JORNALISMO: A IMPORTÂNCIA DO TESTEMUNHO

Por CÉLIA MARIA LADEIRA

Coluna Análise da Notícia

Um lendário jornalista norte-americano, Edward Murrow, gostava de afirmar que “toda pessoa é prisioneira da sua experiência”. Segundo ele, isto quer dizer que ninguém consegue eliminar seus preconceitos, tão somente reconhecê-los. Dar testemunho de um fato significa estar presente a ele, reconhecer o acontecimento com seus personagens e conflitos. Mas esta não é uma presença como uma mosquinha na parede, invisível e muda. Desde a filmagem de buracos nas ruas, numa cobertura local, a estar presente em conflitos internacionais, a presença do jornalista é necessária. 


Em primeiro lugar, para garantir que o fato realmente aconteceu, dramaticamente ou não. É importante também para identificar os personagens de uma narrativa, suas lutas, anseios, pontos de vista. É importante perceber que toda história tem mais de uma única verdade, representa narrativas que envolvem lutas de vida, com seus personagens que empenham sua credibilidade em assumir sua versão da realidade. E o jornalista, o que faz? Assume o ponto de vista de um dos lados?  Despreza outras visões do fato?


Na história da prática jornalística, a questão da objetividade já foi muito defendida. Ficar alheio ao fato, narrar de modo frio uma disputa qualquer, seja entre vizinhos, entre moradores de uma cidade, entre países. Esta já foi a norma ideal em muitos manuais de redação. Como se uma cobertura noticiosa fosse entrar mudo e sair calado.  Mas a simples presença do jornalista o transforma em testemunho, capaz de responder até a inquéritos policiais. 


Lembro-me de uma cobertura televisiva de um ataque entre índios yanomami e uma equipe policial em que um repórter e seu cinegrafista, ao lado dos policiais, só filmava as lanças e flechas do outro lado do conflito. Percebe-se que o ponto de vista da cobertura fica prejudicado com esta adoção de um lugar de fala. Imagino esta objetividade na guerra do Iraque, entre tropas norte-americanas e civis do país. Assume-se um lugar para narrar, mesmo com a contagem de mortos e feridos. E a objetividade esconde a verdade. 


Voltando a Murrow, gostaria de lembrar que ninguém entra mudo e vazio numa cobertura, mesmo que muitas vezes saia calado. Como jornalista temos valores que são culturais, que interferem na foto que faço, na filmagem, no texto, até no desenho de quadrinhos. Como a experiência pessoal do jornalista, as aulas que recebeu na faculdade, as regras da redação, os conselhos do editor interferem na cobertura? Que testemunho dar de um acontecimento?


Um grande jornalista norte-americano, Joe Sacco, que cobriu um grande número de guerras do final do século XX, aborda esta questão difícil, que é adotar um lado da narrativa. Vale reproduzir sua posição: “ao tornar difícil me ausentar de uma cena, ela não me permite fazer da imparcialidade uma virtude.” ( SACCO, 2011).


Para ele, “os repórteres devem ser neutra e imparcialmente a favor daqueles que sofrem”.  


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