...E A POESIA INVENTOU A HUMANIDADE

Atualizado: Mar 3

Por ANDRE R. COSTA OIIVEIRA

Coluna Sapere Aude

Sim, meus leitores: não foi a Humanidade quem inventou a Poesia, num arroubo de extrema criatividade. A Poesia, em verdade, foi quem inventou a própria Humanidade.


Como definimos a “humanidade”?


Ao abstrairmos os conceitos meramente antropológicos e científicos/biológicos do termo, a Humanidade pode ser definida como aquilo tudo que nos faz – tanto quanto a capacidade de adaptação ao meio e a transmissão do conhecimento aos semelhantes e aos descendentes – sentir amor, compaixão, indulgência, benevolência, clemência, fraternidade, respeito e necessidade de buscar Justiça, com imprescindíveis ética e bom senso.


Kant (1724-1804) já relacionava o conceito de Humanidade não apenas à natureza humana propriamente dita, mas à racionalidade humana, no que foi diretamente confrontado na obra de Schopenhauer (1788-1860) que, em sua instigante opinião, seres racionais e simultaneamente “não-humanos” são imaginários. Só que isso é uma discussão para outro dia.


Ainda que divergentes - e em determinado ponto crucial - ambos os filósofos concordavam harmoniosamente: “Menschheit” equivale à essência de nossa natureza, à solicitude pelo nosso semelhante, a Paideia dos gregos em conceito mais contemporâneo, como formação e aperfeiçoamento dos seres humanos por toda uma vida, a fim de fomentar uma sociedade de homens decentes.


É partindo desse ponto que agora falaremos sobre a poesia.


Posso definir “poesia” como a composição por meio de versos, rimados ou não, com estruturas peculiares. Ou dizer que “poesia” se restringe a uma literatura que obedece a determinadas regras rítmicas. Ou ainda dissertar sobre os dísticos, sonetos, odes, líricos, épicos e dramas que existem por aí perambulando pelos conteúdos programáticos de colégios para adolescentes.


Só que a poesia não é bem isso. Isso aliás, é apenas e tão-somente o envelope bolorento no qual estão guardados os mais lindos sentimentos. Porque a poesia é forma mais sensacional de enxergar o mundo em que vivemos.


Mais antiga do que a própria escrita, expressa a paixão, a fé, a alegria e a dor, tanto as de quem compõe a poesia quanto as de quem tem o privilégio de desfrutar da poesia. Subverte a linguagem comum. Transcende aquilo que é palpável, ordinário. Alimenta o que não se alimenta pelas nossas bocas.


A palavra “poesia” tem origem grega, que sugere verbos tais como “criar” e “fazer”. O próprio Aristóteles chegou a elencar as atividades dos seres humanos entre Teoria (busca constante pelo conhecimento verdadeiro), Práxis (ações com o escopo de resolução de problemas) e Poiésis (o estímulo de nossos espíritos para a invenção partindo-se de imaginação e sentimentos).


Fica claro então que, na visão de Aristóteles, a poesia nos leva à máxima plenitude da alma humana, inspirada e comovente. Aristóteles estava absolutamente certo.


E o que seria a “humanidade” sem a nossa competência para perceber a vida com os olhos marejados, com a emoção sublime da mesclagem dos milhões de sentimentos que nos movem e que nos colocam no topo do planeta? E o que seria da humanidade se não possuíssemos o privilégio (muitas vezes dolorido, embora arrebatador e pedagógico) de nos apaixonarmos e de que tamanha força e energia fosse por nós mesmos modelada na poesia?

A poesia é a arte que se encontra na essência de todas as chamadas Sete Grandes Artes. Afinal, existe poesia na Arquitetura de Le Corbusier e de Oscar Niemeyer; existe poesia na Escultura de Michelangelo e de Camille; existe poesia na Pintura de Da Vinci e de Picasso; existe poesia na Música de Mozart e de Chiquita; existe poesia na Literatura de Milton e de Machado; existe poesia na Dança de Nureyev e de Michael Jackson; existe poesia no Cinema de Fellini e de Tarantino.


Todavia, lamentavelmente - como não bastasse isso tudo - há ainda quem me diga que “poesia não serve para nada”. E que “poesia é bobagem”. E que “poesia é frescura”.

Antes de continuarmos, recadinho do Paulo Leminsky (1944-1989):


“As pessoas sem imaginação estão sempre querendo que a arte sirva para alguma coisa. Servir. Prestar. O serviço militar. Dar lucro. Não enxergam que a arte é a única chance que o homem tem de vivenciar a experiência de um mundo da liberdade, além da necessidade. As utopias, afinal de contas, são, sobretudo, obras de arte. E obras de arte são rebeldias. A rebeldia é um bem absoluto. Sua manifestação na linguagem chamamos poesia, inestimável inutensílio.”


Pois bem: como eu já lhes disse logo no início: a Poesia inventou a Humanidade. Poesia é eterna. Poesia é vida. Simples assim.


Sabe-se que a poesia existe há mais de 7.000 anos, seja como arte, seja como forma de interação cultural ou transmissão de tradições entre os povos.


Não há como discutir cultura grega sem a poesia de Homero, enaltecendo os feitos de Ulisses na Ilíada e na Odisseia. Não podemos sequer estudar a filosofia oriental de Confúcio, Sun-Tsu ou Lao-Tse sem nos deslumbrarmos com a caligrafia chinesa (que começou há cerca de 6.000 “poucos” anos!!!), verdadeiro espetáculo visual e linguístico. Não nos olvidemos do Ramayana, imprescindível obra literária da Índia antiga, em sânscrito, com fortíssimo impacto na cultura asiática com seus 24.000 versos e seus 7 cantos. Não façamos pouco caso de La Chanson de Roland, poema épico composto no século XI em francês antigo, tendo grande influência na Idade Média quando narra a campanha militar de Carlos Magno, Rei dos Francos, no século VIII (d.C) contra os sarracenos. Não desmereçamos Das Nibelungenlied, outro poema épico germânico escrito por volta do ano 1.200 d.C., abrangendo lendas e antigas tradições orais pré-cristãs e que ainda perduram, influenciando até mesmo correntes filosóficas modernas. Não há como não compreender a Península Ibérica desconsiderando El Cantar del Mio Cid, poema espanhol passado de geração a geração, cantado por menestréis durante séculos inteiros e que conta a história de Rodrigo Díaz de Vivar (1043-1099), nobre guerreiro castelhano e oficialmente transcrito no século XIV. E, por fim, não existe entendimento sobre as maravilhosas sagas portuguesas sem Camões e a melancolia de Pessoa.


Se não for pela importância histórica, pelo menos pela idade avançada a poesia já merece um maior respeito.


Posto isso, eu afirmo que aqueles que não se emocionam com poesia, muito provavelmente não se emocionam com absolutamente nada. Nem mesmo com aromas e sabores da cozinha, que também são poesia (vide a deliciosa música de Dorival Caymmi, por exemplo, que nos excita, instiga os sentidos e nos faz voar para longe). Nem na Teoria da Evolução de Darwin. Nem na física de Newton. Nem no Cântico dos Cânticos, do Antigo Testamento.


Outra hipótese que eventualmente pode vir a justificar tamanho descaso pela poesia é a moda do que chamo de “novo parnasianismo”.


Como é sabido, Parnasianismo consiste em movimento literário típico da segunda metade do século XIX e fortemente influenciado pela cultura greco-latina. Desprezando o Romantismo, exalta o conceito de “arte pela arte”, com extremo rigorismo estético e preocupação com a técnica.


A intensa e excessiva preocupação de muitos autores contemporâneos com aspectos formais - e apenas formais - exclui da poesia a sua melhor essência e o espírito mais nobre. Nesse caso, o leitor não abandona a poesia; a poesia abandona o leitor, enquanto peça meramente estética e desapaixonada.


E é graças a essas pessoas (maus leitores e maus poetas) que a história da poesia talvez seja uma história trágica.


Verdadeiros autores iluminados, em todos os tempos – com raros casos excepcionais – e, muito embora, autênticos e criativos pereceram sem o necessário reconhecimento, enquanto os louros foram repartidos aos indignos.


E o tempo passa, e a gente forma gerações com espantosa incapacidade de discernimento de expressão de sentimentos; frias, imaturas, desfolhadas. Inodoras, incolores e insípidas.


Digo, finamente, que


“somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,

Abranda as rochas rígidas, torna água

Todo o fogo telúrico profundo

E reduz, sem que, entanto, a desintegre,

À condição de uma planície alegre,

A aspereza orográfica do mundo!”

(Trecho do poema Monólogo de uma Sombra, Augusto dos Anjos, 1884-1914)


E um brinde à poesia.


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