DOIS DE FEVEREIRO

Por BENTO CRUZ

Coluna Histórias de um Velho Marinheiro

Dois de fevereiro é marcado como o dia de Iemanjá, a rainha do mar! Eu nasci neste dia, no início do século passado, mas fui registrado no dia primeiro. Na época era comum registrar os filhos anos depois deles terem nascidos.


Na minha família não foi diferente, eu e meu irmão, Francisco, que é mais velho do que eu três anos, fomos registrados no mesmo dia. A mudança na data do meu nascimento ocorreu em razão de uma conversa da minha mãe, Ana Viterbina, com um colaborador do cartório. O diálogo foi mais ou menos assim:


Colaborador: Qual foi o dia que seu filho Bento nasceu?

Ana: 2 de fevereiro

Colaborador: então ele é filho de Iemanjá, a Rainha do Mar!

Ana: De quem? Moço, então dá para trocar o dia?

Colaborador: Posso colocar dia primeiro então?

Ana: Pode!


E assim ficou o meu registro, dia 1 de fevereiro, minha mãe não conhecia a história de Iemanjá, mas na dúvida, mudou o dia, porém, coincidência ou não, fui trabalhar com algo relacionado a água – tornei-me marinheiro, remador do flamengo e gostava de nadar em mar aberto. Participava de algumas provas no Rio de Janeiro, feito este repetido pelo meu neto Jônatas Cruz, anos depois. Aliás ele é um grande nadador!


Apesar de toda experiência no mar, na praia de Jaconé, onde ocorrem diversos eventos de surf, vi a morte de perto, quando entrei no mar de ressaca. Na época eu acreditava que conseguiria enfrentá-lo.


Quando percebi que tinha ido longe demais e que as ondas estavam muito rápidas e violentas, tive que manter a calma, pois na hora do sufoco é o autodomínio que ajuda a raciocinar. Eu sabia que se deixasse a emoção tomar conta, o medo, a afobação e o desespero acabariam fazendo com que eu fosse engolido pelo mar.


Felizmente consegui “negociar com as ondas” e encontrar um espaço para o retorno à praia. Se Iemanjá deu seu jeitinho, eu não sei, mas agradeço a Deus por ter me mantido vivo.


Resultado da minha aventura: minha esposa resolveu vender a nossa casa de praia. Depois do meu sufoco e tendo três filhos, não tive argumentos. Vendemos nossa casa e nunca mais voltamos à praia de Jaconé, mas continuo gostando de estar de alguma forma conectado com a água.


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