EM CINCO PONTOS, POR QUE A ECONOMIA BRASILEIRA NÃO DESLANCHA

Da Época:

Pautada para encontrar as razões estruturais e culturais pelas quais há uma trava perversa ao crescimento econômico, o qual gerou o pífio PIB anunciado hoje: cresceu apenas 1,1% em 2018, abaixo das expectativas – a revista Época esboçou um roteiro com os cinco pontos do travamento:

1) Falta de confiança

As turbulências políticas que varreram o país desde 2014, com a Operação Lava-Jato, o impeachment da presidente Dilma Rousseff, as delações que quase derrubaram o presidente Michel Temer e a corrida eleitoral tumultuada de 2018 derrubaram a confiança de empresários e investidores.

Sem conseguir vislumbrar um cenário para o Brasil nos próximos anos, industriais brasileiros e estrangeiros evitaram ampliar suas operações no país. Investidores estrangeiros também ficaram arredios a aplicar na Bolsa e no mercado de capitais brasileiro.

Da mesma forma, os consumidores foram contaminados pelo clima de incertezas e reduziram o fôlego do consumo. Mesmo as famílias que não foram diretamente afetadas pela crise, com perda de renda ou emprego, passaram a adotar uma postura mais cautelosa na hora de ir às compras.

Medido pela Fundação Getúlio Vargas, o Índice de Confiança do Consumidor chegou a 93,8 pontos, insuficiente para mostrar otimismo – que só acontece quando o indicador ultrapassa a barreira dos 100 pontos.

2) Crise fiscal

O rombo nas contas públicas e o déficit crescente na Previdência do país criam dúvidas sobre a capacidade de o governo brasileiro conseguir honrar o pagamento de suas dívidas no futuro.

É o principal componente para a falta de confiança de empresários e investidores com a economia brasileira neste momento.

Por isso segundo especialistas, se a reforma da Previdência não avançar, o país pode mergulhar novamente numa recessão.

Desde 2013, o setor público consolidado (União, estados, municípios e estatais) tem déficit. Naquele ano, o País fechou com superávit de R$ 91,3 bilhões. Mas desde então, as contas passaram a fechar todas no vermelho. O pior ano foi o de 2016, com um déficit de R$ 155,8 bilhões. 2018, o rombo foi menor, de R$ 108,3 bilhões.

3) Ociosidade

Após dois anos de forte retração na economia (em 2015, caiu 3,5% e, em 2016, a queda foi de 3,3%), há uma enorme ociosidade na economia.

A indústria reduziu seus turnos de produção, a construção civil diminuiu o ritmo das obras e ficou com terrenos ociosos, o comércio fechou lojas e dispensou funcionários. Por isso, antes que a indústria volte a ampliar suas fábricas, as empreiteiras façam novas obras ou o comércio crie novos pontos de venda, é preciso ocupar essa ociosidade da economia. Isso explica o ritmo lento da retomada do crescimento. Ao final de 2018, a utilização da capacidade instalada estava em 77,5%, segundo a Confederação Nacional da Indústria.

Nos dados do PIB divulgados na manhã desta quinta-feira, a indústria, por exemplo, cresceu só 0,6%, em 2018, num ritmo insuficiente para compensar as perdas de 3,8% em 2016 e estagnação de 2017.

4) Desemprego

A taxa de desemprego ainda elevada no país — estava em 12% em janeiro — e a enorme informalidade no mercado de trabalho são uma trava para o consumo das famílias, grupo que responde por mais de 60% do PIB no Brasil.

A taxa de desemprego vem recuando lentamente, mas graças principalmente a ocupações precárias. Em janeiro, o número de trabalhadores por conta própria no país bateu recorde histórico: 23,9 milhões. Os trabalhadores que não têm emprego fixo são mais cautelosos para consumir e investir.

Economistas afirmam que a frágil recuperação do mercado de trabalho brasileiro será uma grande trava ao crescimento da economia este ano.

5) Investimentos

Os investimentos são essenciais para garantir crescimento de longo prazo. Mas, no Brasil, são historicamente baixos.

Juros ainda elevados por padrões internacionais, que tornam o crédito caro, burocracia para investir, um ambiente de negócios que está entre os piores do mundo e uma carga tributária elevada inibem o ímpeto de empresários e consumidores.

No resultado divulgado hoje pelo IBGE, a taxa de investimento do país (que é a parcela do PIB destinada por empresários e famílias para ampliar a capacidade de crescimento da economia) ficou em só 15,8% do PIB. Apesar de crescer em relação ao ano anterior, ainda não é suficiente para fazer o crescimento acelerar.

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