LIVES: INDO AONDE O POVO ESTÁ

Por CÉLIA LADEIRA MOTA

Coluna Análise da Notícia



Nem tudo são dores e notícias tristes nestes tempos de pandemia. Se muitas emissoras de TV aberta repetem em uníssono e diariamente o número de mortes no país, de hospitais sem leito, de gente morrendo em casa, nas redes sociais um movimento surgiu e decidiu ir ao encontro do povo nas suas casas. Estou me referindo a músicos que expõem sucessos em lives que se tornaram um lugar de encontro da população com o que existe de melhor da música brasileira.


É emocionante ver Elza Soares, com seus 90 anos, cantando Carinhoso, um clássico, ou Gilberto Gil, festejando São João com o melhor da música nordestina. Como eles, músicos do mesmo quilate, como Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Zizi Possi, Milton Nascimento, têm transformado os nossos fins de semana.


Este encontro marcado com os artistas movimenta jovens, adultos e idosos de norte a sul, e revela a capacidade criativa dos brasileiros, capazes de dar a volta por cima de tanta tragédia e curtir as apresentações, seja por computadores, celulares ou TV, nas tardes e noites de sábados e domingos. Esta é a primeira constatação: em vez de ligar a TV nos velhos programas que há mais de 20 anos são uma única e pobre atração, as redes sociais mostram a diferença que chegou com a pandemia.


Podemos ter, sim, programa bom, música de valor, cantores abandonados pelas emissoras de TV, mas marcando presença e nos fazendo lembrar clássicos famosos da nossa música.


E essa é outra constatação do fenômeno das lives: a questão cultural. Como nos distanciamos dos cantores e cantoras que por tantos anos representaram o Brasil, suas regiões, suas tradições, e que foram postos de lado porque as emissoras queriam privilegiar apenas as gravadoras da empresa. A cultura de um povo constrói sua identidade, seja nacional ou regional e a música é uma das suas representações mais fortes.


Com a música cantamos a nossa história, os momentos que vivemos, as gírias de época, as fases. Assistimos pot-pourri sobre Ataulfo Alves, lembramos ruas e becos de Olinda e Recife na voz de Alceu Valença, recordamos Gonzagão e seu baião. E conhecemos músicos novos como o Renegado, cantando rap, a convite de Elza Soares.


Indo além dos shows pagos, dos programas curtos de TV, nas lives os artistas se despem de roupas de show e se apresentam de forma simples, com um ou dois músicos ajudando no violão, nas suas próprias casas ou em algum estúdio alugado, sentados ou descalços, como a nos convidar para um encontro. Nada é montado, iluminado, como nos shows convencionais.


E os cantores nos parecem seres humanos iguais a nós, vivendo as mesmas angústias e medos, todos sob a ameaça invisível do coronavÍrus.


E cantar é a saída. Cantemos com fé como ensina Gilberto Gil. Este momento é inesquecível e nos lembraremos das lives nos próximos anos a viver.


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