MAIS SALOMÃO E MENOS FARISEUS

Por ALFREDO BESSOW

Coluna Asas do Coração

Por formação religiosa, nunca convivi com a liturgia de pedir a benção – mas confesso que é algo que eu acho interessante. Por vezes, quando digo isto, as pessoas me olham meio assim de revesgueio, como se estivessem tentando entender o que eu possa querer estar dizendo, quando o que eu penso deste gesto devocional é apenas o que ele em si representa: respeito.


Pesquisando, descobri que costume de pedir a benção veio de Israel, da tradição judaica, passou pela Europa até chegar a nós, na maneira simplificada de “Deus te abençoe!” No entanto, seu significado vai além de uma saudação corriqueira. É uma unidade espiritual, tem seu peso na vida familiar.


Por vezes eu vivo situações engraçadas, quando sobrinhos ou filhos de amigos meus católicos chegam junto de mim e pedem a benção. Nunca neguei o “Deus te abençoe”, porque a graça de Deus nunca é demais e nunca deve servir de constrangimento. Já teve pai que fez isto exatamente para provocar e ver qual seria a minha reação e depois veio agradecer o fato de eu ter aquiescido com um ato que tem este aspecto de conforto espiritual. Eu, por exemplo, nos meus tempos de infância e mesmo depois de taludo e universitário, sempre que voltava para a casa dos meus pais me sentia emocionalmente confortado ao dizer, no alemão que me restou: Boa noite pai, boa noite mãe e diante da resposta deles, vinha a frase final: durma bem daqui e tu também de lá.


Não sei por que mas eu me lembrei desta liturgia prosaica do nosso cotidiano espiritual e cultural ao me deparar com a busca do protagonismo por parte de pessoas que deveriam aprofundar de modo muito contundente o apego a certas liturgias – mas que, no entanto e de modo desavergonhado e perigoso, procuram um protagonismo midiático, como se não conseguissem sobreviver em sua esfera do poder.


É lamentável e muito perigoso que em nosso país alguns magistrados das cortes superiores, principalmente do STF-Supremo Tribunal Federal e do TSE-Tribunal Superior Eleitoral, sintam uma compulsão quase que doentia para um exibicionismo que não faz bem nem para a Casa a qual eles pertencem, ao país no qual vivem e ao qual deveriam servir como magistrados e referência e muito menos à liturgia do cargo que ocupam – muitas vezes guindados a esta condição não necessariamente pelo saber jurídico, mas por terem prestado vassalagem e subserviência a pessoas que poderiam guindá-las a uma condição para a qual, volto a repetir, não possuem os requisitos necessários.


É algo estranho, mas sempre pensei no magistrado como aquela figura circunspecta, que tem em suas mãos a responsabilidade muitas vezes da liberdade ou de uma condenação. Conheci na convivência pessoas que tinham a plena compreensão desta sua função e a exerciam como se fosse um verdadeiro sacerdócio – porque a bem da verdade o julgar é um ato solitário e para o qual convergem tantos fatores emocionais.


Certamente você há de lembrar do episódio que está no Livro de Reis 3 de 16 a 28 quando é dado a Salomão o julgamento da causa das duas mães e uma criança e como ele decide. E lhes digo: falta esta sabedoria e esta ponderação há muitos julgadores que, aprovados em concurso, muitas vezes se julgam mais poderosos que o próprio Deus, da mesma forma que há ausência de sabedoria e discrição naqueles que tornados defensores da Constituição, se esmeram na arte de vilipendiar entendimentos apenas para que todos saibam que eles tudo podem.


Como seria bom se muitos dos nossos magistrados fossem mais Salomão e menos fariseus e hipócritas.


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