EM ALGUM LUGAR, BEM DISTANTE DAQUI ... EXISTE UMA JANICE - PARTE II

Por RENATA MALTA VILAS-BÔAS

Coluna Vida em Família: Questão de Direito


Janice ficou ali, não se sabe se um dia, uma semana, não viu o tempo passar... não ouviu o telefone tocar ...


Aos poucos começou a sair daquele estado de inércia... não sabe dizer o que fez naquele período, parecia que estava no automático. Cumprimentava quem lhe cumprimentava, sorria para quem lhe sorria. Continuava nas suas atividades diárias, mas parecia que dentro dela já não existia mais vida...


Com a sua filha era fácil, bastava ligar para ela e perguntar as novidades o que tinha feito e vinha um monte informações... e a menina falava tudo que tinha visto e feito de novo.


Descobriu que não tinha amigas próximas, confidentes. Com essas bastava conversas coisas banais, podia falar de novelas ou de programas da televisão ou qualquer última notícia das redes sociais. Era só começar que elas davam continuidade ... um sorriso, dois acenos com a cabeça, e a “conversa” fluía...


Dentro dela algo tinha quebrado... algo tinha partido e ela não sabia nem o que era.


Dentro do armário estavam os documentos que Romeu tinha lhe entregado. Ainda não tinha tido coragem de ler a documentação toda. E ele todo dia lhe cobrava a assinatura da documentação. A pressão estava cada vez maior.


A documentação iniciava contando que eles tinham casado e tinham tido uma filha e que por isso ela parou de trabalhar passando a viver dentro de casa. O que era verdade.


Mas, em determinado momento, a narrativa passou a retratá-la como preguiçosa, que quando a filha começou a ir para a escola, ela não quis retornar para o trabalho alegando que o trabalho da casa e acompanhar as atividades da criança (inglês, natação, ballet, e outros) acabavam lhe consumindo todo o tempo. O que não era verdade pois poderia muito bem conciliar tudo isso e ainda sim, trabalhar, como diversas outras mulheres fazem.


E na narrativa da peça, ainda colocava que como ela não tinha trabalhado logo não fazia jus ao patrimônio que tinha sido construído apenas com o dinheiro do trabalho do Romeu. Portanto, a casa era só dele e ela deveria desocupar no prazo de 1 mês após a assinatura dos papéis do divórcio e que após esse período ela deveria pagar o aluguel da casa para ele.


A cada frase que Janice lia, mais indignada ela ficava. Onde já se viu desprezar tudo o que ela fez em prol da família. Todos os dias que lavou as roupas, os copos e deixou a casa impecável para receber e impressionar os colegas de trabalho de Romeu. Ou ainda, quando iam às festas e participavam dos eventos festivos da empresa. Sempre atenta e atenciosa com todos e todas.


Se ele conseguiu paz de espírito para trabalhar era porque ela estava ali, ao lado dele, cuidando dos afazeres da casa. Cuidado dos seus ternos, de suas gravatas, de suas camisas, que ele sempre elogiou e era um motivo de orgulho. Ninguém passava uma camisa social como ela.


Mas agora, olhando aquele papel, viu que nada disso era importante, nada disso estava sendo considerado. Anos de dedicação ao marido estavam sendo descartados, como se joga fora uma camisa velha, desgastada pelo uso, que já não serve mais...


Muito envergonhada procura o telefone de um escritório de advocacia. Deseja contratar uma advogada. Não quer contratar um advogado. Tem vergonha de contar o que aconteceu, tem vergonha de que as pessoas saibam que não foi capaz de manter o seu casamento.


Agendou um horário com a Dra. Olívia e no dia agendado foi com ela conversar. Chegou tímida, sem graça, na realidade, queria sumir dali. Parecia que estava entrando em um lugar proibido.


A advogada folheou a documentação que lhe foi apresentada e conversou sobre alguns pontos, explicou o que a lei apresenta. Mas Janice não ouvia. Não queria ouvir. Não entendia.


A voz da advogada soava lá longe, enquanto na sua cabeça passava todo um filme da sua vida. E ela só conseguia se perguntar: como é que ela deixara chegar até aquele momento, o que é que ela tinha feito de errado ?


Janice interrompe a Dra. Olívia e pergunta: como faço para ficar casada ?


A advogada que já tinha percebido que a cliente não estava acompanhando a explicação, deu a dura resposta: Se ele não quer permanecer casado, não existe nada em nosso ordenamento que o obrigue a ficar casado.


Aos prantos Janice fala: mas eu dedique a minha vida a ele e a minha filha, porque ele está fazendo isso comigo ? Porque ele está me abandonando ? Porque está me deixando ?


A dor daquela mulher era visível, pois ela não compreendia porque que agora, estava sendo abandonada e dessa forma tão cruel.


Com cuidado a advogada tenta consolá-la explicando que ela precisará de acompanhamento de um psicólogo nesse processo de divórcio para fortalecê-la, pois a dor é muito grande, mas que juridicamente, não tinha como fazer com que ela ficasse casada.


E no meio de sua dor ela pergunta e como será a minha velhice ? Sempre imagine que eu e Romeu estaríamos juntos na velhice. Que quando ele se aposentasse nos iríamos viajar, conhecer lugares que não pudemos conhecer enquanto jovens. Ou porque ele estava trabalhando ou porque eu estava cuidando de nossa filha. Agora estarei sozinha...


A dra. Olívia disse que isso não era uma verdade pois o futuro ainda ira ser construído por ela e que Janice iria ter novos sonhos e novos planos, e que para a sua velhice ela poderia viajar com outras pessoas e conhecer outros lugares.


Foi aí que ela se deu conta que não tinha trabalhado e, portanto, não teria aposentadoria. E o pânico começo a tomar conta de Janice.


E nesse momento, ouviu uma explicação da advogada que lhe gelou a alma: Dona Janice, a sra. Tem 50 anos de idade e nível superior, atualmente os juízes não estão concedendo os alimentos para ex-esposa por muito tempo, por entender que é possível re-ingressar no mercado de trabalho. Assim, o prazo que eles estão concedendo, e isso é variável, é de 2 ou 3 anos de pensão alimentícia, e mesmo assim, de cerca de 10% a 20% do salário do ex-marido.


Mas Janice esperançosa respondeu para a advogada que queria conversar com o juiz e que iria explicar para ele a situação e que então ele iria entender.


Assim, foi feito. Processo andando, foi marcada a audiência de instrução para ouvir as partes, o Juiz tinha fixado os alimentos provisórios em 15% do salário de Romeu, que achou muito alto e agravou da decisão. Por sua vez, Janice achou o valor muito baixo e também não se conformou.


Até que chegou o dia da audiência de instrução e julgamento, nesse dia a Janice estava segura de que o juiz iria lhe ouvir e entender que aquele valor de pensão era muito pouco e que ia aumentar. Afinal , mais da metade da sua vida foi ao lado de Romeu, não era justo que agora, ela fosse assim, descartada como um papel velho e usado ...


Chegando na sala de audiência, Janice percebeu que o Romeu estava até mais bonito, tinha cortado o cabelo diferente, estava bronzeado e até mais magro (parecia que o divórcio estava fazendo bem para ele...)


Chamaram o nome deles e eles entraram na sala. A sua advogada disse que ela só poderia falar quando o juiz deixasse. E ela ficou esperando ansiosa essa hora.


Quando, enfim, o juiz lhe dirigiu a palavra e perguntou o que achava, a Janice começou a explicar que aquele valor ali era muito pouco, ao que o juiz respondeu: Dona Janice a senhora precisa entender ex-marido não é previdência, a senhora precisa trabalhar, com a sua idade muitas mulheres trabalham. Janice chocada com a insensibilidade daquele juiz, fica sem conseguir responder. Claro que muitas mulheres trabalham, sempre trabalharam, mas ingressar no mercado de trabalho nessa idade é que é o diferencial, principalmente depois de terem combinado de que ela não iria evoluir, crescer profissionalmente, porque estaria cuidando da família.


Nesse momento Janice lembrou de um ditado popular: o combinado não sai caro. Ao que ela disse: no meu caso... o combinado saiu muito caro ... deixei a minha vida profissional de lado para dedicar à vida familiar – conforme combinamos e depois de anos ninguém reconhece isso. Nem o marido, nem a sociedade, nem o judiciário.


Apesar de todo o torpor Janice ouve ao fundo a decisão do juiz 15% por mais um ano e nada mais.


E assim Janice decide, nunca mais combino nada com ninguém, só faço combinado agora comigo. Pois o que eu fiz, e que achei que era certo, com o meu marido em prol da minha família, amparado pela sociedade, em que eu tinha apoio de todos, acabou me trazendo a esse ponto da minha vida, em que eu não tenho apoio de ninguém. A partir de agora, só sou eu....


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