E AS “LIVES” DESNUDARAM A POBREZA DA MÚSICA POP CONTEMPORÂNEA

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


Com o isolamento social imposto pela pandemia do COVID-19 músicos e musicistas de todo o planeta vêm fazendo apresentações em suas próprias residências, utilizando plataformas digitais diversas.

Duas conclusões a gente tira disso: a primeira delas é a de que muitos desses artistas (ou supostos artistas) estão sendo descaradamente oportunistas porque ganham dinheiro em suas “lives” com a venda de produtos em espaços publicitários previamente arranjados, já que não podem realizar shows faraônicos milionários, que são a maior de suas fontes de renda atualmente.

Mas me interessa mesmo a segunda conclusão a que chegamos, e aí eu faço uma menção ao escritor, crítico, comunicador e articulista britânico Paul Joseph Watson, principal fonte dessa análise: a música pop está incrivelmente mais burra, mais maçante e mais homogeneizada. Não se trata de uma mera opinião pernóstica ou arrogante de minha parte. Trata-se de uma comprovação técnica e totalmente científica. Também não quero desrespeitar os gostos musicais de quem quer que seja, e, caso alguém interprete esse vídeo dessa forma - erroneamente - desde já, ainda assim, eu peço desculpas. A ideia é a explicação de como o mecanismo todo funciona.

Vamos lá:

Há um arquivo muito conhecido no meio acadêmico utilizado recentemente por pesquisadores espanhóis que se chama o “arquivo de 1 milhão de músicas”. Estudando a música pop de 1955 a 2010, descobriu-se que a diversidade de transcrições entre as notas, os acordes, as melodias e os arranjos diminuiu em proporções assustadoras nos últimos 15 anos. Em outras palavras: músicas de Beyoncé, da Lady Gaga, do Maroon 5, dos sertanejos universitários, dos baianos, inclusive no que se refere às letras, estão cada vez mais parecidas e cada vez mais estúpidas, com um nível de absorção intelectual equivalente ao de uma criança de jardim de infância!!!

Também foi descoberto que a média dos volumes das gravações das músicas contemporâneas vêm aumentando gradativamente ao longo do estágio de produção, ou seja, estão artificialmente mais altas, e essa supercompressão neutraliza a própria dinâmica das músicas, contribuindo para que tudo venha a soar igual a tudo.

E qual é maior e a mais irrefutável prova disso tudo? É o fato de que, para suprimir a ausência da originalidade, os produtores atualmente utilizam algoritmos em programas específicos de computadores até mesmo para que de determine quais as faixas de um álbum são as mais rentáveis e as mais comercializáveis. Dai os artistas vão até os estúdios e as gravam.

Outro fato curioso - que eu sei que muito pouca gente sabe - é que grande parte dos artistas que ouvimos têm os seus álbuns, as suas apresentações públicas e os seus clipes produzidos pelas mesmíssimas pessoas!!! Acreditem!!!!! A maior parte das canções que ocuparam, por exemplo, em 2018, a lista das top 10 da revista norte-americana “Billboard” foi literalmente escrita por um grupo de 5 únicas pessoas, especializadas, treinadas e muito bem pagas para isso. O que isso significa na prática? Significa que a gente não escuta mais supostos músicos talentosos. A gente escuta, em verdade, variações sutis do trabalho mecânico de 5 caras só que interpretadas por artistas diferentes. Em seguida o que acontece? Acontece uma “canibalização” de uma determinada música para a criação de uma outra determinada música, e assim por diante. É como uma empresa aérea que passa por dificuldades financeiras e começa a retirar peças de uma aeronave para a manutenção de outra aeronave, e permanecer voando ainda que precariamente:

Claro que existem eventualmente ações judiciais pelo mundo afora, de uma gravadora processando a outra por plágio, mas todo mundo sabe que não dão em absolutamente nada.

Já vai longe o tempo em que os músicos tinham que ser efetivamente criativos e talentosos.

Hoje, praticamente qualquer um ou qualquer uma que grite ou que rebole ou que ataque o “sistema” (mesmo sem fazer a menor ideia do que seja isso) pode ajustar a sua voz com o auxílio de um “autotune” e começar a vender discos. Pode ser um ex-big-brother, uma apresentadora de programa infantil, um ator em decadência, tudo está valendo. Aliás, só esclarecendo: um autotune é um criador de áudio desenvolvido pela Antares Audio Technologies em 1997, e que usa uma matriz sonora para corrigir as performances nos vocais e nos instrumentos. Na prática é um programa que disfarça as imprecisões, corrigindo as afinações e modulando os erros grotescos.

Só que aí vem o problema: quando esses supostos músicos são confrontados ao vivo, com plateias, sem essa tecnologia disponível, acontecem os desastres. Há no YouTube, por exemplo, um vídeo ao vivo Kanie West se propondo a tocar Bohemian Rhapsody, do Queen, que é uma das coisas mais engraçadas e patéticas que eu já assisti na minha vida inteira...

Outro aspecto que faz com que as músicas de hoje sejam cada vez mais parecidas e repetitivas é que a capacidade de concentração de quem está ouvindo vem se reduzindo a cada ano, e portando necessita de uma quantidade cada vez maior de ganchos (os chamados “hooks”). Um gancho, explicando a grosso modo, consiste numa combinação de melodia, letra e ritmo que tende a permanecer nos inconscientes dos ouvintes.

Em outras épocas, era necessário apenas um único gancho interessante para que você conseguisse um sucesso de vendagem. Com a música de hoje, você necessita de ganchos tanto na introdução quanto nos versos, nas pontes, nos refrões e nos encerramentos!!! Mas por que isso? Porque a ciência já comprova que um ouvinte comum tende a mudar de estação de rádio a cada 7 segundos em média, a menos que porventura receba um estímulo cerebral de um gancho recorrente!!!

Agora sobre a questão das letras, até para que não haja nenhum mal-entendido: é evidente que sempre tivemos letras românticas bobinhas, como os próprios Beatles fizeram muito no início. Só que os tempos eram outros, vivia-se no período de pré-revolução sexual numa Inglaterra pós-vitoriana e altamente reprimida.

Mas daí eu me pergunto: por onde andam bandas tais como o Pink Floyd, que compôs certa vez sobre o balanço temerário entre o poder autoritário e o indivíduo em essência? Ou o Morrisey, líder da banda Smiths, que trabalhava os versos de suas músicas sob inspiração da literatura de Oscar Wilde?

Sempre existiu música sem sentido em todo lugar do mundo, mas quando isso passa a ser uma regra, as coisas ficam muito sérias. Vide o tal do “Açaí, Guardiã

Zum de besouro, Um imã, Branca é a tez da manhã” do Djqvan. Ou aquela pérola do Caetano Veloso “Não se avexe não, baião de dois, Deixe de manha, deixe de manha, pois

Sem essa aranha, sem essa aranha, sem essa aranha, Nem a sanha arranha o carro, Nem o sarro arranha a Espanha; Meça: tamanha! Meça: tamanha! Esse papo seu já tá de manhã!”. Ou até o Beto Guedes, de quem eu gosto muito inclusive e que é da mesma região que a de minha família em Minas, e certa vez que gravou “feira moderna, o convite sensual, ó telefonista a palavra já morreu, meu coração é novo e eu nem li o jornal”.

Bem...

Li uma entrevista com David Grohl, do Foo Fighters, na qual ele diz que se a música número 1 em uma parada de sucessos é sobre a própria bunda de quem está cantando, isso sim é um problema. Vide aquela cantora Fergie, por exemplo.

Também me recordo de uma entrevista com falecido e genial Frank Zappa, na qual ele nos conta que, nos anos 60 e 70, as canções mais experimentais, inovadoras, conceituais (tais como o rock progressivo) foram produzidas por executivos experientes, conservadores, a maioria sexagenária, mas que não podavam a capacidade criativa. Já nos dias de hoje, produtores jovens e “descolados” não permitem que sejam feitas inovações em seus estúdios, porque o foco é exclusivamente o lucro.

Mais um fato de extrema importância: vocês já repararam que a música piora na inversa proporção das programações de TV, principalmente das séries de TV, como as da Netflix, por exemplo? Por que será que o consumidor exige cada vez mais ser desafiado nos filmes, nas séries, nos documentários e ao mesmo tempo consome uma música pop acéfala e idiotizada?

Eis a resposta: porque todos nós sofremos maciçamente uma lavagem cerebral para que gostemos de músicas que normalmente nós odiaríamos, por meio de um “truque” que se chama “exposição repetitiva”.

Funciona da seguinte forma: estudos neurocientíficos já comprovaram há muito tempo que o nosso sistema de recompensa é ativado também quando escutamos um mesmo tipo de som por reiteradas vezes. Para fazer uma analogia, é como se, ao entupir o planeta com coisas ruins, a sociedade criasse uma síndrome de Estocolmo musicalmente.

A música pop de hoje é absolutamente igual a junk food: rápida, fácil, barata, acessível em todos os lugares e plataformas, sobretudo, tóxica, com uma receita idêntica e que doutrina as pessoas ao consumo. Só que um bife adquirido em um McDonalds jamais terá o mesmo gosto de um bom chorizo uruguaio...

Gente, a música é algo que nós carregamos conosco, seja em casa, no trabalho, na academia, no culto, no lazer de qualquer tipo. A música é a trilha sonora das nossas vidas, determina as nossas emoções, os nossos anseios, as nossas frustrações, a nossa saudade. Dessa forma, observem que que quanto mais caótico, perigoso e sombrio estiver o mundo, mais as pessoas vão buscar conforto emocional, familiaridade e reafirmação na música!!!

Um exemplo claro disso é o som de uma banda chamada Coldplay, que tenta desesperadamente vender a imagem de uma banda inovadora, diferenciada, com aquelas ganchos e as letras otimistas, “alegrezinhas”, mas que teve todos os seus últimos álbuns produzidos pelos mesmos produtoras da Rihanna e da Kate Perry.

Por fim, não posso deixar de falar da música eletrônica e dos atuais DJ’s. Eu sou de uma época em que os DJ’s indubitavelmente tinham que ser talentosos e extremamente criativos, versáteis. Aliás, conheci caras geniais, está aí o José Luiz Zebrão, até hoje um grande amigo. Só que hoje, os DJs parece que se acham verdadeiros magos da música, sendo que a tecnologia e os efeitos visuais fazem praticamente de tudo.

Em resumo: todo mundo feliz - ou pelo menos acreditando que está feliz -, as grandes massas acalmadas e um grupo de mercenários que estupram a verdadeira originalidade e a substituem por algoritmos previsíveis.

Músicas tiveram muito mais personalidade, eram subversivas, contestadoras. Hoje são como esposas e maridos submissos. E a vida segue.

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