Irã/Iraque: a morte de um general

Atualizado: Fev 17

Por CÉLIA LADEIRA MOTA

                                                         

Imaginemos que uma tropa norte-americana, munida de drones, matasse na fronteira do Brasil com a Argentina um general brasileiro, dos que pertencem ao grupo palaciano do governo, o general Heleno, por exemplo. Parece inimaginável. Por que? Generais representam os símbolos mais caros de um país, como a bandeira nacional, entre outros. Jamais chamaríamos também um general de terrorista, porque seria um contrassenso. Como defensores da pátria, eles pertencem ao grupo mais respeitado da defesa do país. É o que pessoas que vivem longe de zonas conflagradas pensariam. No Brasil, generais não são terroristas. Nos Estados Unidos também não. Por que seria diferente no Irã?


    A morte de um general incomoda a muitos militares e não só no Irã. O coronel Mauro Rogério, da Aeronáutica brasileira, foi além e defendeu a carreira militar em texto na Internet. “O dito ‘terrorista’ era nada menos do que um general instituído. Usava a farda e a bandeira do seu país”, afirmou o coronel Mauro. Foi morto em um território vizinho. Segundo o coronel Mauro, existe uma razão para isso. Esta era uma linha que jamais havia sido ultrapassada nos conflitos geopolíticos norte-americanos. Existe uma diferença entre matar líderes de facções ou grupos rebeldes e matar oficiais do Exército regular de países soberanos.


   Enquanto a morte de Osama Bin Laden foi laboriosamente medida – lembra o coronel Mauro – inclusive evitando que seu cadáver fosse destinado ao ritual de sepultamento, em que teria sido transformado em mártir, o assassinato do general iraniano parece ter sido decidida de afogadilho, causando efeito absolutamente contrário, como constatou o coronel da Aeronáutica brasileira. “Uma morte chorada pelas populações de países do Oriente Médio, unindo mais o Irã e o Iraque no luto de três dias. Esta linha de ataque unilateral, além de gerar repulsa na comunidade internacional, fornece argumentos para fortalecer a causa da pessoa assassinada”.

    A experiência militar lembra que mortes assim provocam a Lei de Talião, dente por dente, olho por olho. E isto significa retaliações, atos de vingança diversos, crescimento do ódio, represálias, mais confrontos e mais mortes. Bem no começo de um novo ano já saudado como representação de um tempo de paz. Os sonhos de milhões de seres humanos, que saudaram a chegada do novo ano entre orações e abraços, foram frustrados pelas bombas disparadas por drones, acompanhados confortavelmente desde a Casa Branca.

    O general Qassem Soleimani morreu como herói, como mártir. E nada poderá apagar esta imagem. Nem o epíteto de terrorista, mal aplicado. Para os militares de forças diversas, assim como para as populações do mundo, ficará a imagem do herói sacrificado. E só nos resta esperar os próximos episódios que se seguirão a este erro de Trump. Já sabemos, porém, quem é o herói e quem é o carrasco.