AS NEGAÇÕES EM MEIO À VIDA

Por ALEANDRO L. ROCHA


Quantas vezes, de maneira natural, pode-se olhar para uma realidade e não enxergar o que de fato ela representa? Como disse Freud, talvez uma forma de proteger-se contra aquilo que incomoda, que não conseguimos lidar.


No entanto, negar uma realidade pode trazer prejuízos e até mesmo riscos à vida. Em meio à pandemia causada pelo Covid-19, esse mecanismo psíquico tem sido acionado frequentemente. Basta olhar as ruas e os shoppings, lugares em que as pessoas transitam envoltas numa aparente normalidade. Essa observação não questiona a necessidade das pessoas de terem suas rotinas novamente. No entanto, quer refletir sobre o mecanismo de negação da realidade, tão comum nos seres humanos.


Nesse entendimento, observa-se que o conhecimento da crise mundial causada pelo Coronavírus não tem sido suficiente para as pessoas aceitarem os número, os relatos e as histórias que se aproximam cada vez mais da realidade de cada um. Ao que parece, muitos acreditam ser imunes ao vírus e seus possíveis desdobramentos. Embora saibamos que boa parte das pessoas não terá agravamento dos sintomas, também sabe-se que outros sofrerão e podem até perder a vida.


Assim, os casos de contaminação aumentam, e as mortes também. É claro que não se pode negar a necessidade e o desejo da volta à normalidade, do equilíbrio econômico e da vida financeira de milhões de brasileiras e brasileiro. Um afago em meio a tanta tensão. Porém, proporcionalmente arriscado.


Quem, ao menos em pensamento, já não escapou da quarentena para uma rápida visita a um familiar ou amigo, imaginando que nada irá acontecer? E uma ida ao mercado, observando o movimento e acreditando, por um instante, que está tudo bem? Quem não se deparou com a atitude de um conhecido, geralmente cuidadoso com o outro, que parece ter escolhido discursar sobre os "exageros " a respeito da pandemia?


Assim como um almoço de domingo, com a família, mesmo que represente uma ameaça, que negue a realidade.


Pensar sobre a pandemia tem sido urgente.


Mas imagine o quanto, sem saber, pode-se negar fatos do dia a dia. São diversas situações que envolvem as relações humanas, que embasam atitudes e decisões. Já parou para refletir sobre as relações construídas no aparente, no impulso, no impensado, no vazio e na ansiedade? São escolhas cotidianas, distorcidas pelo fato de não querer ou não suportar ver aquilo que realmente são. Nuances como a negação do envelhecimento, o medo do fim, de perder algo ou alguém, e das dificuldades financeiras, por exemplo.


Talvez, por isso, tantos relatos de surpresas desagradáveis, decepções e desgastes, e tanto tempo perdido. Isso nos faz pensar que, quando não se busca entender os próprios mecanismos de funcionamento, o que realmente fala quando desejamos ou escolhemos algo ou alguém em nossas vidas, ficamos vulneráveis, sujeitos a repetições.


Acreditar que o vírus não seja tão ofensivo, mesmo que o mundo esteja mostrando o contrário, é hoje um grande exemplo da negação do próprio medo e da fragilidade humana.


Encarar que essa triste realidade ainda não passou, e que ela está ressoando em nossas emoções- é um convite a um cuidado mais pessoal.


É preciso entender que os sentimentos permanecem vivos e muitas vezes, inconscientes.


Eles irão se manifestar mesmo que você não os reconheça, os negue, por meio dos sintomas, de reações contraditórias, em atitudes impensadas e confusas.


Por isso, uma análise constante sobre si e sobre a vida será sempre necessária. Somente uma observação é capaz de trazer à consciência as emoções que tornam vulneráveis os que pouco tocam em suas história, que negam a realidade da vida.


Pensar, e não negar os riscos e os números da pandemia, é um bom exemplo e um exercício necessário.