CIÊNCIA COMO A LUZ NO FIM DO TÚNEL

Atualizado: 13 de Abr de 2020

Por ANA LUISA MOTA



“É melhor acender uma vela que praguejar contra a escuridão.”


É com esse ditado milenar chinês que o cientista, físico, biólogo, astrônomo, astrofísico, cosmyólogo, escritor, divulgador científico e ativista norte-americano, Carl Sagan, inicia o seu livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios – A Ciência vista como uma vela no escuro”, lançado há 25 anos, mas que parece que foi escrito ontem. Mais atual impossível, pois, apesar da evolução científica no mundo, o comportamento humano continua o mesmo, criando diversos demônios diariamente.


Para quem ainda não o conhece, Sagan é autor de mais de 600 publicações científicas, e também autor de mais de 20 livros sobre ciência e ficção científica. É conhecido, também, pela premiada série televisiva de 1980, “Cosmos: Uma Viagem Pessoal”, que ele mesmo narrou e co-escreveu.


Ao longo de sua vida, recebeu vários prêmios e condecorações por ser considerado um dos divulgadores científicos mais carismáticos e influentes da história, graças a sua capacidade de transmitir as ideias científicas de forma clara para o público não especializado. Em seus últimos anos como cientista e escritor, Sagan frequentemente desenhava sobre suas memórias de infância para ilustrar questões científicas, como fez em seu livro “Sombras dos Antepassados Esquecidos”, onde ele descreve a influência dos seus pais em seu pensamento crítico:


“Meus pais não eram cientistas. Eles não sabiam quase nada sobre ciência. Mas ao me introduzirem simultaneamente ao ceticismo e ao saber, ensinaram-me os dois modos de pensamento coexistentes e essenciais para o método científico.”


Ele morreu aos 62 anos, de pneumonia, depois de uma batalha de dois anos com uma rara e grave doença na medula óssea (mielodisplasia). Sua data de nascimento, 9 de Novembro, ficou consagrada pela comunidade científica como “Carl Sagan Day”, em homenagem ao riquíssimo legado que ele deixou para a ciência.


Voltando ao seu livro em questão, “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, Carl Sagan se dedica, de forma magistral, à inglória, quase impossível, tarefa de combater a tendência das pessoas de confiar no misticismo, no sobrenatural, no invisível, e recusar evidências científicas na hora de fazer a leitura dos acontecimentos, impedindo-as de buscar a verdade, doa o que doer, e preferindo a mentira reconfortante. Durante toda sua vida, os livros de Sagan se desenvolveram sobre a sua visão cética do mundo natural. Nessa obra não foi diferente, pois ele nos apresentou ferramentas para testar argumentos e detectar falácias e fraudes, defendendo o uso extensivo do pensamento crítico e do método científico.


E por que a obra dele é ainda muito atual? Podemos dizer que, hoje, mais do que nunca, precisamos ter um pensamento crítico e cético antes de aceitarmos e acreditarmos em todas as informações que chegam até nós. Nesse mundo sem fronteiras que vivemos, devido ao crescimento das redes sociais, onde se viralizam crendices, criam pseudo-ciências, propagam fake news e teorias absurdas, como a da “terra é plana”, necessitamos com urgência de um pensamento crítico, cético e analítico. E mais ainda no Brasil, onde 64% da população brasileira não tem Letramento Científico, e apenas 5% dos brasileiros compreendem a ciência, segundo o Indicador de Letramento Científico (ILC), estudo que visa a identificar no país o alcance da aplicação científica entre jovens e adultos em seu cotidiano.


Agora você imagina o quanto a ciência se torna importante em nossas vidas nessas últimas semanas com a disseminação do Covid-19, o Coronavírus, que já atingiu, até o momento, 114 países, infectou 118 mil e matou mais de 4 mil pessoas no mundo, fazendo com que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarasse situação de pandemia. E com isso, se criou uma histeria absurda onde as pessoas, ao invés de se informarem corretamente e tomarem as devidas precauções, ficam criando e espalhando fake news e teorias absurdas em relação à doença.


É nesse momento que a vela da ciência iluminará a escuridão que estamos vivendo com o Covid-19, pois a esperança está no surgimento breve de uma vacina eficaz contra o coronavírus. Pesquisadores científicos de vários países, inclusive do Brasil, já estão dentro de seus laboratórios trabalhando para desenvolver essa vacina. Podemos dizer que estamos acompanhando, de forma positiva, uma competição científica mundial, na qual teremos como vencedor o país que entregará ao mundo a luz no fim do túnel.


"O sono da razão produz monstros" de Francisco Goya

Acredito que Carl Sagan, se estivesse vivo hoje, estaria mais do que nunca fazendo o seu melhor: divulgando a importância da ciência para o mundo e nos trazendo para a luz, nos afastando das crendices, do pânico, da histeria, do obscurantismo, dos “demônios”, e nos aproximando da razão, da esperança. Sagan é insubstituível por levar a ciência para o campo emocional, e por tê-la difundido como ferramenta essencial para a construção de uma sociedade.


“Nós gostemos ou não, estamos atados à ciência. O melhor seria lhe tirar o máximo proveito. Quando finalmente o aceitarmos e reconheçamos plenamente a sua beleza e poder, encontrar-nos-emos com que, tanto em assuntos espirituais como práticos; e sairemos ganhando.”

(Sagan, 1995)



A obra de Carl Sagan “O Mundo Assombrado por demônios”, definida por ele mesmo como “uma declaração pessoal que reflete minha relação de amor de toda a vida com a ciência”, é mais do que nunca, leitura obrigatória e essencial, para regar nesses dias de pânico, a nossa sementinha da dúvida, com muita racionalidade, conhecimento e pensamento crítico.


Obra: O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS - A CIÊNCIA VISTA COMO UMA VELA NO ESCURO

Sagan, Carl

Editora Planeta - 1995

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