E A SALA DE ESTAR VIROU SALA DE AULA

Por ALEANDRO ROCHA

Coluna Fragmentos

Talvez as casas nunca tenham estado tão habitadas, por tanto tempo e ao mesmo tempo, com todos ou quase todos os membros da família. Um verdadeiro impulso às mudanças nas formas de relacionamento entre os familiares. Nessa dinâmica de adaptações as crianças e os adolescentes estão tentando entender o que está acontecendo. Mas por em quanto, só o desafio de fazer do lar a nova escola. Afinal, o que o isolamento social e a necessidade de aprendizagem em casa estão causando aos alunos, pais e professores?


No processo de aprendizagem, em casa, muitos pequenos e também os adolescentes estão vivendo um verdadeiro caos ao tentarem acompanhar a dinâmica do ensino virtual. Os professores se esforçam e se esgotam na busca por ensinar. Para os pais restou um susto e muitos gritos por socorro!


De um lado está a exigência de se potencializar as ferramentas virtuais para atender às demandas de ensino. Os professores estão buscando formas de ensinar - de aprimorar nesse novo fazer dos mestres. São os planos de ensino, dinâmicas e aplicação de conteúdo. Tudo para garantir o ano letivo. Mas o que muitos alunos e pais relatam é que o já conhecido formato de transmissão de ensino continua tendo seu espaço no ensino à distância: páginas e páginas, livros, exercícios e provas.


As e os alunos seguem buscando concentração e motivação para corresponder a demandas que muitos denominam de "exageradas". E aí instala-se o caos! Entre as leituras e repostas estão os relatos de dificuldades para acompanhar as aulas e absorver o conteúdo. Assim, na nova sala de aula, o que se tem é ansiedade e desânimo durante o processo de aprendizado.


Como intermediários estão os pais, beirando ao desespero por estarem, também, tornando-se professores; de estarem vivenciando de perto uma angústia e uma inquietude de seus filhos diante das aulas virtuais. Uma tarefa que boa parte não consegue exercer. Não por falta de vontade, mas por falta de tempo e de didática.


Mesmo que algumas escolas já tenham voltado ao ensino presencial, boa parte dos alunos continuam em casa. Por isso a realidade sinaliza o quanto é urgente e necessário repensar como essa extensão da sala de aula está sendo apresentada aos alunos. Um cenário que pode parecer contraditório, já que o mundo virtual se tornou imperioso na vida da maior parte dos jovens e adultos. Esperava-se que aprender "on-line" seria tão familiar quanto as horas em frente aos jogos e às redes sociais. Mas, não! O que também nos faz pensar que, realmente, excesso de informação não é sinônimo de aprendizado, de motivação do conhecimento.


Mas quem será o carrasco da história? Precisamente, ninguém! Estão todos buscando lidar com essas plataformas de ensino, mas muitas vezes desejando as aulas presenciais. Se essa vontade de estar presencialmente na sala de aula fosse expressa em 2019, ninguém acreditaria. Mas após meses de experiências virtuais, chega a ser um desejo e um projeto de vida para muitos alunos, pais e professores.


Como toda experiência acarreta em aprendizado, esse é momento de avaliarmos o que significa essa dinâmica de desatenção, inquietudes e angústias. É preciso pensar que a dinâmica é nova e pede formas mais criativas na transmissão do saber, nas plataformas. Não se pode exceder em leituras e cobranças por meio de exercícios como garantia de conteúdo ministrado. Afinal, quem está do outro lado pode não suportar. Os relatos desses alunos e seus pais têm comprovado isso.


Ressaltar a necessidade de uma educação consistente, porta para uma formação cidadã, deve ser sempre constante. Mas não se pode forçar as crianças a aprenderem a qualquer custo. O processo de aprendizagem precisa ser prazeroso. Cobranças e excesso de conteúdo não proporciona criatividade e pode desaguar no desinteresse.


Para os pais, é preciso entender que se faz necessário aprimorar para lidar cada vez melhor com o jeito dos filhos de absorverem o conteúdo escolar. É preciso um crédito para aceitar que deve-se fazer o melhor, mas, principalmente, o que é possível neste momento. Acredito que, se alguma mãe ou pai tinha dúvida sobre a luta dos professores em sala de aula, ao se desdobrarem entre passar o conteúdo e lidar com as emoções dos alunos, isso já não acontecerá mais.


Estamos todos, de uma forma ou de outra, aprendendo a reaprender. É inegável que o espaço virtual e as ferramentas tecnológicas são meios necessários. Mas o que essa experiência também mostra é que nada pode substituir as relações presenciais, pois muito se aprende na observação e nas referências de participar e interagir em grupos.


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