BRASÍLIA EM MEUS OLHOS DE QUEM A TINHA NO CORAÇÃO

Por ALFREDO BESSOW

É bem provável que eu estivesse jogando bulita à sombra dos pés de uva japonesa que seguem sombreando uma área diante do velho galpão de madeira que sei que resiste em mim enquanto memória e lá na Linha Palmeira como depósito de ração e aquelas coisas todas que só quem viveu no campo sabe que existem em tais espaços. Era um tempo no qual crianças não tinham como estar junto de conversas de adultos e lembro de meu pai conversando junto com o meu avô mais um aparentado distante tentando convencer o velho Romeo a ir para a nova cidade e montar uma representação de arroz de alguns engenhos da região que mandariam o produto em sacas. Detalhes estranhos, feito peças de um azulejo espatifado e que a gente sabe que são partes, ainda que nãos e saiba como encaixá-los no todo ou desencaixá-los sem fragmentá-los ainda mais.


Como bom campeiro e suas cismas de descendente de alemães, acredito que tenha sopesado suas muitas dúvidas e acabou optando por continuar por lá mesmo.


Esse incidente que estava em uma área meio nebulosa da minha memória foi aclarado no final de 1986 quando embalado por butiás com cachaça o avisei de que tinha aceito o convite e trocaria Floripa por Brasília. Entre generalidades sobre o novo desafio, lembro-me dele recontando da conversa que tivera para concluir: realmente o tempo de Deus não é o nosso tempo.


Na visão dele, minha vinda para Brasília seria uma questão de tempo. E ficamos trocando outras reminiscências, eu derrubando alguns tragos e ele mateando e assuntando sobre coisas que nem eu e nem ele poderíamos falar. Disse-me que ouvira nos noticiosos sobre os muitos problemas com as agruras do tempo seco e os riscos e a sedução do entrar em trambicagens.


Quando nos despedimos no começo de janeiro, lembro dele me falando em alemão: Mein geliebter junge, pass dich auf in Brasilia (Meu filho amado, te cuida em Brasília).


Lembro deste episódio quando mais uma vez em uma data cheia a nossa cidade não pode comemorar e nem festejar o aniversário – em 2010 quando completou 50 anos, a roubalheira de Arruda e Paulo Octávio inviabilizou qualquer sentido ou razão para festa e agora no tempo dos 60, eis que estamos sob o reinado do medo e intoxicados de tanta informação, nos pegamos desinformados sobre o que efetivamente está acontecendo.


A cidade quer voltar ao normal e o povo, precisa – menos aqueles que usam de qualquer artimanha ou pretexto para mostrarem uma preocupação estranha para com a vida quando em sua ação e atuação política defendem o aborto, quando revelam o temor da dor de famílias, logo eles que advogam o fim das famílias.


Um ror de dias depois da queda de Collor, convenci meu pai e minha mãe a virem para Brasília de avião, ele que insistia em vencer os mais de mil quilômetros de ônibus por considerar pouco seguro os aviões – algo no mínimo estranho para quem domara cavalos se sujeitando a corcovos e tombos.


Foi uma experiência indescritível vê-lo com os pés mal postos no solo e externar sua urgente curiosidade em conhecer a Praça dos Três Poderes, algo que acabou me intrigando e tornando-me curioso acerca das razões de tanta pressa. Quando enfim para lá fomos, vi o mesmo jeito de quem olhava a lavoura para definir eventuais curvas de nível para o traçado das taipas e assim tirar o máximo das águas que vinham açude do Waldemar Boeck para irrigar a plantação.


O vi caminhando, contando os passos para se assenhorar da dimensão de espaço que em Brasília difere de outros lugares. Andava medindo com os passos as lonjuras, olhava e se posicionava – como a buscar uma familiaridade de algo que havia nele e assim elaborar uma conectividade da memória do que tinha pelos noticiosos da TV com aquilo que agora tinha como realidade a confrontar com o tantas vezes visto.


Ficou longo tempo andando e olhando e eu ainda o vejo em cenas que agora me voltam aos olhos, guardadas vivas e de onde busco forças para enfrentar o desafio renovado de viver esta cidade com seus mistérios, encantos e magias.


Ainda que tenha tido muitas oportunidades, nunca sujei as mãos e sei o quanto isso é importante para quem Deus me deu como família e para quem já era minha família mesmo antes de eu vir para cá. E sei que, a exemplo de mim, a imensa maioria dos brasilienses e daqueles que se acandangaram, sofrem a dor do preconceito que é contra uma estrutura de poder, mas que agride a todos nós.


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