LEI DO RETORNO

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


Muita gente se apega ao que se chama popularmente de “lei do retorno”. “Não há nada como a lei do retorno”, “a lei do retorno não falha”, e por aí vai. Publicam mensagens indiretas em redes sociais, quase como uma ameaça velada, uma vingança que virá muito em breve aos malfeitores, aos impuros.


Só que essas pessoas não fazem a menor ideia do que é “lei do retorno”, e muito menos se ela existe sob os aspectos científico, filosófico, religioso ou até mesmo metafísico.


No conceito mais superficial da expressão tão comumente utilizada, eu afirmo peremptoriamente que a lei do retorno é uma enorme utopia. Um engodo, um disfarce, um placebo, um consolo inútil aos que nela acreditam.


Explico:


A cada atitude tomada por alguém - ou em cada fenômeno da natureza por nós percebido - existe claramente uma ação e ao mesmo tempo uma reação a algo já acontecido, o que acarreta outras ações (e que também são obviamente reações) levando ao infinito, tanto para o pretérito quanto para o futuro, como uma via de mão dupla. Aliás, o próprio conceito de “infinito” é um conceito que pertence à lógica, e não pode ser considerado um número. Até mesmo porque um “infinito” ao ser multiplicado por um “infinito” leva a uma resposta “infinita”.


Isso nos remonta ao conceito kantiano do que seja tempo. E o que seria o tempo? Tempo, segundo Kant em Crítica da Razão Pura, “nada mais é que a forma da nossa intuição interna. Se a condição particular da nossa sensibilidade lhe for suprimida, desaparece também o conceito de tempo, que não adere aos próprios objetos, mas apenas ao sujeito que os intui.”


Em outras palavras: O tempo é uma condição “a priori” de todos os fenômenos em geral.


E o que seria então “fenômeno”?


"Fenômeno" significa "o que aparece". E o que aparece, na hipótese aqui colocada, é o sujeito do conhecimento que é dotado de peculiares condições de racionalidade. Essas condições de racionalidade se apresentam a partir da ideia de sensibilidade, na qual o tempo é a nossa própria intuição interna, a condição de todos os fenômenos.


E é exatamente por causa disso que o próprio Kant utiliza o termo “a priori” quando se refere ao tempo, ou seja, a sua intuição antes e fora da experiência. Sendo assim, o tempo não se constitui de um conceito empírico que se abstrai da experiência, muito ao contrário: tempo advém da intuição do sujeito.


Voltando agora à malfadada lei do retorno: tempo é simplesmente o que medeia a relação entre dois fenômenos, e assim por diante.


Sob o prisma da moderna psicologia, a Lei do retorno é a ideia de que cada ação que praticamos gera um resultado a nós mesmos, como se existisse um mecanismo de compensação para equilibrar as nossas ações em sociedade. Segundo essa teoria, se agirmos como pessoas íntegras, receberemos a mais pura integridade. Se agirmos com canalhice, colheremos apenas a pior das canalhices.


Homens e mulheres comuns enxergam essa premissa de maneira extremamente pueril, ingênua e generalizada. E a simplicidade dessa percepção indica o quanto todos nós estamos mal habituamos a pensar de forma superficial sobre os acontecimentos da vida.


Só que não é assim que as coisas funcionam. Não se trata de uma receita de bolo, ou de um jogo de videogame, no qual você acumula pontos se acertar a manobra, e ainda perde créditos quando age com alguma imperícia. Aceitar que a nossa vida nada mais seria do que a singela lei do retorno é o mesmo que aceitar que as próprias religiões são também jogos virtuais ancestrais, nos quais você deverá pontuar servindo a Deus para que não perca pontos e corra o risco de não ascender ao paraíso.


Como eu já disse há pouco, uma reação será também uma causa, e uma causa será sempre uma reação a algo. Digam o que quiserem, mas o mundo gira dessa forma. É a linda do espaço-tempo, que na física, inclusive, consiste no sistema de coordenadas que é base para o estudo da relatividade restrita e da relatividade geral.


Mais difícil ainda é a determinação de uma matriz universal, um marco inicial de tudo isso: físicos diriam ser o big-bang, e os religiosos certamente apostariam em Adão e Eva.


Mas algumas verdades são indiscutíveis: o que levou uma criança ser violentada sexualmente aos cinco anos de idade? O que motivou o câncer de uma menininha de 10 anos? O que fez um ditador exterminar milhares - e até milhões - de seus compatriotas com armas químicas, em defesa de ideias indefensáveis? O que essas vítimas fizeram de tão mal ao próximo? Por qual motivo foram tão violentamente castigadas? Carma? Pecados cometidos em vidas passadas? Me desculpem. Isso não é lei do retorno. Isso sim é um absurdo e um desrespeito às memórias dos inocentes.


As pessoas que cultivam pensamentos mesquinhos, reativos, vingativos, que desejam o pior aos outros e que acham bom quando alguém de seus desafetos enfrenta alguma dificuldade ou algum sofrimento são pessoas que, com absoluta certeza, sofrerão também as consequências da mediocridade. Aliás, já estão sofrendo dia e noite, uma vez que esperar e desejar o mal a alguém lhe transforma, de certa maneira, em escravo desse mesmo alguém. São sentimentos venenosos aos corpos e aos espíritos, tóxicos e que tendem a estagnar as vidas pequenas dessa gente toda.


Ainda sobre isso, há algumas dicas úteis sobre o assunto: nós sabemos que a frase “gentileza atrai gentileza” não é verdadeira; nós também sabemos que se praticarmos exclusivamente o bem não vamos receber de volta exclusivamente o bem - muito embora jamais deveremos deixar de tratar com gentileza o próximo, e de fazer coisas boas mesmo àqueles que não conhecemos e que até mesmo nos achincalham.


Entretanto, saiba que se você estudar mais, o conhecimento chegará a tempo e modo; se você desenvolver o hábito de leitura, com certeza tenderá a escrever, a argumentar e a falar melhor; se você refletir atentamente sobre a tomada de decisões, provavelmente tomará decisões com mais sabedoria; se você cuidar de sua saúde, poderá viver melhor e com mais qualidade. Isso passa, inclusive, pelos conceitos de temperança, resiliência, perseverança e auto-conhecimento.


Essa é a verdadeira lei do retorno. Nenhuma situação - seja ela boa ou ruim - durará eternamente, nem a sua, nem a de ninguém. Assim como acontecem coisas boas e coisas ruins com todos os seres humanos sobre a face do planeta, todos os dias, todas as horas. E para isso, dê o nome que você quiser Inclusive chame de lei do retorno de assim o desejar, demonstrando que a sua visão de mundo é rasteira, e que você carece de bons sentimentos.

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