ENJAULADO EM SI MESMO

Por ROBERTO NAVARRO

Coluna Estrada das Lágrimas

Conheci uma família, onde eu atuava, que nunca mais esqueci. Era uma família formada por uma senhora com mais de 60 anos e três filhos, um deles casado e com dois filhos. Apesar de residirem em uma área muito carente, eles não passavam necessidades que a maioria da região sofria. Moravam em uma casa relativamente grande, todos trabalhavam exceto a dona Maria. Fui realizar uma visita nesta casa para conhecer um dos filhos dela dona Maria que tinha um "problema" mental, segundo informações.


Quando cheguei à casa, estavam na sala dona Maria, seus dois netos e a nora. Os seus dois outros filhos estavam trabalhando e aquele, o qual fui para conhecer, disseram que estava no quarto. Então fui saber um pouco da história desse paciente chamado José Carlos.


Segundo a mãe, ele na infância era aparentemente normal, mas após a adolescência foi ficando diferente, agressivo, não conseguindo mais realizar suas atividades diárias, não conseguiu concluir estudos, nem tão pouco trabalhar. Dona Maria disse que levou aos médicos onde morava no interior da Bahia mas tinha dificuldade de transportá-lo por que cada vez mais ele ficava agitado e agressivo. Inicialmente foi diagnosticado como esquizofrenia e prescrito medicamentos, mas teve dificuldades de realizar o seu acompanhamento médico. Relatou que teve muita dificuldade e que começou até ter medo de suas reações. Não me lembro detalhes pois isso já faz mais de 10 anos, mas só sei que fui até o quarto do José Carlos para conhecê-lo e me assustei com o que vi.


No lugar da porta havia uma grade de ferro, tipo portão de ferro usado nas áreas externas de uma casa. Na janela também havia grades e dona Maria disse que seria arriscado entrar pois ele era muito agressivo. Nos últimos tempos nem ela entrava lá, apenas a filha mais velha que ele permitia sem agredi-la. Era sua irmã que realizava todos os cuidados, corte de cabelo, unhas, banho, trocar de roupa, enfim era o único contato que ele aceitava. Ninguém sabia dizer o motivo desse vínculo, mas era assim que viviam.


José Carlos era corpulento, barba por fazer, cabelos despenteados, olhava e mal conseguia pronunciar uma frase, era repetitivo nas verbalizações. Quando nos viu, começou a andar de uma lado para outro e depois sentou-se na cama e ficou de cabeça baixa, até eu sair do local. Fiquei chocado com a cena que vi. Uma pessoa dentro de uma "jaula" parecendo um bicho perigoso. Fiquei imaginando que sofrimento dessa família, que sofrimento desse rapaz, preso em si mesmo e em casa, vivendo como um animal de estimação enjaulado.


Na época eu não tinha experiência em saúde mental então referenciei à equipe de saúde mental para que cuidasse do caso, acompanhando quando possível para aprender o manejo. A equipe realizava visitas frequentes, criou vínculo com a família, e através da irmã de José Calos, foram tratando. Lembro que ele obteve uma melhora, ficou menos agressivo mas ainda longe de ter uma vida próxima ao normal. Eu não consegui mais acompanhar, mas fiquei sabendo que essa família voltou para a Bahia, sua terra natal.


Esse caso tem as seguintes reflexões:


- Você olha uma casa por fora ou conhece alguém e nem imagina que drama esse lar ou essa pessoa vive.

- Muitas vezes julgamos atitudes das pessoas e nem imaginamos que dificuldades ela passa em sua vida, em seu lar.

- Quantos José Carlos existem e não sabemos? Nunca imaginei encontrar uma situação assim dentro de uma casa.

- Talvez se José Carlos tivesse um tratamento adequado inicial não estaria nessas condições.

- Existe um local adequado para essas pessoas com transtorno mental grave?

- E aquelas que não tem família? E as que perambulam pelas ruas ?


Pós-fechamento dos manicômios, os pacientes retornaram para suas famílias, mas existiam os que não tinham família ou a família abandonou de vez e estão aí nas ruas.


Conheço alguns desses que vivem num "manicômio a céu aberto", mas esse será um novo capítulo que quero falar mais adiante.


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