EM BRASÍLIA, PERTO E LONGE PODEM SER IGUAIS

Por ALFREDO BESSOW

Ainda que estivesse presente, não lembro do meu batizado cristão em 4 de dezembro de 1958. Do ponto de vista religioso foi o único, mas ao longo dos dias terrenos tive tantos e muitos outros rituais de aceitação – alguns simbólicos, outros litúrgicos, alguns engraçados e outros bizarros. Em Brasília mesmo vivenciei uma série deles e sou capaz de apostar que muitos ainda me esperam. Algo que até hoje me fascina e intriga é que por aqui, tudo é absurdamente longe e estranhamente perto – algo que talvez seja facilitado pelo fato de eu não dirigir e não gostar de dirigir. Essa peculiaridade me propicia a liberdade de olhar as paisagens e elas acabam sendo bem mais interessantes para os devaneios da mente do que a sucessão de asfalto, buracos, sinais, fechadas e barbeiragens. E quando os olhos estão descortinando cenários a dimensão do tempo adquire uma nova compreensão. Alguém que faça agora a viagem entre o Plano e Taguatinga, entre o Plano e Sobradinho, Brazlândia, para o Gama, certamente não verá razão alguma para o encanto, apenas para o tédio de áreas que antes eram verdes, que antes sugeriam paisagens e aguçavam o imaginário e hoje uma sucessão de invasões, de construções de exacerbado mau-gosto estético e repetida pobreza arquitetônica. Eu, de minha parte, continuo conseguindo enxergar o que os olhos dos outros nem imaginam poder existir, porque sempre tive esse fascínio de mentalmente ir além do que há por trás de simples paisagens. Herdei esse gosto dos tempos de guri, quando morava no campo e nos finais de ano saíamos de madrugada da Linha Palmeira, de carroça, para vencermos os 20 quilômetros até Candelária, participarmos do culto, almoçarmos na casa do tio Willy e de tarde retomarmos a estrada, mais sete quilômetros até chegarmos na Linha Alta – isso depois de transpor as águas sempre traiçoeiras do Rio Pardo que, sei agora, são pouco mais do que um filete a escorrer por entre pedras onde antes areia inclusive havia. Meu pai ia falando das estrelas dentro daquilo que herdara como informação de quem vivia no campo. A Estrela Dalva para mim sempre foi a “Boieira”, lembro do Cruzeiro do Sul, das Três Marias e outros nomes que se perderam no tempo, que se extraviaram por entre outras informações talvez menos poéticas, mas muito mais necessárias para a vida do meu cotidiano. Esses universos mentais e de memória convivem com a realidade e, muitas vezes, percebo que a manutenção deles possibilita que eu me abstraia do presente cruel que destruiu o jeito único de Brasília para um jeito único diferente que ainda fascina, choca e encanta quem aqui chega. Por isso acho estranho quando alguém reclama das distâncias em Brasília, porque, para mim, como não achar fantástico o aeroporto ser assim tão do lado da gente, o mesmo dizendo da nova rodoviária – claro que sem o charme e o encanto da Rodoferroviária, com suas limitações e seus sons múltiplos e diversos concentrados, numa profusão de vozes que ainda hoje ouso dizer que escuto – ou do zoo frente ao qual cruzo todos os dias, por vezes imaginando os animais dizendo entre si: olha o Gaúcho indo lá de novo... Compreender que aqui a dimensão de distância, de tempo e de espaço é exclusiva de Brasília ajuda a desvendar alguns mistérios, ainda que isso não explique tudo. Os gregos, mais espertos, resolveram o dilema do tempo criando o Chronos e o Kayrós e talvez pudesse dizer que a imagem do real fosse um ajustamento do chronos e aquilo que persiste inominável e impalpável, ainda assim vivo, como se fosse a dimensão do kayrós. Brasília é uma cidade única, todos dizem e não seria eu a pensar ou negar uma realidade que confirmo a cada dia. Mas é uma cidade que precisa ser amada e respeitada e isso não passa apenas pelo zelo de sua preservação arquitetônica razoavelmente original e que foi tombada como patrimônio pela Unesco. Respeitar Brasília é entender que se trata de uma cidade que tem vários níveis sociais, culturais, existenciais e humanos que muitas vezes não se conectam, não por qualquer idiossincasia, mas pelo simples fato de não saberem de suas múltiplas existências. Ainda nos idos de FHC um amigo dos tempos de PUC-RS veio morar aqui e já no ocaso de Dilma, nos reencontramos no Congresso Nacional e confessou-me que estava indo embora, porque desistira de tentar gostar da cidade. Perguntei o que ele conhecia da cidade, dos seus mistérios, do seu pôr do sol, de sua diversidade gastronômica, da magia dos sons e sotaques de uma Feira da Ceilândia, do encanto de um encontro de repentistas ou então do Parque da Cidade e fui desfiando um sem fim de vidas que Brasília tem... Bateu no meu ombro, e parafraseando um dito atribuído há muitos e não assumido por ninguém, sentenciou: “Meu amigo, uma vida é curta demais para tentar gostar de Brasília”. Gargalhamos lembrando velhos tempos e nos despedimos, desejando felicidades recíprocas – e saí matutando como pode alguém viver tantos anos em Brasília e não criar nem empatia e nem amor por uma cidade que acolhe a todos com generosidade e carinho?


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