Carla Perez e Jair Bolsonaro

Atualizado: Fev 17

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


Algumas pessoas estranharam o sucesso arrebatador que a dançarina Carla Perez conquistou na primeira metade da década de 90 do século passado, quando iniciou participação em um famoso grupo de música baiana.


​​Carla Aparecida Perez Soares (Salvador/BA, 16 de novembro de 1977), desde o início, era diferente. Oriunda de uma família humilde. Tinha os cabelos entre o crespo e o cacheado (pintados, mas com as raízes escuras), 102 centímetros de quadril, pele levemente manchada, nariz avantajado. Muito espontânea, falava francamente o que pensava. Cometia erros de português, que viraram chacota no país inteiro.


​​Entretanto, todos a amaram de imediato. Carla fugia do padrão estético que nos era impelido pela Europa e os Estados Unidos, empurrado goela abaixo em forma de virgens pálidas, “cloróticas belezas de missal”, “Botticelli´s” emagrecidas, excessiva e meticulosamente maquiadas.


​​Carla era o arquétipo perfeito da mulher brasileira. Da mulher palpável, “acessível”, que a gente ve na feira, no ônibus, no churrasco da laje, na parede da borracharia. E foi a partir de Carla Perez que as “Julianas Paes” ganharam força no imaginário popular sobretudo masculino, em detrimento das “Giselles” e das “Hickmans”, beldades incontestáveis, porém mitológicas.


​​Todos nós nos vimos inseridos na imensa alegria e descontração daquela moça. E é muito bom quando nos “vemos” inseridos e ainda identificados com algo alegre e descontraído; com alguma coisa que, até por ser às vezes jocosa, às vezes desinibida e despojada, nos deixa reconfortados; é como comer feijão preto com arroz branco após uma longa e gelada temporada residindo em rua desconhecida no Brooklin, na capital do mundo moderno.


​​Acontece que também de vez em quando nos sentimos em profundo desconforto. Em profundo desconforto quando somos confrontados com caricaturas malformadas, com as quais jamais queríamos nos identificar, mas que infelizmente exsurgem como arroubo de boiada, violenta, desembestada, perigosa.


​​Em política, o que faz alguém sair de sua residência a fim de exercer o direito ao voto é a esperança. Não apenas a expectativa de dias melhores, mas a crença de que seja eleito alguém com quem o eleitor se assemelha. Mais ainda do que isso: a confiança de que o eleito “metamorfoseará” o corpo e a mente do eleitor, transformando-o à sua imagem e semelhança. E, por isso mesmo, ele jamais será igual ao “seu” político, embora estejam ligados irremediavelmente pelo voto (que, por seu turno, tem o mesmo peso na contagem e no resultado). Como disse em certa ocasião Augusto Boal, “políticos são todos os atos dos homens”.


​​De repente então o “seu” político começa a fazer algumas coisas bizarras, e o eleitor adentra em um mundo temerário e sombrio: o desconfortável universo de tecer um posicionamento, coisa que a maioria detesta, porque já prefere a vida “mastigada”. Ele tem que decidir se permanece cego e defende a bizarrice do “imaculado”, ou se admite que algumas atitudes são francamente reprováveis, desmerecedoras de aplausos ou de desagravos.


​​Hoje incomoda a grande parte da população brasileira – e isso independe de partido ou de orientação política, ideológica, filosófica ou religiosa – o Presidente da República Federativa do Brasil, senhor Jair Messias Bolsonaro agir com extrema grosseria, destempero, autoritarismo, revanchismo e truculência quase que diariamente. Com efeito, beira o insuportável a amarga sensação de que muitos de nós, ao nos olharmos no espelho, ainda agimos com a mesma extrema grosseria, destempero, autoritarismo, revanchismo e truculência – quase que diariamente.


​​Também é difícil aceitar que muitos de nós, diante da ausência de argumentos aptos a uma discussão minimamente saudável, partamos de maneira inopinada à agressão de cunho pessoal e direto – tal qual o nosso Presidente.


​​Causa constrangimento e mal-estar a vários brasileiros a constatação de que, se tivessem uma única oportunidade, também tentariam “emplacar” o filho em uma embaixada importante, sem qualquer vergonha na cara; desrespeitariam a Primeira-Dama da França por ser uma mulher de idade superior à de seu marido; demitiriam um cientista internacionalmente reconhecido que, em estrito cumprimento de suas obrigações funcionais, deu-lhes uma má-notícia sobre o desmatamento na região amazônica; aconselhariam as pessoas a “obrarem” em dias alternados. Afinal de contas, ninguém gosta de ser (ou de parecer ser) instável, inseguro, impulsivo ou ignorante.


​​Insta salientar que a rejeição ao atual Presidente da República cresceu em números severos, expressivos, muito embora Vossa Excelencia não se importe. Só que a rejeição não se revela na singela discordância sobre posições ou atitudes. Ela se revela ante o pressuposto de que muitos temos “bolsonaros” escondidos em nós mesmos, não o “bolsonaro” porventura virtuoso, mas o “bolsonaro” com o qual detestaríamos tomar cerveja em um bar da boemia carioca.



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