Leopoldina, a Independência e o Amor Destrutivo

Atualizado: Mar 5

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA


“São Cristóvão, 8 de dezembro de 1826, às 4 horas da manhã

Minha adorada mana!

Reduzida ao mais deplorável estado de saúde e tendo chegado ao último ponto de minha vida em meio dos maiores sofrimentos, terei também a desgraça de não poder eu mesma explicar-te todos aqueles sentimentos que há tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! Não tornarei a vê-la! Não poderei outra vez repetir que te amava, que te adorava! Pois, já que não posso ter esta tão inocente satisfação igual a outras muitas que não me são permitidas, ouve o grito de uma vítima que de tu reclama – não vingança – mas piedade, e socorro do fraternal afeto para meus inocentes filhos, que órfãos vão ficar, em poder de si mesmos ou das pessoas que foram autores das minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de intérprete para fazer chegar até tu os últimos rogos da minha aflita alma. A Marquesa de Aguiar, de quem bem conheceis o zelo e o amor verdadeiro que por mim tem, como repetidas vezes te escrevi, essa única amiga que tenho é quem lhe escreve em meu lugar.

Há quase quatro anos, minha adorada mana, como a ti tenho escrito, por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida pelo meu adorado Pedro. Ultimamente, acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento a meu respeito, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte. Cadolino, que por ti me foi recomendado, e que me tem dado todas as provas da maior subordinação e fidelidade, é quem fica encarregado de entregar-te a presente, e declarar-te o que por muitos motivos não posso confiar a este papel. Tendo ele todas as informações que são precisas sobre este artigo, nada mais tenho a acrescentar, confiando inteiramente na sua probidade, honra e fidelidade.

Faltaria ao meu dever se, além de ter declarado ao Marechal e a Cadolino que tenho dívidas contratadas (ou contraídas?) para sustentar os pobres, que de mim reclamarão algum socorro, e para as minhas despesas particulares, não dissesse a ti que o Flach, de quem tenho muitas vezes escrito, é digno de toda tua consideração e de meu Augusto Pai, a quem peço-te remeter a inclusa.

Este virtuoso amigo, além de ter se sacrificado e comprometido a si mesmo e seus negócios para me servir, não desprezou meio algum para me procurar socorros. Peço-te por quanto tens de mais sagrado de lhe prestares todo o auxílio, de modo que ele possa satisfazer aquelas dívidas que por mim tem contraído. Recomendo este exemplo da mais virtuosa amizade. Cadolino te dirá qual foi o procedimento de Marechal para comigo. A Marquesa de Aguiar fica encarregada de dar a ti os mais miúdos detalhes sobre quanto diz respeito às minhas queridas filhas. Ah, minhas queridas filhas! Que será delas depois da minha morte? É a ela que entreguei a sua educação até que o meu Pedro, o meu querido Pedro não disponha o contrário. Adeus minha adorada mana.

Permita o Ente Supremo que eu possa escrever-te ainda outra vez, pois que será o final do meu restabelecimento.

L.S. B. Marquesa de Aguiar Escrevi.”

Paixão e Matrimônio


Todo o cortejo, presidido pelo Marquês de Marialva, tinha como único objetivo a formalização de contrato de matrimônio, que se daria entre o Príncipe Pedro de Alcântara, filho de João VI e Dona Carlota Joaquina e a jovem Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo, filha de Francisco I – Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, posteriormente intitulado Imperador da Áustria – e a Imperatriz Maria Teresa de Nápoles e Sicília.

Uma vez executadas as formalidades e recepções de praxe, portugueses ofertaram mimos e presentes aos austríacos, incluindo pedras preciosas e peças de ouro.

Francisco I quebrava naquele momento uma premissa de foro íntimo: poucos anos antes, após se ver coagido a casar uma de suas filhas com Napoleão Bonaparte (sendo ele, inclusive, sobrinho direto de Maria Antonieta), tomou a decisão de que nenhuma de alguma outra sua filha solteira se casaria por questões de ordem política. Contudo, a situação era peculiar e sem precedentes.

Leopoldina nasceu em 22 de janeiro de 1797, e cresceu em meio a uma família equilibrada e unida. Era extremamente culta. Mantinha relações de amizade com cientistas, artistas, historiadores e filósofos (Goethe e Schubert, entre outros nomes famosos). Dominava vários idiomas, incluindo grego e latim. Apaixonada por botânica, zoologia, astronomia, mineralogia, literatura de todas as origens. Excelente amazona, cavalgava com as pernas abertas, contrariando – elegantemente – os costumes mais conservadores de sua época.

A paixão romântica foi quase imediata: deparando-se com uma gravura singular de seu pretendente, se encantou com o que lhe foi descrito como um homem culto, ilustrado, estudioso, príncipe em um lugar exótico, multicultural e quase inexplorado, no qual poderia ser amada, constituir a sua própria família e ainda adquirir conhecimentos. Leopoldina também sabia que seu casamento seria imprescindível à autonomia e unidade das diversas cortes e impérios da Europa.

Em maio de 1817 ela se casa por procuração, alimentando a cada dia a ideia sublime e esplendorosa do que seria o seu “príncipe encantado”, e parte com a sua comitiva para os “trópicos”.

Após uma viagem longa e extenuante – mais de 80 dias desde a partida de Viena – Dona Leopoldina desembarca, em novembro de 1817, no porto do Rio de Janeiro.

Aclamada pelos súditos e por toda a nobreza instalada na Colônia, Leopoldina se depara com festejos e inúmeras homenagens. Conhece uma cidade decorada e lavada especialmente para a ocasião de sua chegada, com alegorias criadas por Jean-Baptiste Debret. Até mesmo o abominável mercado do Valongo (antiga enseada que se notabilizou como o maior e mais brutal mercado de seres humanos do planeta) foi soterrado às vésperas, para que não causasse estupor aos visitantes austríacos – embora a ignominiosa escravidão seguiu predominando a base econômica de mão-de-obra na colônia, perdurando ainda por quase 70 anos e manchando de vermelho sangue a história do século XIX.

Trouxe em sua bagagem vários baús e malas repletas da melhor literatura, livros de ciências exatas e naturais, instrumentos, partituras musicais, cartas cartográficas, muitas das quais sequer foram abertas durante a sua vida. Dona Leopoldina foi motivo de chacotas ante o interesse por leitura e conhecimento.

O casal se instalou em uma bucólica casa de campo aos arredores da Quinta da Boa Vista. Tudo aparentemente transcorreu em paz nos primeiros meses. Entretanto, não demorou muito tempo para que Leopoldina percebesse que o seu marido jamais fora um homem “culto, ilustrado, estudioso” – e que jamais assim seria nessa vida, muito embora dotado de senso de oportunidade, perspicácia e sagacidade, com cinco idiomas fluentes além de magnífica aptidão militar estratégica. Percebeu também que, embora o amasse com o máximo fulgor de sua alma, deveria aceitar o fato de que Pedro era garanhão impetuoso, portador de um inconsequente apetite sexual, nos exatos moldes de sua controvertida genitora, a Rainha Carlota Joaquina.


Uma Mulher à Frente do Seu Tempo


Leopoldina enxergou além do horizonte de princesa submissa/parideira/paparicada: viu que a independência daquela terra que a adotou com imenso carinho era imprescindível, que o povo já clamava por aquilo há algum tempo, e que o Brasil poderia sim trilhar a grandiosidade da nação em que merecia transformar-se. Leopoldina possuía verdadeira visão de Estado, e aos poucos se desprendeu do arcabouço de ideias conservadoras e absolutistas, sobretudo após o retorno de seus sogros à Península Ibérica.

Com habilidade extrema, influenciou diretamente na tomada de medidas e de decisões cruciais ao processo de libertação do Brasil da temerária subordinação à Corte Portuguesa.


Leopoldina, presidindo o Conselho de Ministros durante uma viagem de seu Príncipe a São Paulo, apoiou e decidiu peremptoriamente pela permanência dele no Brasil, no que a posteriori foi ratificado como “o dia do fico”. Mas viria ainda a parte mais importante:

Leopoldina, na qualidade de Princesa Regente Interina durante a ausência do marido, revoltada e indignada com os termos ostensivos e autoritários das cartas recebidas de Lisboa, nos quais comunicavam o definitivo retrocesso do Brasil a uma mera colônia portuguesa para sempre, redige e subscreve, junto ao Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, a Declaração de Independência em 2 de setembro de 1822, libertando oficialmente o Brasil do jugo, da opressão e da arbitrariedade lusas. Esse sim foi o verdadeiro grito de “independência ou morte”, tão-somente chancelado por Dom Pedro em 7 de setembro, quando recebeu de um mensageiro os documentos enviados por ela a São Paulo. “O povo está maduro, colhe-o já, senão apodrece”, teria avisado ao marido.

Não que o Imperador, repita-se, fosse um ignorante tolo. Nascido em uma nação em meio às conquistas napoleônicas, Pedro, tanto antes quanto após a declaração da independência do Brasil, foi o grande responsável pela unificação e consolidação de nosso território, a força motriz da aceleração do desenvolvimento da “terra brasilis”. E infelizmente a história atualmente não lhe faz justiça.

E assim surgiu um país livre, um Imperador chamado Pedro I e uma Imperatriz de nome Leopoldina (aclamados em cerimônia de coroação do dia 1. de dezembro do mesmo ano), esta profundamente amada pelos brasileiros. Aliás, é de autoria da Imperatriz a confecção da primeira de nossas bandeiras, nas tonalidades verde (alusiva à Casa de Bragança) e amarela (referência aos Habsburgo), substituindo o azul e branco portugueses.

Logo em seguida a Imperatriz dedica-se integralmente à tarefa de persuadir as cortes europeias a reconhecerem a autonomia e a liberdade brasileiras, num exemplo claro da melhor chancelaria. Mas enquanto isso o Imperador, safadamente, prevarica na seara de uma paixão canalha, ardente, arrebatadora, germinada exatamente no período inflamado da independência.

A Amante


Após muitos anos de maus-tratos e violações diversas, culminando com dois esfaqueamentos graves em praça pública, Domitila pede formalmente a separação de seu esposo, o que somente vem a se consolidar em 1824.

Domitila e Pedro de Alcântara foram apresentados em agosto de 1822, e o romance – tórrido, inconsequente, aviltante – tornou-se assunto público em pouco tempo.

A Imperatriz, como já dito, sempre soubera das aventuras amorosas do Imperador, bem como de seus filhos oriundos de relacionamentos furtivos, mas a tal da Domitila extrapolava todo e qualquer limite. Foi instalada no Rio de Janeiro em uma residência magnífica, a poucos metros do palácio imperial. Chegou a ser nomeada pelo Imperador como dama de companhia da Imperatriz traída, em um ato de grotesca velhacaria. Era recebida em eventos públicos com pompa e reverências de uma rainha, e transitava pela corte imperial com arrogância e manifesta indiferença.

O Imperador então se torna cada vez mais agressivo e desrespeitoso; a Imperatriz engorda muitos quilos, entra em profunda e inescapável melancolia, detalhadamente descrita nas correspondências enviadas aos familiares e amigos (aliás, urge consignar que todo o conteúdo do presente texto encontra-se baseado em fontes primárias – documentos históricos reconhecidos).

A Imperatriz da Independência do Brasil era agora uma prisioneira dependente em um “calabouço” ricamente decorado e sem grades – muito embora existam relatos de que o Imperador literalmente a trancafiava em seus aposentos durante as noites, entusiasmado com a nova “namorada” e com a generosa pensão periodicamente enviada à sua esposa pelo sogro, o Imperador da Áustria em pessoa, confiscada descaradamente sob o argumento de que se tratava de um soberano interesse de estado do Brasil.


O Desenredo


A saúde física e emocional da Imperatriz se deteriora rapidamente. A população se mobiliza em orações, novenas e procissões fervorosas dedicadas ao restabelecimento de Leopoldina, ao mesmo tempo nutrindo profundo desprezo e repugnância pelo Imperador e sua amante.

Em novembro de 1826 – e a fim de tentar aplacar (inutilmente) a execração pública e unânime ao relacionamento que ceifava a olhos vistos a fragilizada existência da Imperatriz – Pedro a nomeia novamente Regente do Império para que pudesse viajar ao Uruguai, envolvido em assuntos alusivos a Guerra Cisplatina. Em seguida determina a realização da cerimônia do “beija-mão” à Imperatriz em sua presença, pouco antes da viagem, porém com um detalhe sórdido e quase macabro: Domitila (já elevada ao título de Marquesa de Santos e ainda dama de companhia) deveria estar também presente ao evento, literalmente ao lado de Leopoldina. Ao saber do protocolo estruturado e das intenções de seu marido, a Imperatriz recusa-se a participar de tão humilhante “circo”, recuando de imediato e não adentrando à sala do trono. Foi então subitamente arrastada por um Imperador volátil e furioso, ultrajada com palavras e empurrões violentos. Mas, ainda assim, ferida de morte em sua alma e dignidade, não comparece à cerimônia por ele organizada.

O Imperador então parte ao sul do continente. Logo ao adentrar em Porto Alegre (escala obrigatória até o distante Uruguai) recebe a notícia de que a Imperatriz havia sucumbido à doença e ao sofrimento do espírito.

A Imperatriz Leopoldina faleceu precisamente aos 11 dias do mês de dezembro de 1826, no Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista. Tinha apenas 29 anos de idade.

Desnecessário mencionar a gigantesca comoção causada pelo seu falecimento. Obviamente o Imperador não pôde se casar com Domitila, e obteve reiteradas e peremptórias recusas aos pedidos de casamento formalizados junto a princesas europeias, uma vez que a tristíssima história da Imperatriz ganhou rapidamente o mundo. Dizem que Dom Pedro atravessou o resto de seus dias navegando pelos mares mais profundos e inúteis de simplório arrependimento; Leopoldina era defunta; nada agora mudaria isso.

Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo foi uma mulher à frente de seu tempo. Conviveu em meio ao machismo, à arrogância de mulheres e de homens medíocres e incultos, à misoginia pura e simples e a um relacionamento abusivo e covarde que predominou durante todo o seu casamento.

Resta incompreensível que, em pleno crepúsculo do primeiro quinto desse século tão conturbado, a Imperatriz Leopoldina seja relegada a apenas um ou dois parágrafos em nossos livros.

Não se justifica o fato de que a imensa maioria das pessoas que diariamente luta – ou que diz lutar – pela plena igualdade de direitos ignora por completo a saga da jovem austríaca delicada, dedicada e devotada que se viu jogada à cova de imensos brutamontes tropicais e sujos; que buscava o amor e o conhecimento, e que encontrou humilhação e morte prematura.

Eu afirmo que a nossa indiferença e desinteresse pela Imperatriz nos faz diretamente cúmplices de seu enorme sofrimento. Somos todos idênticos àqueles que zombaram dela e que não a motivaram a sequer abrir os seus baús de livros, artefatos, mapas e instrumentos.

Quantas “Leopoldinas” devem existir no Brasil atual? “Leopoldinas” que acordam antes do raiar do dia; que são bolinadas em vagões de trens suburbanos; que trabalham à máxima exaustão por remunerações salariais inferiores às de seus colegas homens; que capinam de sol a sol e que cortam cana; que usufruem de um sistema de saúde precário; que cumprem penas extensas em masmorras carcerárias; que realizam triplas jornadas diárias; que se aposentam depois de toda uma vida de labuta e depois precisam ajudar com a pensão minguada os familiares pobres; que mantém os filhos limpos, uniformizados e alimentados; que enfrentaram companheiros selvagens.

Leopoldina lutou sobretudo para manter-se viva, assim como ainda o fazem as mulheres “neocoloniais” que a sucederam. A história não mudou tanto assim.



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