BURN, BABY, BURN ou O Museu e a Amazônia

Atualizado: 17 de Fev de 2020

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


Há um ano ardia em labaredas o Museu Nacional do Rio de Janeiro, deixando em forma de cinzas e escombros um prejuízo histórico, artístico e cultural inestimável e, pior ainda, sabidamente irreparável.


Decorridos 365 dias do trágico evento, ninguém até o momento foi responsabilizado, e a população brasileira já esqueceu o malfadado acontecimento – até mesmo porque quase todos nós estranhamente ignorávamos a existência do Museu Nacional do Rio de Janeiro, e alguém que ignora uma importante fonte de suas origens ignora, por via reflexa, a sua própria existência.


O museu foi destroçado pelo fato de que os recursos financeiros destinados à sua manutenção mais básica foram remanejados a algum projeto idiota e inútil – ou aos bolsos soberbos de algum político escroto. Todos nós sabemos que houve corte de verbas e que apenas uma única brigada de incêndio com 4 ou 5 profissionais treinados e razoavelmente equipados, aliada a um sistema de alarme básico teriam a capacidade de neutralizar o que se deu em 2 de setembro de 2018, ocasião em que quase 20.000.000 de peças foram “churrascadas” pela incompetência, pela leniência e o descaso de seus (ir)responsáveis funcionários públicos aos quais incumbia o tratamento, a catalogação, a manutenção e a custódia de objetos variados. Prova cabal de negligência, desconhecimento e ausência de visão de futuro.


E falando sobre “labaredas”, “cinzas” e “escombros”, cabe destacar agora a discussão enorme que permeia o meio acadêmico, a diplomacia mundial, os veículos de comunicação, as praças públicas, os táxis, os salões de beleza e os botequins acerca do que seria um desmatamento catastrófico e de proporções bíblicas na região amazônica do Brasil.


Percebi que tanto a Amazônia – que, de fato, vem sendo sistematicamente devastada – quanto o museu queimado na antiga Capital do Estado da Guanabara guardam semelhanças estarrecedoras.


Em primeiro lugar, em ambas as situações (museu e floresta) existe uma discussão política, polarizada, estúpida, rasteira e descomprometida com a verdade, que tomou o lugar de todo e qualquer debate sério e que, se fosse um dia transportado às esferas da mais lídima ciência, talvez surtisse resultado pleno.


A floresta amazônica não é o “pulmão do mundo” como a gente estudou no colégio. Ao contrário, a Amazônia consome praticamente todo o oxigênio que produz, uma vez que a região inteira é o que se configura em um legítimo “clímax ecológico”: além da produção de oxigênio (que ocorre durante o processo de fotossíntese), a flora amazônica também consome oxigênio (praticamente todo aquele lá produzido), liberando, obviamente, gás carbônico; os “pulmões do mundo” são as algas marinhas, que lançam à atmosfera do planeta mais de 50% do oxigênio produzido na Terra por elas próprias.


Todavia, o desmatamento da floresta amazônica impacta sim o clima do planeta inteiro. A derrubada de árvores leva à decomposição das mesmas, liberando gás carbônico e agravando o aquecimento global, tudo isso sem contar a dizimação quase instantânea de todo um macro e um microuniverso habitados por inúmeros outros seres vivos, de formas e tamanhos variados – inclusive seres humanos.


A Amazônia influencia diretamente o regime pluviométrico de uma enorme parcela do planeta, porque lança na atmosfera “zilhões” de partículas de ordem biológica que se tornam núcleos de condensação de nuvens, quando o vapor d´água se transmuta em cristais de gelo.

Todos hoje bradam pela conservação da nossa floresta, e estão inteiramente certos. O desmatamento sistemático – em especial aquele que se destina à fomentação de garimpos, agricultura em larga escala e pastos para gado – é de uma tolice incomensurável.


Em que pese o fato de que somos, por exemplo, os maiores exportadores de bovinos do planeta, é cediço que essa situação não durará eternamente – até mesmo porque, quanto maior a oferta, menores são os preços por aquilo que se compra. Isso é uma curva parabólica. O que vai durar eternamente é a tecnologia destinada à medicina de ponta, à biologia e à química fina, cujo maior laboratório natural do mundo é exatamente a Amazônia, com recursos quase infindáveis – mas talvez por pouco tempo. Mendel, aliás, decifrou, no longínquo século XIX, a essência da genética moderna pesquisando ervilhas em uma pequena horta do mosteiro em que residia.


Só que esse pensamento não existe. É exatamente a mesma lógica turva que fez com que, por achar de importância irrelevante, subalterna, o Poder Público deixasse que o mundo todo assistisse, com total comoção e estarrecimento, um museu inteiro transformado em fogueira.

Não sejamos burros: é incontroverso que uma nação que não protege a sua história e que não investe em pesquisa e em desenvolvimento estará fadada às últimas fileiras de um tablado que se chama Liderança, ao escanteio de um tabuleiro habilitado apenas aos mais hábeis jogadores – o que, lamentavelmente, não é o nosso caso, já que não sabemos – ou não queremos – criar absolutamente nada quando não estamos, simultaneamente, destruindo outras coisas.


Todo mundo ficou p. da vida quando perdeu um museu importante ainda que não o frequentasse, e agora se enche de orgulho besta ao se autoproclamar “ecologista”, “herdeiro divino” e “dono” de um território imenso, com riquezas que sempre estiveram lá (pelo menos nos últimos muitos milhares de anos), de mão beijada pela natureza, mas não planejadas ou edificadas pela mente humana com trabalho árduo, estudo ou disciplina…tudo isso enquanto desperdiça diariamente alimentos (somos recordistas mundiais!), entope os bueiros das cidades e sequer limpa as fezes do cachorro na calçada.


Em verdade, a grande massa (que, não por acaso, jamais pisou em um museu na vida) desconhece os conceitos de “biodiversidade”, “nicho ecológico”, “desenvolvimento sustentável”, “ecossistema”, “defensivos agrícolas (prefere chamá-los de “agrotóxicos”, que é coisa do capeta) e “aquecimento global”. Assim como desconhecia por completo o Museu Nacional do Rio de Janeiro, até que assistiu por acaso ao Jornal Nacional em 2 de setembro de 2018, quando o William Bonner e a Renata Vasconcellos narraram aos telespectadores o trágico e devastador incêndio.


E assim a gente continua debatendo e opinando sem conhecimento, desprovida da imprescindível consciência crítica, e eivada da mais sórdida demagogia. Se a Amazônia hoje gera riquezas com os “bichos de pasto” e as “agriculturas” e as “madeiras” e os “minérios” (tanto os legais quanto os ilegais, já que a fiscalização e a legislação são esdrúxulas), é indubitável que poderia fomentar ainda mais riquezas caso fosse, quem sabe, objeto de pesquisa séria, em grande escala, cientificamente idônea, financiada adequadamente, sem aqueles agentes políticos coniventes e omissos, mas também sem os ativistas radicais e inconsequentes – porque, convenhamos, é muito chato ter que adquirir de volta (e a um preço exorbitante) tecnologias provenientes de nações das quais jamais dependeríamos caso não nos ocupássemos apenas e tão-somente com os bois, os porcos e as galinhas. Ou ainda investindo em turismo, já que a infraestrutura de lazer é horrorosa em uma região maior do que a França inteira. Não há que se falar em perda de soberania ou de dignidade. Isso é discurso infantil, beirando a paranoia.


Nenhum país ou civilização na história enriqueceu ou se desenvolveu plenamente relegando o Conhecimento a um segundo plano. A educação traz resultados geométricos e ascendentes, embora mais lentos, menos perceptíveis nos primeiros tempos; e a mera exploração desenfreada, apenas resultados aritméticos – embora rápidos e danosos, e sobretudo finitos.


Cabe a nós fazermos a escolha sobre o que queremos para a nossa descendência.


Nota: Sobre o título sugerido no início do artigo, já informo que não tem absolutamente nada a ver com que estamos discutindo (ou não). “Burn, baby, burn”, é o refrão de uma canção de disco music do grupo setentista The Trammps, gravada em 1976. Quem sabe os restos mortais do Museu Nacional e a nossa Amazônia não se transformem, num futuro próximo, em enormes pistas de dança e de ritmos coreografados dessa casa noturna superlotada, pessimamente gerenciada, mal frequentada e esfumaçada chamada Brasil. Queime, baby, queime…



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