CÍCERO E CATILINA E A POLÍTICA BRASILEIRA

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


Muito embora seja um conceito oriundo da Grécia, o modelo político da república se desenvolveu na civilização romana. Em sentido literal, a palavra República significa “Coisa Pública”, “Bem Público”, “res publica”, ou seja, o que concerne a toda sociedade, bem como à gestão/administração das necessidades coletivas.  


O início da república em Roma se inicia logo após a queda do que foi o derradeiro monarca da dinastia etrusca, que governou Roma durante quase 250 anos, mais precisamente Tarquínio, o Soberbo, em 509 a.C. 


Dessa forma, a estrutura essencialmente monárquica foi abolida e surgiram de imediato novas e importantíssimas instituições, destacando-se aí o Senado, constituído pelos cidadãos mais velhos e proeminentes que basicamente elaboravam e votavam as leis e a Magistratura, que geria a administração pública e que era, aliás, fiscalizada pelo Senado.  


Sabe-se que o cargo mais alto da magistratura era a figura do cônsul. Quem normalmente chefiava o poder da República eram dois cônsules, sempre escolhidos pela chamada Assembleia Curiata. 


Ao longo da década de 60 a.C. ocorreu, contudo, um fato interessante e que merece toda a nossa reflexão, sobretudo diante do momento político brasileiro de hoje: Catilina, um militar e senador bastante conhecido e que também já havia exercido cargos na magistratura, almejava  ser designado cônsul da República. Só que era extremamente mal visto pelos demais senadores, que o consideravam como não merecedor de confiança e até mesmo como uma ameaça verdadeira às instituições republicanas romanas, tanto que foi derrotado em escrutínios por diversas vezes.


Catilina, diante de um cenário político que não lhe era nada favorável, juntamente com alguns poucos aliados, organizou literalmente um golpe, uma sublevação para que tomasse o poder de forma absoluta.


E o movimento anti-republicano consistia na tomada de várias ações extremas, como o assassinato dos dois cônsules-administradores e a intervenção forçada no Senado.


Simplificando: seria a total e não menos imoral violação à lei, aos costumes e às tradições de Roma, norteada pela edificação de interesses particulares acima dos interesses públicos.

Entretanto, os senadores acabaram por desnudar os planos absurdos de Catilina. 


Foi então que Cícero, um dos mais brilhantes oradores da humanidade,  que havia sido designado como um dos cônsules precisamente 63 a.C., assumiu o encargo de denunciar e desmoralizar Catilina perante o senado e a sociedade, fazendo-o por meio de discursos que ficaram conhecidos como catilinárias. São verdadeiras obras-primas da história da política pela elegância, pelo estilo, pela precisão e, ao mesmo tempo, pela firmeza de seus argumentos, que culminaram com a condenação de Catilina à morte. 


Foi a inteligência, a legalidade e o respeito às instituições superando a violência, a ditadura e a brutalidade. 


“Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? 

Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós? 

A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?

Nem a guarda do Palatino, 

nem a ronda noturna da cidade, nem o temor do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, 

nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?

Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?

Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? 

Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste? 

Oh tempos, oh costumes!”

(Marcus Tulius Cicerus)