MEU POVO, NÃO REVISE A OBRA DE MONTEIRO LOBATO!!!

Por ANDRE R. COSTA OLIVEIRA

Coluna Sapere Aude



No último dia 19 de janeiro de 2021 o colunista Marcelo Coelho, do jornal “O Estado de São Paulo”, escreveu sobre o que seria o racismo escancarado na literatura do escritor Monteiro Lobato (1882-1948).


E, de fato, sobretudo à luz dos dias de hoje, a leitura de suas obras exprime claramente o pensamento sobre a predominância intelectual dos povos europeus, a inferioridade dos que são de pele escura entre outros tópicos que abordarei logo a seguir.


Já mais recentemente, em 29 de janeiro último, foi exibida uma reportagem na TV Vanguarda, que é afiliada da Rede Globo no Vale do Paraíba - região em que se encontra a cidade de Taubaté/SP, aonde nasceu e viveu Monteiro Lobato - na qual a bisneta do escritor, Cléo Monteiro Lobato, notícia o lançamento de uma nova edição revisada do livro “A Menina do Narizinho Arrebitado”, desta vez sem alguns epítetos racistas.


Acredito que estamos todos cometendo um erro grave.


Monteiro Lobato jamais deverá ser revisado. Aliás, penso eu que ninguém talvez tenha que ter a sua obra revisada - sobretudo postumamente - exceto no que se refere às imprecisões de datas, citações de terceiros ou incorreções no vernáculo original.


Monteiro Lobato foi um fruto de seu tempo e assim deverá ser entendido. Era sim racista, ultra-reacionário e conservador ao extremo, disso nunca duvidamos.


Só que a versão original de “A Menina do Narizinho Arrebitado”, seja de que forma tenha ela sido escrita, deve ser mantida sim integralmente, tanto como peça literária (independentemente de quem goste ou não) quanto como documento histórico/cultural brasileiro, até mesmo para que receba as imprescindíveis críticas - tanto aquelas destinadas à obra em si quanto aquelas destinadas ao autor do livro.


Aliás, um fato muito importante: Monteiro Lobato - como não poderia ser diferente - foi um dos mais combativos e principais opositores ao movimento de arte moderna que surgiu no Brasil no início do século passado seguindo a tendência mundial da época, e que culminou na semana de arte moderna de 1922.


Há quem diga, inclusive, que a própria Semana de Arte Moderna de 1922 sequer teria acontecido (ou teria sido menos importante) se não fosse pelo conservadorismo, pela arrogância e pela prepotência de Lobato ao longo de suas inúmeras investidas.


Em verdade, no final de 1917, Lobato publicou uma ferrenha crítica - extremamente grosseira, machista, sexista, pernóstica - a uma belíssima exposição da artista plástica Anita Malfatti. Tal publicação, por seu teor e sua forma, representou literalmente uma declaração de guerra aberta ao modernismo, sendo que o próprio Lobato era também pintor (medíocre) e (pretenso) crítico de arte.


Foi a mobilização dos modernistas e a solidariedade à Anita (fato que recebeu a alcunha de “o caso Anita”) que impulsionou o movimento, plenamente agraciado com novos artistas engajados e com o suporte de setores da sociedade até então bastante improváveis. Monteiro Lobato foi mal necessário.


E se resolvermos agora revisar e reeditar também a crítica do escritor Monteiro Lobato a pobre da Anita? Vamos reconsiderar também a relevância da Semana lá de 22 e a magnitude dos Andrade’s (Carlos, Mário e Oswald), das Tarsila’s, dos Cavalcanti’s, dos Aranha’s, dos Veríssimo’s, dos Lins do Rêgo’s, dos Graciliano’s, dos Amado’s, dos Vinicius’s, das Clarisse’s, dos Melo Neto’s, dos Guimarães Rosas’s entre tantos outros? Será mesmo que a nossa gente está ficando doida a tal ponto?


Eu me lembro que, há cerca de 20 e poucos anos, logo no início da implementação das políticas de cotas raciais em universidades brasileiras, alguém deu a “brilhante” ideia de iniciar revisionismo e a demonização de um tal de Gilberto Freyre, autor, em 1933, da obra intitulada “Casa Grande e Senzala”, simplesmente o maior e mais sensacional trabalho sociológico abordando a formação do povo brasileiro.


Divisor de águas incontestável, Freyre aborda aspectos do cotidiano em um país formado por indígenas, europeus, escravos e imigrantes, país esse miscigenado, patriarcal e de uma cultura imensa, indizível. Leitura atemporal e obrigatória a qualquer ser humano pensante.


Entretanto, mesmo tendo desmistificado a (absurda e pseudo-científica) teoria da “determinação racial” (ou racismo científico/biológico), o coitado do Gilberto Freyre* foi linchado moralmente em praça pública* por determinada militância, porque a sua obra tenderia a uma “acomodação de classes com a insistência da resignação dos pobres e dos negros no contexto da sociedade”. Pai do céu, olha para onde estamos caminhando...


Se a moda pega, vamos então revisar “O Príncipe”, de Maquiavel (lançado em 1532), já que aborda conceitos absolutistas e ainda se refere ao povo como uma massa manobrável anencefálica (?). Vamos também reescrever Mein Kampf (Adolf Hitler, escrito na prisão entre 1925 e 1926), no qual ele relata ideias que fundamentaram o nazismo e as suas consequências monstruosas (porque, talvez assim, desapareçam milagrosamente a Segunda Grande Guerra, o Holocausto e os neo-facistas de subúrbio, quem sabe...).


Há também a Bíblia Sagrada Cristã, que deverá ser prontamente revisada e reescrita caso a ciência comprove que qualquer de suas narrativas não aconteceu de fato...


Vamos todos revisar a música de Wagner (antissemita), as letras do Chico (que enaltecem a malandragem), o cinema do Babenco (retratando heroicamente Lúcio Flávio, o “passageiro da agonia”, violento criminoso carioca).


Com efeito, a postura de Stálin quando apagou deliberadamente as imagens de Trotski de fotografias oficiais na Rússia comunista não conseguiu apagar a sua relevância na Revolução. E o breve governo democrático de Getúlio Vargas (entre 1951 e 1954) não apaga de sua biografia o fato de que o “democrata legalista” teve a ousadia de “rasgar” duas constituições inteiras na década de 30 e ao longo de 15 anos de ditadura violenta.


Voltando agora ao Monteiro Lobato:


Eu percebo que é bem mais cômodo que se exija, aos berros, a imediata revisão de uma produção artística e cultural do que demonstrar as suas idiossincrasias, os seus erros, as suas correções e interpretações ao longo dos anos e as falhas que ainda subsistem pelo tempo.


Acontece, meus leitores, que será exatamente essa demonstração que polinizará a iluminação e o conhecimento ao mundo.


Não é reescrevendo um livro que se cura preconceito e injustiça social. Livros devem ser lidos; debatidos; discutidos no contexto em que foram produzidos; amassados; espremidos; macerados até que nos deleitem com a seiva do conhecimento e da mais sublime percepção crítica. Livros revisados à conveniência de um movimento são livros falsificados. Todo mundo sabe disso.


Obras importantes - independentemente de seu conteúdo - valem também porque são parte da história. E, como dizia Durant, “a história ilumina o nosso presente e profetiza o nosso futuro”.

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*O enorme linchamento à produção do Gilberto Freyre teve a mesmíssima assinatura das pessoas que escolhem celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro entronizando Zumbi dos Palmares (que tinha escravos) e a Princesa Isabel (que apenas e tão-somente subscreveu a Lei Áurea em 1888), “esquecendo-se” de abolicionistas fundamentais e que deram o sangue e a própria vida pelo movimento, tais como Maria Firmina dos Santos, Joaquim Nabuco, Francisco de Paula Brito, Castro Alves, Francisco José do Nascimento (o glorioso “Dragão do Mar” cearense), Maria Tomásia, Pinto Rebouças, José do Patrocínio e por aí vai... E tenho dito.

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