LEMBRANÇAS DA PRIMEIRA CHUVA EM BRASÍLIA

Por ALFREDO BESSOW


Já passava das 10 da noite, estava aplastado no sofá da sala do apartamento que eu, Pieri e Eliseu repartíamos na Asa Norte. Certamente com um copo de Logan e um cigarro Carlton divididos entre mãos e dedos quando de súbito escutei um alarido, um frenesi diferente, um entrecortar de vozes e mal me dei conta quando Pieri e Eliseu romperam dos seus quartos e se bandearam pela escada.


Há um estágio letárgico no qual muitas vezes nos encontramos entre a torpeza do cansaço e o relaxamento depois de uma ou duas doses de uísque. Imerso neste nível de abstração da realidade, demorei alguns instantes até reconectar-me totalmente à realidade. De cara pensei: é peleia que tá rolando, quem sabe um barraco entre duas vizinhas que viviam às turras disputando a atenção de um mesmo taxista – menos por paixão, mas mais pela generosidade com que ele as aquinhoava de presentes e mimos.


Fui até a janela e vi um espetáculo que aos olhos distantes, tinha muito de burlesco e de infantil. Eram pessoas de múltiplas idades simplesmente se divertindo com a chuva, deixando que ela molhasse os cabelos e expusesse a silhueta de algum corpo de alguém que mais ávido tenha ido refastelar-se sem se atentar adequadamente com que roupa estava.


As pessoas efetivamente se divertiam naquele espetáculo, levando-me na imaginação aos tempos de banhos de chuva e corridas pelo gramado em Candelária – ainda que mãe e pai sempre alertassem para os riscos de raios e os cuidados com as gripes.


Confesso que não me contagiei com aquele frenesi, que me parecia ser muito mais um ato burlesco do que uma comemoração efetiva – mas ficou retido em mim e povoa no meu imaginário esta cena, enquanto que neste começo de tarde de quarta, dia 8 de abril, percebo que a chuva tamborila sons e reaviva lembranças.


Aquela chuva lá de 1987 continua viva em mim e tento ainda hoje compreender aquelas manifestações de tanto júbilo, porque o período de seca aqui entre nós faz parte digamos do perfil de Brasília na medida em que ela se repete a cada ano, como parte do ciclo da natureza.


Talvez mais do que a volta da chuva naquela noite, o que realmente me marcou foi que, enquanto subia as escadas para repor gelo e uísque, escutei um estrondo e da janela pude ver duas pessoas se altercando em xingamentos e sopapos por conta de uma frenagem com ares de imprevidência.


E resiste em minha memória a dualidade destas duas realidades da primeira chuva que vivi em Brasília: pessoas comemorando a sua volta e outras a culpando pela fatalidade de um acidente.


Aos poucos o frenesi foi diminuindo, as pessoas ensopadas foram voltando aos seus mundos.


Estranho mesmo foi na manhã seguinte ver mulheres que sob a chuva exibiam uma certa nudez pueril, desavisada e sem culpa caminhando em passo ligeiro em sóbrias roupas, como querendo obliterar eventuais imagens e desejos remanescentes. Desta vez, fugindo do sol que batia com inclemência no asfalto, a trazer as pessoas de volta para a única realidade: o ciclo da natureza forja as emoções humanas.


Para o bem ou para o caos e a última imagem daquela noite de batismos foi observar no canteiro central dois carros abalroados que permaneciam a espera de um guincho.


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