JULGAMENTO E RESPEITO

Por ROBERTO NAVARRO

Coluna Estrada das Lágrimas

Antes de iniciar a história de hoje, quero falar um pouco sobre família, principalmente sobre a relação entre pais ou responsáveis e filhos.


Sempre se ouviu falar a expressão ¨filho não vem com manual”...etc e etc…


Cada um acha sua fórmula de criar conforme sua própria educação, suas crenças, suas verdades formadas através do que se aprendeu com os próprios pais e com suas experiências de vida, não é?


Através do tempo, a estrutura familiar vem mudando, mas a essência não. Independente da composição familiar no lar de uma criança, ela, na infância, segue os seus ¨heróis¨. Às vezes nos damos conta bem depois ou pior ainda, nem nos damos conta de que todas nossas atitudes estão sendo ou foram observadas e copiadas. E a gente amadurece junto com eles e mais lá na frente acabamos nos orgulhando ou nos frustrando, sentimentos de culpa às vezes nos vêm e justificativas que criamos, nos consolam.


Não há certo ou errado, só saberemos depois que eles crescerem, mas uma coisa tenho observado, independente da educação que damos, eu sempre digo: ¨eles já nascem prontos¨ e nós os lapidamos.


Tenho observado há anos comportamentos de filhos com a mais variada estrutura familiar e concluo que não há uma regra. Muita gente pensa que tendo condições financeiras favoráveis dará uma formação ideal e que isso é fundamental, lógico que isso ajuda muito, sem dúvida, mas sem uma estrutura familiar (e quando falo isso não me refiro a família tradicional - pai, mãe e filhos) mas independente de qualquer formato, se a criança têm uma estrutura de amor, apoio, segurança e ser preparada para o mundo com todas as dificuldades que irá encontrar, ou seja, aprender a errar, se frustrar aprendendo a lidar com isso, se levantar, tentar outra vez e conseguir êxito, ela estará preparada para a vida. Se ela tem uma boa base consegue enfrentar melhor as dificuldades. A questão da condição socioeconômica é secundária.


O que quero dizer é que essa estrutura familiar é que faz a diferença .... o equilíbrio entre a fantasia e realidade, o estímulo e o fracasso, o apoio e o livre arbítrio são de fato o grande recurso para nossos filhos. Temos que reconhecer que ensinamos mas aprendemos com eles também, e como é difícil identificar que o nosso mundo sempre está em transformação, e que a educação também passa por isso. Temos que fazer download sempre … e nos atualizar. O que não muda é aquela estrutura familiar que falei antes, baseadas em bons princípios.


Aqui vai algumas perguntas para refletirmos:


- Será que vale a pena criar expectativas para nossos filhos sem antes saber quais são as deles?

- Será que vale a pena ele pensar que sou um ¨Herói¨ infalível e acima de qualquer erro?

- Será que não passamos os ¨nossos medos¨ para eles?

- Será que se eu poupá-lo de todas as coisas ruins da vida ele vai crescer forte?

- O que é ¨dar tudo o que eu não tive¨ para eles?


Hoje fiz uma introdução falando de relações familiares porque quero contar a história de Dona Carmelita, uma senhora de meia idade, parecendo bem mais, devido seu sofrimento de vida. Não sei muito bem como chegou naquele local que a encontrei porém era um barraco onde além dela viviam mais três filhas, seis netos e um chegando em breve, além de um genro.


Ela com algumas complicações de doenças crônicas e com um humor que não era dos melhores. Tinha além dessas três filhas mais duas que moram em invasão e outra na rua que estava bastante comprometida mentalmente por uso de drogas e doença infecciosa crônica. Por mais atenção que déssemos, ela não aceitava muito, não cuidava da saúde, parecia que queria partir mas não estava depressiva, apenas acredito eu, que cansada da vida.


Do dia que conheci Dona Carmelita até o dia de sua morte se passaram uns três anos. Sua vida foi cuidar do netinho mais novo e do outro que chegou, porque as outras duas filhas se mudaram, uma foi com o marido e os cinco filhos para uma invasão, conseguiu emprego e tocou sua vida, e eu só o vi mais umas duas vezes. A outra conheceu um homem dali de perto mesmo e foi morar com ele em outro barraco, mais adiante engravidou e teve mais um filho. A mais nova ganhou seu bebê e estava sem marido então ficou com Dona Carmelita até o seu falecimento quando foi embora do local e não a vi mais.


Podemos observar três gerações vivendo na rua, no barraco, na invasão, aonde conseguir viver. A princípio quando a gente conhece, se choca, pois trazemos para o nosso padrão de vida e pensamento, mas com o passar do tempo vamos aprendendo com essas pessoas que elas pensam diferente.


Pense bem: eles cresceram sem uma casa, sem o conforto, sem uma rotina de trabalho… é isso que lhes foi passado no mundo. É a rotina deles, porque não sentem falta do que nunca tiveram. Observei também que, talvez por um déficit de conhecimento, ou cognitivo, não pensam no que não tiveram, apenas aceitam, batalhando dia após dia para sobreviverem. Percebi apenas em uma das filhas de Dona Carmelita a vontade de mudar de vida, era mais consciente da situação, querendo dar melhores condições para seus cinco filhos, e por isso foi embora daquele local para tentar uma vida melhor.


Não quero achar respostas para essa família, mas sim, propor a reflexão sobre as nossas próprias relações e que possamos aprender a não julgar sem conhecimento dos fatos. Foi uma história curta, sem superações, sem vencedores ou perdedores, apenas uma história real como tantas outras que conheci, mas que serve para pensarmos:


- Porque será Dona Carmelita não mudou sua vida nem de seus filhos?

- Porque será que as filhas repetiram a mesma situação difícil da mãe?

- O que poderia ser feito para cortar esse ciclo?

- Os netos de Dona Carmelita podem ter uma vida melhor?


Pra terminar, quero dizer que quando deparamos com situações diferentes de nosso padrão de conceito de vida, consequentemente julgamos, isso é natural do ser humano, quase que inconscientemente o fazemos, mas que tal analisar antes de condenar a vida do próximo?


Se eu não consigo mudar o outro, pelo menos eu tenho que respeitar. Afinal, demoramos muito para mudar a nossa própria vida.


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Conheça o Colunista Roberto Navarro


Imagem: A Favela Invisível - Fotógrafo Anthony Leeds