COMO DEUS DISTRIBUIU A “BURRICE” NO MUNDO...

Por HAMILTON GONDIM

Coluna Mundo em Transformação

Segundo a crença popular, consta que Deus, ao expulsar Adão e Eva do Paraíso Terrestre, saiu distribuindo as catástrofes pelo mundo: Pôs vulcões aqui, terremotos, maremotos e tsunamis ali..., furacões, tufões e ciclones acolá. A distribuição aleatória dessas tragédias demostra não ser Sua intenção punir esse ou aquele povo individualmente.


Ele, também, ao distribuir a “burrice” entre os seres humanos, foi Sábio: não escolheu um local específico, uma raça em particular, ou qualquer povo predeterminado, Ele o fez de forma aleatória, caia aonde cair.


Felizmente, a distribuição do potencial de inteligência (ou de “burrice”) entre os seres humanos é feita aleatoriamente. A natureza não escolhe os ricos ou os moradores de grandes centros urbanos, ou a raça para dotar alguém de inteligência ou de “burrice”. Existem ricos “burros” e ricos inteligentes; pobres (excluídos, ou esquecidos) “burros” e inteligentes.


Esse sorteio natural, como não poderia deixar de ser, ocorre também no Norte do país. Entre as populações indígenas (ainda que esse não seja um fato que os estudos antropológicos destaquem com a frequência desejável), tive o prazer e o privilégio de conhecer muitos indígenas que possuem ou possuíam inteligência extraordinária.


Conheci muitos indígenas, entre os quais destaco: David Kopenawa Yanomami – Chefe indígena da Comunidade Yanomami; Jonas de Souza Marcolino – Tuxaua da Comunidade Indígena do Contão; Alvino Andrade da Silva (in memoriam) – Macuxi; Franscinete Raposo – da Comunidade Indígena Raposa; e Idael Lima de Souza (in memoriam), indígena da Raposa Serra do Sol. Conheci, também, muitos não índios, que passei a admirar: Paulo Sabino (in memoriam), ex-aluno da UFRR, filho de um humilde comerciante do Bairro dos Estados (Boa Vista); Clidenor Andrade Leite (in memoriam), da SEPLAN-RR; Brigadeiro Ottomar de Souza Pinto (in memoriam), ex-governador de Roraima; e a Professora Nildete Silva de Melo, ex-aluna da primeira turma (1990) da UFRR em São Luís do Anauá, Doutora em Educação, ex-Pró-Reitora da UERR e presidente do Conselho Estadual de Educação. Embora tenha conhecido, também, muitos “burros”, recuso-me a nominá-los.

Dentre as inúmeras experiências vividas quando Reitor da UFRR, um fato muito interessante ocorreu: em meu gabinete, recebi a visita do Professor de Matemática Raimundo Nonato Araújo Pedro que me relatou: “Reitor, nós temos um aluno no primeiro semestre do curso de Matemática simplesmente extraordinário... ele é melhor, sabe mais matemática, do que os nossos professores, inclusive o reitor...”

Eu, que também sou (fui) matemático, interessei-me em conversar com o estudante Paulo Sabini. Ao ficar impressionado com as habilidades do estudante, liguei para o Professor Elon Lajes Lima do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) do CNPq, no Rio de Janeiro, solicitando que recebesse nosso aluno para um curso de férias (julho) dado pelo IMPA. A UFRR deu-lhe passagem e hospedagem no Rio. Paulo foi o melhor aluno do curso.

Dado o extraordinário desempenho desse aluno, no final do ano, recebi a solicitação do IMPA para que o enviasse de novo, mas que não precisava de passagem nem diária, o CNPq financiaria tudo. A seguir, foi matriculado no curso de mestrado do IMPA, ainda no segundo ano do curso de graduação, em Boa Vista. Tal genialidade fez com que, antes de concluir o mestrado, ele passasse direto para o doutorado.

Na ocasião, a senhora sua mãe, que mora no Bairro dos Estados, em Boa Vista, procurou-me preocupada com o futuro do filho que não terminara a graduação e poderia perder tudo. Tranquilizei a mãe do aluno dizendo que não se preocupasse, que possivelmente teríamos, no futuro, um dos maiores matemáticos do Brasil. Infelizmente, poucos anos depois, ele veio a falecer de um enfarto fulminante, enquanto dava orientação a uma tese de doutorado de um aluno do IMPA. Vale ressaltar que ele chegou a orientar teses de doutorado de alguns de seus (ainda, na época) professores da graduação. Depois de algum tempo, ele concluiu o curso de graduação na UFRR.

O fato de ter concluído o doutorado antes de obter a graduação não é comum no Brasil (como sempre, um país de viés cartorialista). Contudo, isto é possível no IMPA/CNPq e em países desenvolvidos, como os Estados Unidos da América.

O exemplo do Professor Sabini serve para demonstrar que a inteligência não é um privilégio de alguma classe social ou de determinados centros urbanos. Na verdade, tenho certeza de que existem muitas inteligências humanas em potencial e que são desperdiçadas, por falta de oportunidades em locais ermos, como, por exemplo, em Agrovilas no baixo Rio Branco, ao longo do Rio Xeruiní ou do Rio Jauaperi, (todos do Estado de Roraima) ou outros.

O exemplo mais notável de que a inteligência não é privilégio de classe alguma é o ex-reitor da UFRR (do quadriênio 2016-2020), Jefferson Fernandes do Nascimento – professor doutor do curso de Agronomia que está na UFRR há 25 anos. O reitor Jefferson é descendente de indígenas, da etnia Macuxi, e é o primeiro roraimense eleito para esse cargo.

Somente com uma educação básica de qualidade, que obedeça ao imperativo cívico e se entranhe nas raízes mais profundas das necessidades sociais e populares, indo ao encontro das populações interioranas e indígenas, é que se pode fazer descobertas como Paulo Sabini, Nildete Silva de Melo, Jonas de Souza Marcolino, Franscinete Raposo e muitos outros.


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