CAFÉ DESOCUPADO NA SÃO JOÃO

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

Ouse Pensar

Hoje eu não tomarei o meu café com adoçante. Vai ser com açúcar mesmo e dane-se o resto do mundo. Sei que mereço bem mais do que isso. Aliás, já me condenei ontem à noite. Macarrão, sanduíche de fim de balada, cerveja artesanal de São José do Rio Preto. Tudo em alegre demasia. Coisas da Capital Paulista.


A São João, extensa avenida de São Paulo e em parte fechada para automóveis na data de hoje guarda toda a essência da Capital, abrangendo construções antigas e modernas, lojas, restaurantes, bares, ambulantes e cambistas.


Guarda também um charme - já meio piegas, desgastado - por ter sido mencionado na musiquinha do Caetano (talvez todas as coisas mencionadas nas musiquinhas do Caetano já se tornam meio piegas e desgastadas automaticamente).


Hoje é daqui que eu contemplo a vida e as suas tantas idiossincrasias. Hoje é daqui que uma das maiores capitais do mundo está sob o domínio de meus olhos atentos, curiosos desde a mais tenra infância, tal como alardeava a minha mãe, quando enaltecia a inteligência que, na mente dela, eu tinha de sobra - só que eu jamais a tive. Mãe é assim mesmo. Supervaloriza a gente, nos exibe aos parentes e vizinhos.


Escolho uma mesa pequena, de esquina. Solicito o meu desjejum a um garçom já idoso, formal e mantenedor de um distanciamento inato. Ele usa Acqua Velva. Não sabia que ainda existia Acqua Velva.


Algo insinua a mim que ele é triste. Algo também diz a mim que ele nem sempre trabalhou como atendente em cafeteira. Me parece que foi metalúrgico, mas não um militante sindical ativo. Transitou por empregos diversos, com certeza absoluta, ante as inúmeras rocambolescas crises econômicas dos últimos 40 ou 50 anos, tantos anos tão difíceis, que comprometeram a economia do país e que fizeram com que até hoje ele labutasse, já cansado, com artrose e insuportável hérnia de disco, ajudando as gerações mais novas da família. Suas mãos não tremem. Mas estão cansadas. Isso é fato incontroverso.


Inicio desde logo o meu “diagnóstico”. Será que os transeuntes desconfiam que estão sendo minuciosamente observados por um cara ocioso, um alienígena naquela cidade onde todo mundo desconhece a palavra “ocioso”?


Será que hoje eu sou o próprio Deus que, em recesso, tira merecidas férias a fim de admirar as suas criações e criaturas? Então Eu vos abençoo a todos, paulistanos e não-paulistanos!!! Divertida presunção a minha. E o Meu café, já que hoje Eu sou Deus, é com bastante açúcar.


Noto que os jovens, com mochilas e livros enormes, andam apressados. Todo jovem anda meio apressado, tem que descobrir e enfrentar o mundo. Eu não sei dizer se, tal como em minha já longínqua juventude, esses vários meninos e meninas idolatram livrarias charmosas e abundantes, transformando-as em pontos de encontro da rapaziada, e que nos ensinam tanta coisa - em especial os hábitos mais perdulários de quem ama a leitura, o folhear de cada página suprida, o odor impresso nas palavras, tantos verbos, advérbios e adjetivos em deliciosa harmonia. Tudo é bobagem minha: livraria não é mais um ponto de encontro. Facebook é um ponto de encontro. E o tinder é um ponto de encontro. E o meu café é com açúcar.


Muitas senhoras também vejo caminhando. Sobriamente vestidas, muitos adereços. Seguem o padrão calça-suéter-sobretudo-botas-cachecol, anunciando o inverno paulista desse ano. Vejo que as maquiagens são pesadas (ao menos para o meu singelo gosto, mais discreto desde sempre) e que os perfumes (sim, leitores, eu os sinto bem de longe) possuem fragrâncias bem fortes, mais tradicionais, conservadoras e adocicadas. Perfumes de avós e de tiazinhas bem idosas, com laquê e tudo. Aliás, por oportuno, o meu café é com açúcar.


E os homens, em sua imensa maioria, usam paletós até razoáveis, bem cortados - mas nem sempre com gravatas. Sinto que padecem da mais genuína preocupação com os negócios, os empregos, a vertiginosa queda no padrão de vida, os impostos aviltantes, as lojas fechando, o governo incerto. Mas não perdem a elegância apesar de tudo.


Os cambistas e os ambulantes são inesgotáveis em um fôlego que me surpreende. Oferecem ouro, troca de moeda, brinquedos orientais estridentes, passeios guiados por lugares que não necessitam que sejam guiados (talvez a minha cara seja a de um estrangeiro, só que estrangeiro do norte de Minas, que adora um pequi cozido). Devem trabalhar por comissão, presumo. São perseverantes. Invasivos. Eu os admiro. Mas não quero usufruir de seus pacotes. Café com açúcar, por gentileza.


Noto alguns turistas. Os turistas são todos idênticos. Caminham sem pressa. Compram coisas que ninguém mais compra, especialmente se forem japoneses. Eu até entendo, os caras estão bem de vida, cheios de dólar americano para torrar, adquirindo blusas do Neymar fabricadas na China enquanto supostamente apreciam vinhos argentinos de reputações um tanto quanto duvidosas (eis a globalização em sentido mais amplo!!!). Possuem notória admiração pelo que vêem, mas a disfarçam com um certo ar blasé. Ainda assim não deixam de fotografar até cachorro moribundo. Os que são acostumados com o frio vestem-se de camiseta mesmo. Já aqueles que desembarcam em Guarulhos, provenientes de lugares quentes, mal habituados às temperaturas baixas, exageram nos casados e transpiram...mas transpiram muito, e irritam os pescoços, as virilhas e as axilas. E não sabem que São Paulo, muitas vezes, “brinda-nos” com as quatro estações do ano em um só dia. Lá em Curitiba eu também vi isso.


Vamos inventariar agora o pessoal que está sentado às mesas próximas: um casal que não se olha e que fica aos seus respectivos telefones - e que deve ter marcado encontro na (inútil) tentativa de salvar o casamento “insalvável”. Um rapaz que, ao que tudo indica, trabalha em seu notebook, concentrado. Um homem que bebe cerveja Brahma, long neck, também contemplando (ou talvez lamentando) o mundo. Penso que beber sozinho é coisa muito horrível, péssimo presságio de final de vida melancólico e bolorento. Duas mulheres se vangloriando das comprinhas de fizeram, abrindo pacotes e sacolas e revendo aquilo que já viram por horas inteiras lá na loja, e que verão novamente em suas residências mais tarde.


Bem ao fundo eu escuto um samba melancólico, no estilo do Cauby, do Miltinho.


Samba melancólico é bonito. Samba melancólico eu acho ultra sexualizado. Confesso até que me excita. Mas eu gosto é de ouvir o samba, e não de dança-lo. Timidez extrema. Amo os sons do Donga. E do Zé Keti. E do Noel. E do Pixinguinha. E do Lamartine. E do Cartola. Lindos e sofisticados. Lembram-me, às vezes, o mais genuíno foxtrote norte-americano. Só que eu não danço. Não insistam.


Pode ser que todos nós sejamos solitários. Sejamos meros frutos de sociedade atormentada pela superficialidade e por “valores” que nem deveriam ser considerados como valores; que sejamos peças em um tabuleiro operado por um sádico; ou ainda que sejamos simultaneamente o pão e o circo, idênticos àqueles dos quais se valiam os velhos sabidos da antiga Roma.


Isso tudo é bobagem minha. Devaneio em estado bruto. Ares paulistanos e desocupados. Quero é ver o povo quieto no meu canto, e tomar o meu café já indecentemente açucarado.

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