DIÁRIO DE UMA CRIANÇA NO MEIO DO FOGO CRUZADO

Por RENATA MALTA VILAS-BÔAS


Olá, eu me chamo Ana Carolina, mas todo mundo me chama de Carol. Tenho dez anos.


Estou aqui escrevendo porque a minha psicóloga me deu você de presente e disse que era para eu escrever todo dia.


Minha mãe me levou na psicóloga que chama Tamires para poder conversar com ela porque estamos vivendo um momento conturbado. Mas, até agora não sei o que é um momento conturbado. Só sei que tenho que ir nela e ficar uma hora conversando, jogando, com a Tamires. Aí ela me deu você - Diário. Tem até uma chavinha...


Ela falou para escrever sobre o que eu estou sentindo... Mas, não sei bem o que estou sentindo...


Aqui em casa está uma confusão. Papai saiu de casa e levou uma mala bem grandona com todas as suas roupas. Nesse dia a mamãe gritou com ele, dizendo que nunca mais ele iria me ver ... Fiquei com medo ...


Logo depois, papai voltou e me deu um celular, e disse que era para ligar para ele sempre que eu quisesse. Quando a minha mãe viu o presente do meu pai, ligou para ele dizendo que ia devolver o celular e que eu não tinha idade de ter um celular e que se ele quisesse falar comigo, seria apenas quando ela deixasse.


Com isso pensei: agora não devo mais mostrar para a minha mãe os presentes que meu pai me der. Ela fica brava com ele e eu sem presente...


Não sei bem o que aconteceu, mas eles estão se separando. Depois de muitas brigas, gritarias, resolveram separar. Ninguém me pergunto o que eu achava disso, nem com que eu ia ficar, nem como seriam os finais de semana. Simplesmente, meu pai foi embora e a minha mãe disse que ele nunca mais ia voltar.


No final de semana passada, fui ficar com o meu pai. É esquisito. Ele está morando num hotel e disse que é provisório, enquanto não vender o nosso apartamento. Entrei em pânico, se vender o apartamento como é que vou brincar com as minhas amigas ?!?!


No prédio onde moro tenho três grandes amigas, ficávamos todo o final de semana juntas. Agora com isso, não estamos mais ficando juntas como ficávamos. E com isso elas não estão mais tão perto de mim. Sinto falta delas...


Comecei a perceber que não podia falar para a minha mãe que tinha sido legal ficar com o meu pai. Pois quando falei, ela primeiro ficou brava comigo e depois ficou triste, dizendo que fazia tudo por mim e que eu não valorizava, e que quando ela morresse eu ai entender...


Como eu não queria que ela morresse, parei de contar as coisas...


Por outro lado, meu pai queria saber de tudo que estava acontecendo lá em casa... perguntava quem tinha ido visitar, quanto tempo que ficou, se tinha almoçado lá em casa. E eu não entendia pra que tantas perguntas, mas percebi, que quando eu falava que mamãe estava feliz, ele ficava com raiva e dizia que ela não estava cuidando de mim e só prestava atenção nos outros. Parei de contar as coisas que acontecia lá em casa.


Vi também que quando eu não ia bem na escola, o meu pai falava que a culpa era da minha mãe, que deixava eu brincar demais, mas ele não percebia que quando ele ligava era o horário que eu estava fazendo a tarefa e ele atrapalhava. Se eu explicava isso, ele dizia que era a mamãe que tinha mandado falar. E, mais uma vez, parei de contar as coisas que acontecia lá em casa ...


Eu ia para a casa do meu pai, não podia ficar com as minhas amigas, mas ele ficava no celular, ou me levava para conversar com os amigos dele. Eu não quero os amigos dele... quero as minhas amigas ... mas isso eu já não tinha mais...Ele falava que eu tinha que ir com ele porque o juiz mandou, mas ele não ficava comigo. Eu acabava ficando sozinha no celular ou vendo tv.


Passado um tempo, pensei que as coisas iam melhorar, mas não, só piorava, o dinheiro começou a faltar, minha mãe falava que era porque o meu pai não pagava a pensão, e ele falava que a minha mãe é que gastava todo o dinheiro que ele tinha mandado para mim.


Um dia minha mãe avisou que ia conversar com o juiz e que ele é que ia decidir o nosso futuro. Fiquei preocupada, quem é aquela pessoa que ia dizer como seria o nosso futuro ?!? Fiquei com medo, ansiosa, fiquei nervosa ... e só aí que minha mãe resolveu me levar no consultório da tia Tamires, e foi quando ela deu você Diário de presente.


Não sei como será a minha vida, mas percebi que nem meu pai e nem minha mãe pensam em mim e que eu estou no que a tia Tamires chamou de fogo cruzado. O que será fogo cruzado ? Será que vai acabar ?


Ih Diário, vou dormir, a minha mãe já está brigando com o meu pai pelo telefone, eu não quero mais ouvir ...

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