AS ESCOLHAS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Por RENATA MALTA VILAS-BÔAS


Maria das Dores trabalha no Hospital como faxineira e presta atenção nos detalhes. A muito que não sonha mais em fazer outra coisa, a desilusão de sua vida e as marcas do tempo, acabaram com as suas esperanças de uma vida melhor.


Para chegar no trabalho gasta duas horas de ônibus, lotado, e que na maioria das vezes precisa ir em pé. Vive de aluguel porque não teve dinheiro para comprar nada seu, e os programas habitacionais do governo ainda não olhou para ela.


Teve três filhos. Um rapaz que foi morto a tiro "por engano", quando ainda tinha 16 anos. Foi confundido com outra pessoa. Aquela dor que sentiu nunca mais lhe saiu do peito. Ela sente que nunca mais foi a mesma, nunca mais sorriu como sorria antes... E a pessoa que se enganou, nunca foi preso... E quem é que teria coragem de dizer que foi ele ?


Conhecido na redondeza pelas diversas mortes nas costas, sem que fosse preso, o seu poder advinha do medo. Mas era uma pessoa consciente. Quando viu que matou o filho da Maria das Dores, deu dinheiro para ela providenciar o enterro, ajudando com o funeral do rapaz. Afinal, matou "por engano".


E assim, seguia Maria das Dores, com as suas dores...


As duas filhas lhes trouxeram as netas, duas meninas lindas, mas ela já sabia o destino, suas filhas seriam abandonadas, da mesma forma como ela foi abandonada pelos pais dos seus filhos.


Dito e feito, passado um pouco, os pais das meninas abandonaram as crianças com as mães, e agora, moram cinco pessoas num barraco de quatro cômodos: cozinha, banheiro, sala e um quarto. Para dormir todos se ajeitam ... E todas vivem do salário da Maria das Dores, que como faxineira ganha o salário mínimo.


Os pais das netas não ajudam com o valor da pensão porque diz para o juiz que estão desempregados. E não tem ameaça que faça eles pagarem. A filha mais velha até desistiu de ir no Judiciário, afinal, de nada adianta a ordem do juiz que manda pagar, se o pai da sua menina não paga.


A descrença com o Judiciário e com a vida tinha abatido aquela família, que vivia apenas por insistência e teimosia, pois não tinham mais coragem para mudar nada, modificar nada.


Pediam por dias melhores e estes nunca chegavam...


Com toda a dificuldade Maria das Dores, continuava resistindo e trabalhava dia-a-dia para dar de comer às suas meninas.


O único momento em que Maria das Dores aliviava o peso de sua vida é quando chegava ao trabalho, colocava o uniforme e começava a limpar a sujeira deixada.


Nesse momento ela percebia que o seu trabalho era importante e tinha relevância para o hospital. O Dr. Alexandre, chefão do hospital que trabalhava, falava com bastante orgulho do que ele chamava de "padrão de limpeza internacional". Maria das Dores não sabia o que isso significava, mas como ele falava com muito orgulho por isso deviria ser uma coisa muito boa.


E assim se passavam os dias, e os anos. Na monotonia de uma vida insistente, que resiste e insiste em viver, mas sem ter esperança de dias melhores.


Quando menos se esperava, pegando todos desprevenidos, começou uma pandemia, uma doença que veio da China e que começou a matar as pessoas. Começava com uma gripe e logo depois era morte na certa.


E Maria das Dores começou a perceber como estavam as pessoas - médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem - lutando diariamente contra aquela doença que não trazia esperança, ora percebia o medo da incerteza, ora o desespero de não conseguir ajudar aquelas pessoas que chegavam.


E também viu o desespero dos familiares, que não podiam ter acesso aos seus parentes. Entravam no hospital e não se sabia se iria sair pela porta da frente. Muitos só tinham a notícia do falecimento e nem podiam velar o parente querido.


Também tinha medo de ser contaminada. E mais ainda, que a sua limpeza não fosse suficiente e que os tais bichinhos ficassem no hospital, matando mais pessoas. Assim, se esforçava para manter tudo mais limpo ainda.


E o hospital começou a ficar cheio de pacientes. Antes os corredores não tinham macas.


Agora, era maca espalhada por todos os lugares. E pessoas sofrendo, gemendo de dor.


Ela tentava ignorar esses sons, esses sentimentos e tentava dar o melhor de si, limpando aqueles espaços, com a esperança de poder assim, ajudar no combate daquele bichinho ...


Mas, até mesmo limpar ficou difícil, pois com as macas espalhadas pelo corredor, ela não conseguia limpar 100%, e não podia tirar para limpar direito, pois os pacientes sentiam muita dor.


Um dia, a Maria das Dores estava na UTI fazendo a limpeza, quando viu uma movimentação diferente. Era o Dr. Alexandre que trazia um papel na mão, acompanhado de um oficial de justiça.


Dr. Alexandre estava com o rosto todo vermelho, esbaforido, lia e relia o papel. Era uma ordem do juiz para que ele providenciasse um leito da UTI para o paciente X. E o oficial de justiça estava acompanhando o Dr. Alexandre para certificar que ele iria fazer isso.


Chegando no meio da UTI, o Dr. Alexandre virou para o oficial de justiça e disse:


- Só tem uma forma de cumprir essa ordem do juiz. Tem que tirar alguém que está aqui. Pois bem, senhor Oficial de Justiça, escolha qual dessas pessoas é que vai ser retirada da UTI, para que o senhor X possa entrar. Só aviso que qualquer um que o senhor escolher vai morrer, porque todos que estão aqui é porque precisam de estar nessa área. Não tenho mais leitos, não tenho mais espaço para receber ninguém. Se preciso cumprir a ordem do juiz, me diga quem é que o sr. vai mandar para a morte?


O oficial de justiça escreveu no papel alguma coisa e foi embora.


Nesse momento o Dr. Alexandre sentou na escada e chorou... Afinal não tinha estudado tanto, se aperfeiçoado tanto para não dar o tratamento adequado, por falta de equipamento, remédios e pessoal. Não tinha como controlar o avançar da doença e dos doentes. Não dependia dele.


E, a partir desse momento, Maria das Dores viu que a sua vida, mesmo com todo a sua tristeza, não tinha o peso de decidir quem ia viver e quem não ia. Pois percebeu que os médicos começavam a escolher quem iria para a UTI, dentro daqueles que tinham uma possibilidade de recuperação, pois aqueles mais graves, em que a probabilidade de sobreviver era menor, não estavam sendo encaminhados para a UTI, pois não tinha leito, não tinha equipamento, não tinha pessoal qualificado.


Foi quando se lembrou de uma entrevista que viu, em que uma pessoa falou que sem estádio não tinha futebol, mas ela percebeu, que sem hospital não tem vida. E as escolhas estão aí para serem feitas. E cada escolha tem uma consequência.


E assim continuou a limpar o hospital, mais do que nunca resolvida a fazer o seu melhor. Pois se os outros não faziam, não era ela que ia deixar um bichinho sequer para trás !


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