EM ALGUM LUGAR, BEM DISTANTE DAQUI ... EXISTE UMA JANICE - PARTE 1

Por RENATA MALTA VILAS-BÔAS

Coluna Vida em Família: Questão de Direito

Janice casou-se com Romeu, seu namorado de infância. Os dois se conheceram no segundo grau e decidiram que quando terminassem a faculdade iriam se casaram. Tinham tudo previsto. Tudo determinado.


E, assim foi feito...


Passado dois anos de casado, eles acharam que estava na hora de alegrar a casa com o nascimento de um herdeiro ou herdeira. Romeu já estava mais estabilizado no emprego, bem como Janice, e eles iam conseguir criar o bebê e continuar trabalhando.


E, assim foi feito...


Quando o bebê nasceu, uma linda menina que era a cara da mãe, Romeu virou um pai babão, a menina era uma lindeza, só que ... Janice já não era mais a mesma... não lhe dava mais tanta atenção quanto antes ... quando ele chegava do trabalho, Janice estava sempre com uma cara de cansada e falando sobre a bebê, quem tinha ligado ou ido visitar a bebê. E durante a noite, a bebê não dormia a noite inteira, chorava boa parte e não o deixava dormir. Janice levantava para tentar acalmar a bebê, mas nem sempre conseguia. Com o término da licença maternidade o casal resolveu contratar uma babá para cuidar da criança enquanto Janice estava trabalhando.


E, assim foi feito...


Janice e Romeu saiam para trabalhar e a criança ficava o dia com a babá, mas tinha dia que tinha greve de ônibus, outro era o filho da babá que tinha problema, e assim, volta e meia a babá faltava. E com isso, a Janice acabava não indo trabalhar. Janice foi conversar com Romeu pois estava pesarosa achando que se continuasse assim, acabaria sendo demitida. Conversaram e decidiram que era melhor demitir a babá e colocar a bebê em uma creche. Pois nesse caso, não teria esse imprevisto com ônibus ou filho adoentado...


E, assim foi feito...


Janice procurou uma creche que ficava no caminho do seu trabalho para poder deixar a bebê e matriculou a criança, antes viu quais as atividades ofertadas, conversou com outras mães e colegas, quais eram as melhores creches da região, falou de valores. Quais as atividades mais completas para crianças daquela idade. Analisou valores e apresentou para Romeu as possíveis creches e foram conhecer. Depois de pesquisar e decidir em conjunto, chegaram a conclusão de que a creche ideal para deixar a filha era a creche tal, e a Janice ia assinar o contrato no dia seguinte.


E, assim foi feito ...


Na rotina de Janice ela saia de casa deixava a bebê na creche e ao final do dia buscava a bebê, que já vinha de banho tomado e jantada. Chegando em casa, fazia o jantar para ela e para o Romeu, enquanto ele tomava um merecido banho. Normalmente quando ele terminava o banho, o jantar já estava pronto e aí eles jantavam, depois era só colocar a bebê para dormir e eles iam dormir também ... e seguiam essa rotina.


Parecia que a família tinha entrado nos eixos, pensou Janice, até que a bebê teve a sua primeira gripe e ligaram da creche e Janice teve que ir buscar a bebê. Janice explicou para o chefe e foi buscar a bebê e a levou para casa. Era apenas uma virose, mas sabe como é criança, tem que levar no médico, cuidar...


E, assim foi feito ...


O médico ao examinar a bebê avisou para a Janice que era comum que criança que estava em creche pegasse gripe ou resfriado na sequência, um atrás do outro. Bastava um ficar gripado que logo outro bebê ficava também. Chegando em casa, Janice foi conversar com Romeu dizendo que não poderia sempre atender às chamadas da creche para levar a bebê no médico que eles precisavam se alternar nessas idas lá. Afinal a bebê era dos dois. E os dois é que tinham que cuidar da bebê. Romeu respondeu que Janice é que tinha mais jeito com criança, afinal ela é que era mulher, e portanto, estava mais acostumada com essas coisas.


Os dois começaram a discutir sobre como resolver o problema até que Romeu sugeriu que Janice deixasse o trabalho dela e ficasse em casa cuidando da bebê deles. Afinal, ninguém melhor do que a própria mãe para cuidar da bebê. E foram fazer as contas de quanto eles gastavam com a creche, quanto eles gastavam com transporte e alimentação fora de casa. Além do desgaste no ônibus. Com isso, eles chegaram a conclusão de que era melhor ela ficar em casa cuidando da bebê e apenas ele trabalharia fora de casa.


E, assim foi feito ... Janice adorava a filha, vê-la crescer era maravilhoso.


Cada dia, um aprendizado.


Ninguém sabia mais do que ela as maravilhas da maternidade. Por outro lado, detestava a trabalheira de dona de casa. Arrumava a casa e daqui a pouco estava tudo bagunçado de novo. Nada parava no lugar. E parece que depois que parou de trabalhar fora, Romeu ficou mais folgado. Como se ela estivesse sempre à disposição dele... O tempo foi passando. A bebê, já não era mais uma bebê, já era uma mocinha, e toda vez que Janice tentava entabular uma conversa com Romeu sobre voltar a trabalhar, ela ouvia dele que não precisava, afinal, não lhe faltava nada, pois ele cada dia que passava conseguia se firmar mais e mais dentro da empresa que trabalhava.


E, assim foi ...


Janice e Romeu estavam felizes, pois, era a formatura da Clarinha. Ela tinha conseguido concluir o ensino médio e agora iria iniciar mais uma etapa de sua vida. Tinha passado no vestibular de medicina e iria mudar para uma outra cidade. Janice estava nervosa com essa mudança. Era a primeira vez que iria ficar longe de sua filha. E não sabia bem como ia lidar com isso. Romeu não aparentava estar assim tão preocupado, afinal ele sempre saia para trabalhar. Isso não seria um grande problema para ele.


Após eles se despedirem de Clarinha e a deixarem no aeroporto para embarcar em rumo de seu sonho, Romeu e Janice retornam para casa. Chegando lá, Romeu entrega à Janice uma pilha de papel e pede para que ela assine a documentação. Janice pergunta do que se trata e ele informa que é o divórcio deles e como foi ele que comprou a casa e ela nunca trabalhou fora, ela não contribuiu com dinheiro para comprar as coisas, logo nada é dela. E ela deve arrumar as coisas dela, ou seja, as roupas e sair de casa, ainda naquele dia.


E ...


Janice tomada de surpresa, nem consegue responder. Depois que Romeu falou a palavra divórcio, daí para frente não compreendeu mais nada. As pernas tremiam, as mãos suavam, sentia uma batedeira no coração. Parecia que ia ter um infarto. Mas, com o pouco de forças que ainda tinha, respirou fundo e disse que iria ler e somente depois ia assinar.


E, assim foi feito ...


Pegou a documentação, e dirigiu-se ao quarto do casal, entrou e trancou a porta. E somente aí desmoronou. Deixou-se cair silenciosamente no choro. Não era um choro copioso, era um choro de lágrimas que transbordavam sem ainda entender ... E nesse momento pensou em quem poderia ajudá-la...


***

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