CANDELÁRIA, RAZÕES DE AMAR E DE VIVER

Por ALFREDO BESSOW



Quando me perguntam de onde sou, sempre digo que sou de Candelária – para logo em seguida complementar: na verdade, sou da Linha Palmeira. E esse pequeno detalhe é de fundamental importância para mim, porque me serve sempre de referência afetiva, emocional, familiar, educacional... enfim, o conjunto lúdico de emoções, memórias e sentimentos que vamos colhendo pela vida e que os anos vão filtrando para que apenas o mais relevante permaneça.


E nada, mas nada mesmo, é mais relevante do que aquilo que vivi nos anos na Linha Palmeira, em Candelária e andando por todos os cantos e recantos de um município, uma terra ou como gostam de dizer: um terroir, que evoca em meu coração a lembrança de nomes, de lugares, de pessoas, de olhares, de sotaques, de paixões e de saudades.


Que o mundo pare, porque hoje nada é mais importante para mim do que repassar tudo que fui, tudo que vivi – para ser o que sou hoje, com meus defeitos, com meus erros, com meus equívocos, com meus vacilos – mas principalmente aquilo que é minha marca emocional mais firme, algo que não pode ser visto por quem me vê, mas pode ser entendido e sentido por quem, por exemplo, ler este texto e sentir-se nele, como parte de uma viagem. Lá estão tantas coisas – e olha que nas andanças desta vida eu perdi partes que me dói só a lembrança de as ter tido e não ter mais...


Mas está comigo a lamparina de queresone que iluminava nossa casa na Linha Palmeira. A chave do parafuso do eixo para as rodas da carroça. O balancim de um arado. A espora que era do meu saudoso pai – a outra, está com meu irmão em Candelária. Lembro com saudade das cucas da Dona Wony, com um sabor como nunca mais encontrei – e olha que gosto de doces.


Mas não para por aí...


Acredite... tem um facão diferente que meu pai mandou fazer na ferraria do Aggens a partir da lâmina do arado. Chuliando aqui do escritório, vejo uma foice de cortar arroz e claro me vem a lembrança os tempos de colheita, a arte de fazer meda e neste momento minha alma vai com saudade até os braços do tio Índio e da tia Fia, os quais sempre visito em respeito quando vou ver a campa de meus pais no cemitério de Candelária. Há uma ferradura que era da Cigana, a potranca mais linda que já conheci arisca e que foi domada por meu pai.


No entanto, Candelária também me dá certos desentendimentos com a vida. Confesso para você que eu não entendo o que se passa com a minha terra, porque há coisas que eu definitivamente não sei e não consigo entender. Talvez vocês não saibam... Mas fosse outra cidade e lhes digo: seria um dos principais polos de turismo do Brasil. Poucas cidades podem ostentar tantos e especiais aspectos como Deus e o tempo reuniram em Candelária.


Vou falar só de alguns, para não ficar me exibindo demais...


Está em Candelária o pico isolado mais alto do estado, o majestoso Botucaraí de tantas histórias e lendas, de romarias e do desafio tantas vezes vencido de subir até o topo e ver que as lendas do bezerro de ouro precisam ser preservadas em sua magia...


Candelária tem a Ponte do Império e por nossa cidade passou a primeira estrada do Rio Grande, da mesma forma que teve uma redução jesuítica. O que dizer então dos dinossauros, descobertos pelas bandas da Rebentona ou do Pinheiro e que ainda hoje não mereceram um museu efetivo, amplo, climatizado e cuja implantação está nas mãos do meu amigo Carlos Rodrigues, escoteiro igual a mim.


Mas cadê apoio?


Para quem não sabe, há em Candelária um aqueoduto maravilhoso do Séc. XIX e por falar em água, se as pessoas ficam maravilhadas e fascinadas com O caracol em Canela ou Itiquira aqui em Formosa, imaginem se conhecessem a cascata do Roncador.


Claro que eu não parei de falar, porque são tantas belezas abandonadas e volto ao Passa Sete para falar da estrada encravada na rocha – caminho de tropas nos tempos ancestrais de nossa história. Nunca ninguém fez um levantamento sobre quantas grutas existem em Candelária, mas eu visitei mais de 10 e as maiores nem tive tempo ainda de conhecer...

Há a lembrança da sonoridade das localidades por onde eu andei a pé, de bicicleta, de carroça, de jeep, de cavalo ou de canoa, descendo o Rio Pardo quando este tinha água e nós todos tínhamos mais sonhos...


Lembro os nomes da Linha Alta e claro meus olhos evocam meus avós maternos, a Linha do Rio, a Linha Anton, o Quilombo, Linha Brasil, Vila Botucaraí, Pinheiro, Rebentona, Linha Facão, Costa do Rio, Travessão Schoenfeld, a praia que já teve areia e água e hoje só tem pedra. E há outros rios e arroios que correm em minha memória, como o Botucaraí que era imenso na minha memória e apenas um filete de água que ainda resta... Tem os bailes pelas bailantas e salões, os campos de futebol do Olarias, do Tabacos, do Minuano, do Juventude, do Ouro Verde, do Canarinhos e outros tantos por onde corri atrás da bola...


Neste sete de julho, claro que tenho que evocar minha cidade, meu mundo primitivo, meu refúgio emocional, meu recanto onde sempre busco forças para não sucumbir quando penso que meu mundo pode ruir por culpa ou erro meu.


A prosa vai longa e se pudesse, ficaria aqui por muito tempo falando de cosias que só existem em Candelária – com suas ruas em paralelepípedo. Mas hoje, além dos 95 anos de emancipação política – mas uma povoação que remonta sua origem a 1633 quando foi implantada uma redução jesuítica na Linha Curitiba. E como esquecer o Clube Rio Brando completa 155 anos na mesma data – e lembro dos tempos nos quais só se podia entrar nos bailes usando fatiota...


Na medida em que trato de segurar as lágrimas, quero fazer um agradecimento especial a todas as pessoas que participaram e participam desta minha jornada e de olhos fechados me sinto orando na minha Igreja Luterana – aquela que é a mais linda das Igrejas Luteranas no mundo...


Eu não sei se vou poder voltar para Candelária depois de morto, porque há uma nova vida construída aqui no DF. Assim, na dúvida, tenho uma caixa de madeira com terra lá da Linha Palmeira e sei que este bucado de terra irá junto comigo para a última morada – quem sabe eu tenha como levá-lo em mãos e entregar aos meus pais, com os quais pretendo me encontrar na vida eterna e assim seguir com a alma e o coração eternamente ligados ao local de onde vim...


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