JÓ, JUNG E O ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO

Atualizado: 26 de Mai de 2020

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


O Assédio moral ocorre quando alguém é exposto a situações de constrangimentos e humilhações de forma prolongada.


É uma expressão que se refere normalmente a situações de trabalho, sendo bem mais comum em hierarquias autoritárias com o predomínio de condutas antiéticas e até mesmo desumanas de longa duração, o que desestabiliza a relação da vítima com o seu ambiente de trabalho.


Hoje o assédio moral é estudado em diversos campos das ciências humanas, sobretudo no que conhecemos como Comportamento Organizacional.


E o que é o comportamento organizacional? É basicamente o estudo do que as pessoas fazem nas organizações em que se veem inseridas, com foco na eficácia, na eficiência, na harmonia, na motivação e, sobretudo, no desenvolvimento humano.


Voltando a questão do assédio moral, eu recomendo, muito respeitosamente e com profunda deferência que todos leiam o que, em minha opinião, é sem sombra de dúvida a obra mais impactante, construtiva e não menos polêmica sobre o tema: o Livro de Jó, do antigo testamento.


O Livro de Jó nos conta uma história sublime, belíssima de resiliência, de fé, de superação e de altruísmo.


É o livro mais antigo de toda a Bíblia cristã, cuja origem e autoria até hoje não são conhecidas e que, aparentemente, remonta ao século VI a.C.


Jó era um homem próspero, profundamente temente a Javé, o equivalente a "aquele que traz à existência a tudo que existe", ou seja: Deus no antigo conceito hebraico.


Eis que um dia o próprio Javé pergunta a Satanás: "Notaste porventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus, e se desvia do mal?" Satanás então pondera que Jó somente adora ao seu Deus somente e apenas tão-somente porque tem absolutamente tudo.


Deus então literalmente autoriza satanás a retirar de Jó as suas posses, os seus servos (assassinados brutalmente), a sua família (os seus sete filhos são simultaneamente mortos em uma tempestade de areia) e, por fim, a sua própria saúde, com o aparecimento de terríveis úlceras malignas em todas as partes de seu corpo.


Ainda assim o nosso personagem não perde a fé em momento algum, mesmo sendo tentado a fazer isso até mesmo pela sua esposa e, rasgando o seu manto que cobria as feridas enormes, raspa a própria cabeça, joga-se sobre a terra e adora ao Senhor dizendo: "nu saí do ventre da minha mãe, e nu tornarei para lá. Deus me deu, e Deus tirou; bendito seja o nome do Senhor".


Há diversos outros desdobramentos até que, finalmente, Deus devolve tudo em dobro a Jó, que se renova em glórias e louvores.


Bem: umas das obras mais controversas de Jung, discípulo de Freud, chama-se Respondendo a Jó. Nela Jung propõe, aliás, com bastante ênfase, que Javé não teria, em princípio, consciência moral, porque a sua moralidade ou amoralidade iria em confrontamento com o que seria, na visão do ser humano, como “bom” ou “mau”.


É como se Javé possuísse uma moralidade superior à nossa capacidade de compreensão, na qualidade de seres humanos.


E vai ainda mais adiante: à medida em que Jó supera com a sua fé inabalável as provações a que é cruelmente submetido, Javé precisa enfrentar a sua própria amoralidade, olhando para si mesmo e encarando frontalmente essa amoralidade. É como se Javé (Deus) não manipulasse Jó, e sim, com a sua força de superação, Jó manipulasse Deus.


A palavra “resiliência” representa a capacidade de encarar, enfrentar, se adaptar, superar e ainda evoluir diante de momentos de enormes adversidades.


Quantos de nós já fomos submetidos a situações difíceis em ambientes de trabalho, com superiores que nos sabotavam por meio da outorga de tarefas que eles acreditavam serem impossíveis, e ficaram completamente aniquilados, desnorteados, desconcertados quando viram que nós conseguíamos “dar conta do recado”? Quantos de nós já fomos julgados, ou até mesmo humilhados em ambientes profissionais hostis e superamos todas as adversidades graças ao espírito de luta e à meritocracia? Quantos de nós já tivemos chefes notoriamente mais burros e incompetentes, na direta proporção de suas respectivas proporções e arrogâncias?


O autocontrole, o autoconhecimento, a perseverança e a absorção de conhecimento são armas incrivelmente poderosas.


Ao final de tudo, a conclusão é de os gregos socráticos sempre estiveram certos quando definiram as chamadas quatro virtudes cardeais, que devem permear as nossas vidas sempre: prudência, fortaleza, temperança e justiça.

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Conheça o nosso articulista Andre R. Costa Oliveira e leia outros artigos de sua autoria:

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