MEU CONSELHO AOS CANDIDATOS DE 2020

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

Coluna Sapere Aude


“Quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia”

(João Guimarães Rosa)


Em 2020 teremos eleições para prefeitos e vereadores dos 5.570 municípios brasileiros, com pandemia e tudo. E 2020 está quase acabando sem mal ter começado. Veio com toda força e pujança, tal qual locomotiva com caldeira em combustão extrema.


Não é novidade que as eleições, de certa forma, já estão acontecendo. Articulações diversas, alianças, captação intensa de simpatizantes, aliados e de cabos eleitorais, esconderijo sistemático dos esqueletos que ainda não estão no sótão, conclusão de obras a toque de caixa eclodindo no Brasil inteiro, com propagação intensa de currículos e de realizações anteriores.


Parabéns aos que estão agora na política!! Parabéns pelo altruísmo, por literalmente terem optado pelo bíblico e não menos estóico preceito de “oferecer a outra face”. Parabéns antecipadamente pelo que vocês farão de bom por nós, os eleitores brasileiros.


Antecipo desde já as minhas congratulações porque não creio (rendendo-me à insistente, viciosa e talvez ingênua mania de estimar os outros) que depois de tudo o que passamos nos anos recentes vocês, candidatos, perpetuarão aquelas práticas estranhas, “pouco ortodoxas” - e até canalhas - que nos foram empurradas com escárnio e violência, transformando-nos em criaturas absortas pela apatia e pela indiferença. Em especial agora, quando recentemente elegemos Presidente da República, Senadores, Deputados e Governadores, exercendo a Democracia plena. Estamos cansados, candidatos.


Entrar para a política exige sacrifícios. Vocês devem se esquecer de que já tiveram alguma privacidade um dia. Vocês devem se acostumar a pedir votos com intensidade e afinco inquebrantáveis enquanto os seus empregos ou os seus negócios trafegam em suposto descontrole. Vocês farão litros e litros de café diariamente, porque as suas casas estarão sempre lotadas. Vocês vão gastar dinheiro (ah, vocês vão sim, irmãos); vocês verão ainda menos as seus filhos pequenos, aqueles mesmos, as criaturinhas que lhes outorgam a abundante paz quando os senhores voltam tarde do trabalho, com seus corpos e espíritos cansados, e sentirão saudades do programa de televisão interrompido diante das birras e dos gritos ao findar o dia.


Toda a sua perspectiva de mundo tende a mudar agora de forma vertiginosa. Não há mais cotidiano. Fatos corriqueiros do seu dia-a-dia não mais são apenas uns fatos corriqueiros. A partir de hoje são “fatos políticos”, ou seja, acontecimentos, incidentes e tragédias que agora clamam pelo posicionamento de vossas excelências, que, uma vez eleitos, serão, não raramente, tidos como os maiores culpados pelos males do mundo - e até dos males que não são do mundo. A neutralidade, na política, é risco muito sério. É faca amolada. Os eleitores cobrarão as suas atitudes e a proatividade sempre.


Aliás, cabe aqui uma constatação irrefutável no tocante aos nossos edis: o vereador do município, independentemente de onde esteja situado esse município (ou de sua variada geografia ou envergadura econômica) é a ponte única e direta entre o eleitor e o poder público. Os vereadores são comerciantes, médicos, taxistas, professores, agricultores, artistas, gente que se sentará à mesma mesa no boteco ou no mesmo banco da igreja, igual a todo mundo. Jamais poderão se esconder, porque serão lembrados disso.


Candidatos, eu quero que permaneçam hígidos e límpidos no palco iluminado, no decorrer de todos os adágios, moderatos, alegros e vivaces que sejam possíveis, até que as cortinas um dia se encerrem, quando aplaudiremos encantados. Eu adoraria se, nos dias antecedentes ao sufrágio, nenhum dos senhores se quedasse derrotado pela tentação da prática de crimes insidiosos, que maculam o processo eleitoral de forma irremediável, e denigrem a já combalida imagem da classe política brasileira.


Jamais se enveredem pela utilização excessiva, ostensiva e indiscriminada, antes ou durante a campanha, de recursos financeiros ou patrimoniais a fim de se beneficiarem (ou a algum outro candidato, partido ou coligação), afetando a normalidade e a legitimidade das eleições. Isso passa pelo uso de dinheiro pelos mais diferentes estratagemas, que vão desde a ajuda financeira a partidos e a candidatos até a manipulação da soberana vontade dos seus eleitores, através de propagandas subliminares maquiadas com as cores e as aparências de propagandas meramente comerciais. Isso se chama Abuso de Poder Econômico e nós, os eleitores, já estamos bem de saco cheio disso. Não rola. No way, candidatos.


Nunca façam a bobagem da utilização de bens móveis ou imóveis pertencentes à administração direta ou indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos territórios e dos municípios; da utilização de materiais ou de serviços custeados pelos poderes executivos ou casas legislativas, que excedam as prerrogativas de seus regimentos; da cessão de um ou mais servidores públicos ou empregados da administração direta ou indireta federal, estadual ou municipal do Poder Executivo, ou da utilização de seus serviços para comitês de campanhas eleitorais durante o horário de expediente; não façam uso da distribuição gratuita de bens e de serviços sociais custeados (ou subvencionados) pelo poder público. Isso porque, na hipótese vertente, estamos falando de Abuso de Poder Político, meus candidatos, e que, certamente, não estão dispostos a vagar pelo vale das sombras da inelegibilidade, tenebrosa, por intermináveis oito anos inteiros!!!! Estamos de olho. Aprendemos muita coisa nos últimos tempos...


O que move, em esfera derradeira, a intenção de voto de um eleitor é uma palavra conhecida, uma tal de Esperança, que significa, do latim arcaico, a sublime “confiança em algo positivo”. E, nesse sentido, todos nós alimentamos a real expectativa de que os senhores não serão ruins conosco.


Sei que consumarão o pleito eleitoral com sapiência, legalidade e respeito mútuos. E, uma vez lá dentro - nos representando pelos próximos mil, quatrocentos e sessenta dias ininterruptos - priorizarão o verdadeiro interesse público e a cidadania plena, e preservarão os nossos impostos por meio da aplicação correta de recursos, racionalizada, equitativa aos diversos setores da sociedade, honrando os seus mandatos com altivez, pensando não nas eleições futuras, mas nas gerações futuras; sem demagogia; sem hipocrisia.


É o que mais aspiramos. Apanhamos muito, candidatos. Desejamos paz e transparência. E bons ventos aos senhores. E bons ventos ao Brasil, que é de nós todos.


***

Conheça Andre R. Costa Oliveira

7 visualizações

Posts recentes

Ver tudo