Factoide: viver da mentira desmoraliza a imprensa

Atualizado: Fev 17

Por CÉLIA LADEIRA MOTA


O procurador geral da República, Augusto Aras, trouxe ao debate político atual a palavra factoide, que já esteve em moda há pelo menos 30 anos. A palavra factoide (do inglês factoid) foi cunhada pelo escritor norte-americano Norman Mailer em sua biografia escrita em 1973. Mailer criou a palavra para significar "algo semelhante, mas que não é o mesmo". E aplicou a expressão ao cotidiano jornalístico, como "fatos que não tinham existência antes de aparecer em uma revista ou jornal". Nos dicionários em português a palavra aparece como uma afirmação falsa ou sem comprovação que é muito repetida ou divulgada pela imprensa para passar por verdade.


A prática jornalística não usa factoides, mas produz notícias sobre acontecimentos, narrados pelo repórter a partir da presença in loco e de testemunhos que são um importante procedimento investigativo do repórter. Criar factoides são armas de oposição que acabam por desmoralizar a própria imprensa.


A expressão factoide se aplica bem à recente notícia divulgada pelo Jornal Nacional, da TV-Globo, dando conta de que um suspeito da morte da deputada carioca Marielle Franco teria ido ao condomínio da Barra da Tijuca, onde o presidente Jair Bolsonaro possui uma casa e, na portaria, teria pedido para falar com o então deputado federal Jair Bolsonaro, que teria autorizado a entrada. A mesma reportagem explicou que naquele dia de março de 2018, Bolsonaro se encontrava na Câmara dos Deputados, em Brasília.


O factoide foi assim desmentido pela própria reportagem.


Mas a questão que fica é: se o deputado não estava no Rio, mas em Brasília, ele não poderia ter falado com o porteiro, autorizando a entrada do suspeito. Ou seja, o editor do JN já sabia de antemão que a notícia era falsa. Tanto que o repórter enviado ao condomínio sequer entrevistou o porteiro ou checou a ocorrência do falso telefonema. Sabia que estava lidando com um factoide. Não precisava checar nada. Então, porque publicar a mentira?


Para ser fiel à verdade o JN deveria se ater aos fatos. E desmentir a notícia que estava sendo publicada pela revista Veja. Algo assim: “não tem fundamento a notícia tal...”


A Globo fez pior do que errar. A Globo investiu no factoide, na fake news, na notícia falsa com a intenção de criar suspeitas sobre o presidente da República. E que suspeitas! O JN deixou no ar a ideia de que o presidente teria algo a ver com o assassinato de Marielle.


Factoides políticos são criatividades destinadas a atingir a honra ou levantar suspeitas sobre o comportamento de adversários políticos. É um sintoma de uma prática que já está banida pelas sociedades democráticas em geral. No Brasil, porém, a insanidade toma conta do debate político num nível de ódio que vai muito além da simples oposição política. E acaba por contaminar a atividade jornalística, que deveria viver da realidade dos fatos. Usar factoides na prática jornalística é implodir a própria prática. Significa a própria desmoralização da imprensa, num caminho sem volta para sua destruição.


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