Memórias de Agosto: A morte de Vargas

Atualizado: Fev 17

Por CÉLIA LADEIRA MOTA




















Agosto, 1954. Uma crise política toma conta do país e ameaça o mandato do presidente Getúlio Vargas, eleito democraticamente em 1950.  Seu principal opositor, o jornalista Carlos Lacerda, acusava o mar de lama que correria nas profundezas do Palácio do Catete. Para piorar a situação, um atentado a Lacerda resultou na morte do major Vaz e ficou conhecido na história como o crime da rua Tonelero, em Copacabana. O mandante teria sido o chefe da guarda pessoal de Vargas, Gregório Fortunato. O crime tornava insustentável a manutenção de Vargas no poder.


Uma rebelião de oficiais da Aeronáutica, seguida de um manifesto, assinado por 19 generais do Exército, colocou em debate a renúncia de Getúlio Vargas. Era o dia 22 de agosto. Os quartéis se preparavam para a comemoração do Dia do Soldado, em homenagem ao Duque de Caxias. No Palácio do Catete, o assunto era o manifesto dos generais. Como reagir à pressão pela renúncia? Getúlio decidiu convocar uma reunião ministerial para o dia 23, uma segunda-feira. Na reunião, que entrou pela noite a dentro, Getúlio ouviu com paciência as ponderações dos ministros, alguns a favor da renúncia. Nada se resolvia e Getúlio decidiu lançar uma nota oficial em que aceitava deixar o poder se a ordem pública fosse mantida.

No entanto, uma ideia começava a ocupar a mente de Getúlio: “só morto sairei do Catete”.


Getúlio estava com 72 anos e queria descansar. Pediu licença e subiu para o seu quarto. A cada degrau, a ideia de morrer tomava corpo. Já era madrugada no Catete. Mesmo assim, cumprindo um ritual de todas as noites, Getúlio trocou a roupa, pôs o pijama e, antes de se deitar, decidiu escrever um manifesto, uma carta testamento, dirigida aos brasileiros:

“Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram o meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente, dou o primeiro passo no caminho da eternidade. Saio da vida para entrar na história”.


A madrugada chegava ao fim e os primeiros raios de sol do dia 24 de agosto de 1954 surgiam no céu. No Catete, um único tiro, disparado de um Colt calibre 32, acordou os outros moradores. Getúlio havia escolhido a morte. Vítima do ódio implacável que impede uma convivência pacífica entre os políticos brasileiros,  deixou um legado sempre lembrado, 65 anos depois.


Conhecido como o “pai dos pobres”, o gaúcho que nasceu no município de São Borja na fronteira com a Argentina, deixou realizações sempre lembradas: criou a Petrobras, a Companhia Vale do Rio Doce, a Siderúrgica Nacional, o BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.  Deu estrutura ao governo federal, criando os Ministérios da Fazenda, da Educação, da Saúde e do Trabalho, e foi o responsável pela Consolidação de Leis Trabalhistas criadas no seu primeiro mandato.  Instituiu o salário mínimo e garantiu o voto feminino. Foi o presidente que mais tempo esteve no poder.


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