*Coringa* - um retrato de como a falência política e social empodera os insanos.

Atualizado: Fev 17

Por LUCIANE MESQUITA


Peço licença para falar da sétima arte. Sou fã.


Nesta época do ano começam a chegar aos cinemas filmes mais densos, com personagens que exigem muito dos atores, forçando-os a dar o melhor de si. É uma época em que estreiam filmes que são fortes candidatos aos principais prêmios destinados às diversas categorias de criação e execução. É o caso de "Coringa", que estreou agora em outubro e que está arrastando muita gente para os cinemas.


O filme conta a origem do personagem sombrio e vilão, inimigo do super herói Batman, e mostra como ocorreu a sua entrada para o mundo do crime.


Ao assistir o trailer já se percebe a densidade, qualidade técnica e o envolvimento do ator Joaquin Phoenix com o personagem principal.


Mesmo antes de ser lançado, o filme foi bastante elogiado por uma parte da crítica e abocanhou o prêmio Leão de Ouro na mais recente edição do Festival de Cinema de Veneza.

Entretanto, Coringa causou polêmica e recebeu críticas nos EUA por supostamente estimular e validar a violência cometida por jovens.


O filme é violento. De fato. Mas é de se estranhar a condenação a este longa especificamente, pois a indústria americana, que produz em torno de 600 filmes por ano, tem inúmeros sucessos de bilheteria muito mais violentos que Coringa.


Dito isto, a violência de Coringa realmente existe, mas muito mais do que no sangue derramado, está em outro ponto, que me pareceu incrivelmente mais evidente. A violência de Coringa surge por dois fatores principais. O primeiro está no fato de que o personagem é um psicopata, precisa de remédios e tratamento constante e vive à beira de perder o controle emocional. O segundo fator é o descaso brutal da sociedade e das políticas públicas. É aí que Coringa incomoda... e incomoda muito. Incomoda a todos.


Coringa desnuda uma sociedade apodrecida. Mostra o resultado inevitável do abandono das políticas públicas essenciais em uma nação, mostra como a sociedade se deteriora e a partir daí não poupa ricos, pobres, empresários, pais, cidadãos de todos os tipos, idades e classes sociais que embarcam no "salve-se quem puder", na corrupção, nos valores adormecidos, no mau-caratismo justificado pelo mundo selvagem em que vivem.


É impossível não ver o que está na cara. O filme é um soco no estômago de nós todos. E logo começamos a fazer os paralelos históricos.


Eu, por exemplo, acabo de ler uma Bibliografia de Stálin e vi ali, como vejo aqui no Brasil, o paralelo perfeito. Um povo maltratado, um povo acuado, que ao ser espezinhado até não poder mais, reage... mas reage com ira, reage com ódio e aí, é a vez dos loucos... sim os insanos ganham voz, e tudo o que nos parece é que eles serão os nossos salvadores... surgem como heróis e nos cegam facilmente com sua perspicácia.


Erguemos ao pódio esse tipo que fala a nossa língua de desespero. Então fica a questão: aonde está a verdadeira violência do filme? Não há possibilidade de sairmos do filme sem iniciarmos inúmeros debates em nossas cabeças. Só por isso o filme já vale.


Coringa é um filme fantástico e poderia, sem sombra de dúvidas, se chamar Stálin, Hitler, ou ter muitos nomes brasileiros...