DR. NOBRE

Por BENTO CRUZ


Dr Nobre, este é o nome do homem que mudou a minha vida...


Eu estava atrasado para pegar o trem na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Eu morava em Mem de Sá mas tinha aula particular de português e matemática com o excelente professor Luciano em Cascadura. Na época isso significava pegar um bonde e depois um trem, mas valia a pena, pois eu estava focado em conseguir a aprovação no concurso interno da Marinha.


Corri para pegar literalmente o bonde andando, mas infelizmente na hora de segurar no balaústre, ele rodou e eu caí. Senti uma enorme pancada. Era a roda do bonde batendo no meu pé. Quando olhei, vi que o meu calcanhar tinha praticamente deixado de existir, estava puro osso.


Quando a ambulância chegou, ela me levou para o hospital do estado, lá recebi a notícia que os médicos queriam amputar a minha perna. Foi um choque! Eu tinha sido remador do Flamengo e era um lutador, parceiro de treino (sparing) de Carlson Gracie, na academia Gracie de jiu jitsu! Como assim, amputar minha perna?


Antes de autorizar a amputação, pedi para ser transferido para o hospital da Marinha. Quando a ambulância de lá chegou, senti um alívio, mas claro, ainda com muito receio do que poderia estar por vir.


Fiquei internado por vários dias. Em uma das visitas dos médicos, um deles, o Dr. Nobre mandou que eu levantasse e desse uma caminhada. Quando as veias apareceram e voltaram a circular, ele, conversando com outro médico, disse: ele ficará bom! Tá vendo se eu tivesse amputado a perna dele?


Aquele capitão tinha salvado a minha perna! Enquanto os outros tinham desistido de tentar e queriam ir direto para a saída mais comum, ele ousou pensar e agir de forma diferente, receitou penicilina a cada três horas.


A atitude do ortopedista, digna de seu nome, fez eu ter a chance de poder batalhar novamente pelos meus sonhos, pois mesmo internado eu continuava estudando para o concurso interno da marinha. O meu medo era eu não estar recuperado até o dia da prova.


Porém tive a grata notícia de saber que a prova que seria em outubro ou novembro foi transferida para janeiro. Com isso eu teria condições de estar recuperado.


Tive novamente a chance de batalhar pelos meus objetivos e não a desperdicei! Consegui ser aprovado.


Até hoje, lembro daquele diálogo entre os médicos.


Sou grato ao Dr. Nobre, por ter sido um profissional diferenciado, que permitiu ouvir críticas, palavras de desânimo, conselhos para desistir, mas que, para o meu bem, se fez de surdo e continuou a persistir no que acreditava.