais durante as temporadas de seca. Espera-se simplesmente que as chuvas de setembro ou outubro resolvam os problemas e nada se faz, nem Ongs, nem governos, estaduais ou federal.


O que se perde quando se informa mal: evita-se, sobretudo, educar a população para que ela seja um agente da proteção ambiental no Brasil. Se cada morador de uma área desmatada conseguir convencer um vizinho a não colocar fogo na sua mata ciliar, ou na própria terra, a batalha contra o fogo e contra o desmatamento começa a ser ganha.


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