FIGUEIREDO SÓ NÃO DIZIA “NÓS VAI” POR CAUSA DE FARHAT

O jornalista e publicitário Said Farhat era um dínamo no trabalho, até bem idoso empenhava-se incansavelmente em seus projetos, e nisso tinha um quê de semelhança com Carlos Heitor Cony. Não se entregava nunca, nem quando ficou viúvo de Rai Farhat, seu talismã, arimo e companheira. Outro que morreu trabalhando.

Said tinha a mania do detalhe. Consumia suas energias para encontrar a pedra filosofal em tudo que fazia, organizava escrevia e editava. Como ministro da Comunicação de João Batista Figueiredo chegou às rajas do perfeccionismo em cada discurso que elaborava para o presidente desde sua campanha ,Campanha, sim, porque teve que enfrentar o colégio eleitoral indireto contra Paulo Maluf, atualmente prisioneiro na Papuda.

Um outro dado sobre a tal campanha: embora fosse durante o regime militar, a sucessão de Geisel foi decidida em ambiente tipicamente de disputa aberta, pois do outro lado da candidatura militar estava o malufismo movido a uma caixa fornida para seduzir membros do colégio eleitoral. Era orquestrada or Calim Eid, lugar-tenente financeiro de Maluf

O que teve Said a ver com isso? Teve muito. O então candidato Figueiredo, então ex-chefe do SNI, não era o preferido de Geisel para a sucessão. Geisel o achava um tanto “militar”. Quera um perfil mais liberal ate mesmo civil que simbolizasse o final do regime duro. Alguém tipo Petrônio Portela, senador pelo Piauí, presidente do Senado. Com a oficialização de Figueiredo como candidato, era preciso adocicar sua imagem para se tornar mais palatável para a sociedade. Carregava a imagem de turrão.

Said Farhat entrou na campanha com a missão de mudar a imagem de Figueiredo. Em todos os discursos do candidato procurava introduzir uma linguagem mais popular, leve e até mesmo populista.

No final da campanha, exausto, os assessores do “bunker” de campanha instalado no Hotel Aracoara mandavam para aprovação enxurradas de textos para escolha do que o general iria falar nos eventos. Esbaforido, com o jeitão de prima dona de redação em dia de fechamento de revista, bufava:

“Chega de mandar textos para corrigir! Desde que o presidente não fale “nós vai” tudo bem!”

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